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A foodtech N.ovo prepara um omelete (vegetal) com os ingredientes do Grupo Mantiqueira

A expansão internacional, potencializada pelos canais de distribuição da maior granja da América do Sul, e a ampliação do portfólio de produtos estão no cardápio de crescimento da startup, um spin-off que desenvolve produtos à base de plantas

 

Amanda Pinto, fundadora da N.ovo

Com 11 milhões de galinhas e uma produção de 2,3 bilhões de ovos por ano, o Grupo Mantiqueira é um dos grandes nomes no segmento de proteína animal no Brasil e a maior granja da América do Sul. E Amanda Pinto, filha de Leandro Pinto, fundador da operação, quer usar esses ingredientes em sua receita para tornar a empresa referência também em proteína vegetal.

Amanda está à frente da N.ovo, foodtech focada em produtos à base de plantas que podem substituir ovos em preparos diversos. Fruto de um spin-off do Mantiqueira, a startup já tem um portfólio com uma versão em pó para receitas, outra que substitui ovos mexidos, a única opção do tipo disponível no Brasil, e uma linha de maionese que ganha um novo sabor neste mês.

O próximo passo na consolidação da operação é a internacionalização desse portfólio, em linha com o DNA do grupo. Para fazer esse omelete (vegetal), a estratégia da N.ovo é usar os ingredientes do próprio grupo Mantiqueira, que exporta para países da África, Ásia e Oriente Médio.

O plano é oferecer os produtos fora do Brasil tanto em pontos de venda direta ao consumidor quanto por meio de parcerias com o setor de foodservice. Hoje, a versão em pó para receitas já é vendida na Noruega, na loja online Sorze4. Mas a fundadora conta que já tem negociações com Chile e Emirados Árabes.

As conversas com empresas de foodservice só não avançaram mais por conta da pandemia, mas Amanda quer explorar mais as possibilidades que o segmento oferece. Um plano de exportação ativa está previsto para ter início em 2023. “Por enquanto, os clientes nos procuram e, se as negociações avançam, vendemos usando os canais do Grupo Mantiqueira”, afirma Amanda, em entrevista ao NeoFeed.

A expansão internacional está atrelada a uma meta ambiciosa: transformar o País em uma referência no setor de alimentos à base de vegetais. “Acredito que o Brasil pode ser um grande player nesse segmento. Temos capital intelectual, algumas das maiores indústrias de proteína animal e já sabemos os caminhos logísticos”, diz Amanda.

Para se dedicar apenas à foodtech, que desde janeiro opera como uma empresa independente, Amanda se desligou da função que exercia na área de marketing e inovação do grupo Mantiqueira. Hoje, a equipe da N.ovo conta com mais cinco pessoas, todas mulheres. “Obviamente queremos homens na equipe à medida que formos crescendo, mas vamos sempre prezar por lideranças femininas”, afirma Amanda.

O Mantiqueira segue como investidor do N.ovo. Mas o novo desenho da foodtech vai permitir buscar aportes externos, caso eles sejam necessários. A autonomia na operação é um novo capítulo de uma história que teve início em 2017, quando Amanda começou a buscar alternativas para diversificar o portfólio do grupo e descobriu as startups do Vale do Silício que desenvolviam substitutos plant based para as proteínas animais.

Convencer o pai – e os acionistas – a investir na ideia, porém, não foi uma missão fácil. “Ele achava que eu estava sendo rebelde”, conta Amanda. A insistência deu certo. O primeiro produto, a versão em pó, foi lançado em 2019, após um ano de pesquisa e desenvolvimento.

A ampliação do portfólio é outra prioridade da foodtech nos próximos anos

Batizada de N.ovo Receitas e disponível hoje nas lojas das redes Pão de Açúcar e St.Marche em 12 estados, essa linha chega aos pontos-de-venda em uma embalagem que parece uma caixinha de ovos, mas o conteúdo é todo em pó e pode ser usado, por exemplo, em preparos de bolos.

Desde então, o mercado de proteínas alternativas cresceu. Uma pesquisa do instituto Emergen Research, especializado em tecnologias emergentes, projeta que o setor pode ultrapassar US$ 16 bilhões em 2027. Grandes empresas do setor de proteína animal passaram a investir no desenvolvimento de substitutos vegetais, como a JBS, Marfrig e Cargill.

“As gerações mais novas, especialmente a geração Z, estão mais conscientes do que consomem”, diz Cristina Souza, CEO da consultoria GS&Libbra. “Há uma preocupação da própria indústria em se reinventar por conta da dificuldade mundial em suprir nossa crescente demanda por alimentos.”

Outro produto da N.ovo, a mistura para ovos mexidos, foi desenvolvida após três anos de testes e pesquisa. “Foi nosso produto mais desafiador. Quebramos a cabeça para replicar textura, sabor, cheiro e cor”, diz Amanda.

A linha ainda não está disponível no varejo. A chegada em pontos de venda deve acontecer no primeiro trimestre de 2021. Mas o restaurante Le Manjue, em São Paulo, tem uma receita em seu cardápio que usa a mistura.

A produção da N.ovo é totalmente terceirizada. A matéria-prima desenvolvida pela foodtech é codificada e enviada a co-packers, empresas que não têm total conhecimento da fórmula.

Esses parceiros responsáveis pela produção sabem, por exemplo, que uma proteína de ervilha faz parte da composição, mas não a gramatura ou a densidade proteica.

Batizada de N.ovo Receitas, a versão em pó para receitas já é vendida nas lojas das redes Pão de Açúcar e St.Marche

Além dos dois substitutos e de uma linha com três sabores de maionese, a área de pesquisa e desenvolvimento tem um cronograma de lançamentos para os próximos cinco anos.

“Temos mais de 300 mil tipos de plantas comestíveis, porém, mais de 90% do que comemos vêm de 10 tipos de grãos”, diz. Atualmente, esse time estuda as possibilidades que esses vegetais oferecem.

A adoção de larga escala de novos alimentos à base de vegetais ainda tem, no entanto, um longo caminho pela frente. O preço é uma das principais barreiras. O N.ovo Receitas foi lançado com o valor de R$ 30 – e chegou a custar R$ 40 em alguns pontos de venda. Hoje, dois anos depois, custa metade disso.

O prato do Le Manjue, um omelete com shitake, custa R$ 48. “Estamos trabalhando para reduzir custos, especialmente em embalagem”, diz Amanda. “Ele tem que ser acessível, mas sempre será um produto premium por conta da escolha de ingredientes.”

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