Insiders

A visão pessimista do mundo pós-pandemia de um professor do MIT

Autor de “Por que as nações fracassam”, Daron Acemoglu diz que o mundo vive um período crítico em que terá que lidar com o envelhecimento da população, a automação do trabalho, a crise na democracia e a falta de cooperação global

 

Daron Acemoglu, professor de economia do MIT

Em um momento no qual o mundo começa a planejar os próximos passos quando a pandemia estiver controlada, o professor de economia do MIT e autor de “Por que as nações fracassam” Daron Acemoglu quer chamar a atenção para uma série de desafios – e algumas oportunidades – que esses tempos turbulentos apresentam.

Na visão de Acemoglu, são quatro os grandes desafios que precisarão ser encarados: o envelhecimento da população, a automação do trabalho, o recuo das democracias e o colapso da cooperação internacional.

O envelhecimento da sociedade é um fenômeno já percebido em muitos países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e será um fator ainda mais relevante na América Latina nas próximas duas décadas. Com a população mais velha, a indústria tem acelerado a adoção de tecnologias de automação.

“Países como Alemanha e Coreia do Sul, onde esse envelhecimento é mais rápido, tem adotado esse tipo de tecnologia em uma velocidade maior”, afirmou Acemoglu, em evento realizado pelo Bradesco BBI nesta quinta-feira, 8 de abril. Segundo ele, é um caminho que surgiu para suprir a falta de mão de obra.

Essa automação, no entanto, se reflete em diversos problemas. O aumento da desigualdade é um deles, com a consolidação de posições no mercado de trabalho extremamente qualificadas e com salários altos. Ao mesmo tempo, surgem novos trabalhos precarizados, que pagam menos. Nesse contexto, a classe média vem sendo achatada.

E nem sempre o uso da automação e da inteligência artificial, que poderiam ser aplicadas para potencializar as capacidades humanas, dão os resultados esperados. “É o caso de empresas como Google e Netflix, que têm um valor de mercado maior que a GM, por exemplo, e empregam uma fração de seus trabalhadores”, disse.

Seu argumento é de que o mercado de trabalho oferece diversas oportunidades para a sociedade, especialmente para uma parcela da população que não pertence à elite. Se esse potencial for destruído, a sociedade falhará em criar instituições inclusivas.

É por isso que Acemoglu entende que deve haver um tipo de regulamentação das grandes companhias de tecnologia. O professor acredita que a sociedade e os governos precisam ajudar a direcionar os investimentos em inovações em áreas que podem beneficiar a todos.

Ele citou o exemplo da energia solar e eólica, que recebem subsídios governamentais. “Se deixássemos apenas na mão do mercado, o setor de energia teria ainda mais combustíveis fósseis”, afirmou.

Acemoglu também ressaltou que, com menos oportunidade de trabalho, a concentração de renda na mão da elite e de grandes companhias pagando poucos impostos, a população tende a ficar insatisfeita.

Além da economia, há questões políticas reforçando esse turbilhão de desafios: a perda de força das democracias ao redor do mundo. “Assistimos a muitas ameaças ao modelo democrático nos últimos 15 anos”, disse Acemoglu. “Com a diferença de que elas não assumem o modelo tradicional de regimes totalitários que a América Latina está acostumada, com tanques nas ruas”.

Segundo Acemoglu, os ataques à democracia podem acontecer por meio de líderes autoritários da extrema-direita, como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil. Ou com governos que centralizam volumes enormes de informação, como a China. Com isso, as pessoas vão perdendo a confiança nas instituições.

Para ele, as causas para essa guinada ainda não estão totalmente claras, mas envolvem a falta de habilidade de governos em entregar uma prosperidade compartilhada aos seus cidadãos, que acabam recorrendo a líderes autoritários.

O último ingrediente desse desafio é a falta de cooperação global. De acordo com o professor do MIT, instituições internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, já estavam enfraquecidas antes da pandemia, mas ficaram prostradas com a chegada da Covid-19.

“Tivemos um exemplo do poder da cooperação logo no início, com o sequenciamento do vírus, que gerou uma resposta rápida”, disse Acemoglu. Em seguida, no entanto, a distribuição desigual de vacinas deixou clara a falta de acordos globais.

E qual é o caminho para o futuro? “As questões são todas muito importantes, mas não tenho respostas tão maravilhosas assim” diz Acemoglu, para quem o mundo vive um momento crítico, no qual a direção a seguir é incerta.

Ele destacou, porém, algumas necessidades, como a criação de dispositivos de regulamentação das grandes companhias de tecnologia e das bases para uma taxação mais justa. Os governos também devem assumir mais responsabilidades pelo bem-estar de seus cidadãos.

Acemoglu acredita ainda que essas lideranças devem convocar a população a participar mais ativamente das discussões, mostrando que essas instituições, de fato, estão funcionando.

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