A onda de alta nos juros não acabou. E o Copom alerta: vem mais por aí

Inflação segue mais pressionada e comitê acena com alta de Selic de até 0,50 ponto. E mais: diz que medidas tributárias em tramitação reduzem inflação agora, mas elevam mais adiante

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Assim como a taxa de juro, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) cresceu de maio para junho. Ganhou novos parágrafos que comportam mais preocupação do Banco Central (BC) e não só com a inflação – mais persistente que o esperado –, mas também com uma desaceleração global mais acentuada em ambiente de inflação significativamente pressionada.

E o comitê já antecipa uma desaceleração da atividade global nos próximos trimestres, em função das tensões geopolíticas e do aperto na política monetária e nas condições financeiras em curso nas principais economias. Quanto à atividade doméstica, o Copom avalia que os dados recentes refletem normalização após a pandemia.

Nos próximos trimestres, porém, a atividade deve desacelerar quando os impactos defasados da política monetária se fizerem presentes. A ata, divulgada nesta terça-feira, reitera que as diversas medidas de índices de preços apresentam-se acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta de inflação.

O aumento da Selic em 0,50 ponto percentual, para 13,25% ao ano, anunciado na semana passada, é compatível com a estratégia de convergência da inflação para “o redor da meta” ao longo do horizonte relevante da política monetária, que inclui 2023.

Para a próxima reunião, em agosto, o colegiado antevê um novo ajuste de 0,50 ponto ou menos e nota que “a crescente incerteza da atual conjuntura aliada ao estágio avançado do ciclo de ajustes e seus impactos ainda por serem observados, demanda cautela adicional de sua atuação”. Em maio, o comitê via apenas elevada incerteza da conjuntura. Agora ela é crescente.

Mauricio Oreng, superintendente de pesquisa macroeconômica do Santander, avalia que o Copom admite que apenas a perspectiva de manter a taxa Selic durante um período suficientemente longo não asseguraria, neste momento, a convergência da inflação em torno da meta no horizonte relevante. “Este é o raciocínio para a sinalização de outro ajuste de 0,25 ou 0,50 pontos para a próxima reunião”, afirma.

A expressão para “o redor da meta”, que tanto intrigou analistas na semana passada, quando mencionada no comunicado que confirmou a décima segunda alta da Selic, é repetida ao longo da ata e apontada como estratégia.

Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset Management, pondera que “as metas de inflação de 2022 já estão perdidas e considerando os efeitos defasados das decisões de juros anteriores ainda não efetivados na economia, 2023 também está com seu trabalho feito, onde provavelmente as metas não serão atingidas no seu centro”.

A ata reitera que o ciclo de ajuste [de juro] já feito foi “bastante intenso e tempestivo” e que, devido às defasagens de política monetária, ainda não se observa grande parte do efeito contracionista esperado bem como seu impacto sobre a inflação corrente. Mas o comitê também notou deterioração da dinâmica inflacionária de curto e de longo prazos.

Continuam pesando sobre a inflação, que em suas diversas referências escapa das metas a serem perseguidas pelo BC, “maior persistência das pressões inflacionárias globais e a incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal do país e políticas fiscais que sustentem a demanda agregada”.

Quanto às medidas tributárias – focadas nos preços dos combustíveis – reduzem sensivelmente a inflação no ano corrente, embora elevem, em menor magnitude, a inflação no horizonte relevante da política monetária.

“A conjuntura é particularmente incerta e volátil e requer serenidade na avaliação dos riscos”, afirma o documento que não foi mais duro com a política fiscal. E, possivelmente, porque o cenário fiscal não é negativo. Ao contrário, nos últimos dozes meses encerrados em abril, o governo registrou superávit de R$ 137,4 bilhões, o equivalente a 1,5% do PIB.

O que falta ao país é perspectiva fiscal que, a essa altura do calendário, é mesclada com a expectativa do mercado com a corrida eleitoral. Gestores consultados pelo NeoFeed não veem, por ora, a eleição presidencial como um risco embutido nos preços dos ativos. Mas, alertam, é questão de tempo. Em um ou dois meses, virá à tona a questão para a qual ainda não se tem resposta: qual será a política econômica vigente a partir de 2023?

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