A incrível história do casal que freou o avanço da Covid-19

A saga do casal de cientistas, Özlem Türeci e Uğur Şahin, da BioNTech, que desenvolveu a tecnologia para a vacina da Pfizer contra a Covid-19, é contada em livro recém-lançado no Brasil

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Os cientistas Özlem Türeci e Uğur Şahin: reconhecimento pelo estudo da pequena molécula  precursora de uma revolução na medicina

A tecnologia de vacinas tinha avançado bastante nos últimos vinte anos anteriores à decretação da pandemia da Covid-19 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 11 de março de 2020. Mas criar e testar um novo imunizante continuava a ser um processo repleto de riscos e incertezas.

Estudos mostravam que, nesse período, bilhões de dólares tinham sido investidos em projetos pelas maiores empresas da indústria farmacêutica e cerca de 60% deles fracassaram. Em fevereiro de 2020, Anthony Fauci, principal especialista em doenças infecciosas dos EUA, alertou que se houvesse uma aceleração nas pesquisas, uma vacina eficaz contra o coronavírus levaria pelo menos um ano, “no melhor cenário”.

Para a OMS, seriam necessários dezoito meses ou mais para que surgisse uma fórmula viável, sem considerar o processo de autorização para uso coletivo, fabricação em larga escala, distribuição e aplicação.

Nove meses depois, porém, uma vacina extraordinariamente eficaz, a primeira do Ocidente – enquanto russos e chineses anunciavam testes das suas –, com base em uma plataforma que nunca tinha sido usada antes por uma farmacêutica licenciada, foi disponibilizada, graças aos esforços de um casal de cientistas da cidade de Mainz, na Alemanha, que, no passado, tinha sido alvo de escárnio na comunidade científica.

O livro “A vacina: a história do casal de cientistas pioneiros no combate ao coronavírus”, de Joe Miller (repórter do Financial Times), e dos cientistas Özlem Türeci e Uğur Şahin (Editora Intrínseca) conta essa extraordinária história em detalhes. Lançada este mês no Brasil, a obra mais parece um daqueles filmes de suspense de tirar o fôlego que todo mundo gosta de ver no cinema ou na TV, à espera de um final feliz. Mas nada ali é ficção.

Em um exercício do melhor jornalismo investigativo de apuração, Joe Miller escreveu uma narrativa com elementos de terror e pânico, só que real, com todo o planeta como personagem principal e alvo de um só vilão devastador – um vírus.

O repórter do Financial Times escreveu uma narrativa com elementos de terror e pânico com todo o planeta como personagem principal e alvo de um só vilão devastador – um vírus

Nos primeiros meses da pandemia, Miller se destacou por cobrir a corrida pelos imunizantes ao redor do planeta e os efeitos da pandemia na Europa, a partir de Berlim. Inicialmente, teve a ideia de escrever um livro sobre o fracasso da luta pelas vacinas, enquanto milhares de pessoas morriam todos os dias. Era no que ele acreditava.

Até que, em maio, recebeu uma ligação de um casal de cientistas filhos de turcos para lhe oferecer uma pauta: a empresa dos dois, a BioNTech, havia fechado uma parceria com a farmacêutica Pfizer para bancar uma pesquisa de desenvolvimento de um imunizante contra a COVID-19.

O jornalista ficou tão impressionado com o que ouviu que acreditou na sua viabilidade. “A vacina está nascendo em um pequeno laboratório no interior da Alemanha e vai mudar a humanidade”, disse para si mesmo.

Naquele momento, narra ele, centenas de farmacêuticas e laboratórios ao redor do mundo corriam para produzir imunizantes. “Quando eu entendi a dimensão da história e que realmente aquele seria um dos imunizantes (que daria certo), fiquei tão surpreso e feliz quanto todo mundo.”

De acordo com ele, Özlem e Uğur sabiam que qualquer um que tentasse desenvolver uma vacina eficaz precisaria de muito mais do que mera excelência cientifica para ser bem-sucedido. Miller acrescentou também necessitaria de uma dose respeitável de sorte.

Em primeiro lugar, afirma, nunca houve garantia de que qualquer novo vírus pudesse ser alvo de uma vacina. As tentativas de produzir um medicamento profilático para o HIV/Aids, por exemplo, não apenas falharam, mas, em alguns casos, exacerbaram a doença. Em segundo lugar, não se sabia quase nada sobre o novo coronavírus.

“Ninguém fazia ideia de quais partes do complexo sistema imunológico humano eram necessárias para combater a infecção natural, ou se aqueles que se recuperassem da doença causada por ela desenvolveriam imunidade duradoura.”

Não havia, claro, nenhuma vacina bem-sucedida contra a COVID-19 que pudesse ajudar Özlem e Uğur a avaliarem a probabilidade de vitória no combate à descoberta da doença em Wuhan, na China.

Nos últimos anos, conta Miller, os cientistas correram para desenvolver vacinas em resposta aos surtos anteriores de SARS e MERS, mas as duas doenças desapareceram antes que um imunizante pudesse passar por testagem clínica. Não havia um modelo a ser seguido, enfim, ao menos um mapa ou algum conjunto de instruções para combater esse patógeno.

Os dois acreditavam, no entanto, em um caminho que eles mesmos conheciam e que podia ser viável. Por décadas, a equipe da BioNTech, liderada por marido e mulher, estudava uma pequena molécula rejeitada pela indústria de remédios que poderia ser a precursora de uma revolução na medicina, ao controlar os poderes do sistema imunológico. “Mas os dois não sabiam que seria necessária uma pandemia implacável para provarem que estavam certos”, observa Miller.

Por décadas, a equipe da BioNTech, liderada por marido e mulher, estudava uma pequena molécula rejeitada pela indústria de remédios que poderia ser a precursora de uma revolução na medicina

Quando divulgaram seus estudos, dúvidas foram levantadas em relação a esta inovação, porque foi comprovado que as vacinas baseadas em DNA modificaram o genoma existente. “O RNA mensageiro (mRNA) — que, após cumprir a sua função, é degradado minutos depois pelo corpo — não tem como causar esse tipo de dano. A molécula só entra em contato com o perímetro externo das células humanas, e é altamente improvável que altere o DNA”, explicaram, convictos, depois de várias pesquisas.

Ou seja, a vacina genética que seria aprovada usaria o RNA mensageiro, uma parte do código genético do novo coronavírus, para ensinar o corpo a se proteger da doença, pois carrega instruções para que a célula humana produza uma proteína do vírus que impede criar suas cópias, sua multiplicação letal.

Como outros imunizantes, essa ação não fabrica o vírus por inteiro, apenas uma porção minúscula dele, para infectar as células humanas de forma benéfica e causar reação combativa. Assim, o sistema imunológico pensa que a célula está de fato infectada e cria uma resposta específica para aquele material genético intruso e o neutraliza.

Após convencer a Pfizer do uso da subestimada molécula de mRNA, os dois cientistas desenvolveram vinte possíveis vacinas em poucas semanas, até chegar à versão final do precioso imunizante. Em cada etapa, tiveram percalços, superados por êxitos empolgantes.

Ao mesmo tempo que conta essa luta desenfreada contra o tempo para salvar vidas, Miller apresenta um amplo contexto em que tudo se deu, com aspectos científicos, econômicos e políticos contrários àquela aposta, além do ceticismo dos investidores e a necessidade de desviar da interferência política negacionista da administração do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da União Europeia.

Ao longo de meses, a BioNTech e seus funcionários sofreram com ações de amplo alcance nas redes sociais de conteúdos negacionistas e racistas, por causa da origem turca da dupla. As ameaças vinham de grupos políticos antivacina e de ativistas dos direitos animais, devido aos testes feitos no processo de desenvolvimento da vacina.

A BioNTech e seus funcionários sofreram com ações de amplo alcance nas redes sociais de conteúdos negacionistas e racistas, por causa da origem turca da dupla

Além disso, por ser um imunizante produzido com uma tecnologia inédita, o mRNA, havia preocupação com possíveis tentativas de sequestro ou invasões da empresa para descobrirem os estudos que levaram ao sucesso do imunizante.

Os ataques de descrédito e ofensa não cessaram durante todo o ano, mesmo com os primeiros testes positivos e animadores. “Após a revelação sobre os planos da BioNTech para uma vacina, centenas de cartas — algumas racistas, outras contendo ameaças de morte — começaram a chegar ao polo de Mainz (Alemanha) e coube ao gerente de laboratório, François Perrineau, abri-las. ‘No começo, eu tinha que ler essas mensagens’, diz. Ele admite que ‘sentiu o impacto’ do linguajar usado para descrever Özlem e Uğur e do ódio dirigido a eles por conta da fé ou da origem”, relatou o funcionário ao autor.

A narrativa de tirar o fôlego de Joe Miller permite conhecer as descobertas médicas mais importantes das últimas décadas, descritas para ajudar na compreensão da busca pela vacina contra o coronavírus. Lembra a aplicação da primeira dose no Reino Unido de uma vacina eficaz, em 8 de dezembro de 2020, os testes, o suspense pela aprovação das autoridades de saúde e a indescritível alegria de salvar tantas vidas.

Escrito no segundo semestre do ano passado, já com a certeza da eficiência de quase uma dezena de imunizantes, o emocionante “A vacina: A história do casal de cientistas pioneiros no combate ao coronavírus” é, desde já uma obra de referência histórica.

Serviço:


A vacina: A história do casal de cientistas pioneiros no combate ao coronavírus
Autores: Joe Miller, Özlem Türeci e Uğur Şahin
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 385
Preço: R$ 59,90

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