Aeron Chair, a “cadeira de CEOs”, se dobra ao plástico dos oceanos

Nova geração de ícone da Herman Miller, feita com material reciclado, simboliza mudança no papel das lideranças – e outras transformações no dia a dia do mundo corporativo

0
172
Leia em 4 min

A cadeira é um símbolo dos novos tempos em que as lideranças precisam se pautar pelos princípios de governança e socioambientais

Até o advento do ESG, que designa boas práticas ambientais, sociais e de governança, um dos maiores símbolos da hierarquia no universo corporativo era o Rolex Day-Date, lançado em 1956. Conhecido como “o relógio dos presidentes” – e promovido pela relojoaria suíça como tal –, virou sinônimo de poder. Muito poder.

O ex-presidente americano Lyndon B. Johnson, o bilionário Warren Buffett e o rapper Jay Z são alguns dos poderosos que carregam ou carregaram o acessório no pulso – no papel do mafioso Tony Soprano, o ator James Gandolfini fez o mesmo em “Família Soprano”. As versões mais recentes custam a partir de R$ 144 mil.

Lançada pela Herman Miller em 1994, a Aeron Chair virou outro símbolo evidente de status no ambiente corporativo – similar às gigantescas salas reservadas até há pouco aos altos executivos, entre outras mordomias. Conhecida como a “cadeira de CEOs”, ganhou adeptos ilustres – e poderosos – como Barack Obama, Steve Carell e Jô Soares.

Só que a Herman Miller – diferentemente da Rolex com seu relógio Day-Date – resolveu adequar a peça aos novos tempos e mudar a imagem dela. Isso porque o papel dos CEOs mudou radicalmente com o advento do ESG (para não falar da pandemia, que virou o dia a dia dos escritórios do avesso). Não à toa, duas grandes companhias, Apple e Disney, anunciaram recentemente que vão atrelar o pagamento de bônus de executivos ao cumprimento de metas sócio-ambientais.

Para se adequar as novas exigências, a Aeron Chair se dobrou à sustentabilidade. Recém-lançada, a nova geração da cadeira é feita com plástico retirado dos oceanos. Com a mudança, a fabricante planeja reciclar todos os anos 150 toneladas de plástico que ameaçam a vida marinha. Equivale a uma gota no oceano, pois 86 milhões de toneladas de plástico, estima-se, terminam nos mares a cada ano. Mas qualquer iniciativa do tipo é bem-vinda.

Diretora de alta performance da divisão de cadeiras da companhia, Amy Smith não confirma que a nova Aeron Chair é uma resposta às novas atribuições dos líderes empresariais, que agora não podem mais falar só em lucro. Mas ela também não nega.

Disse ela ao NeoFeed: “Na década de 1950, nosso fundador, D. J. DePree, disse o seguinte: ‘a Herman Miller deve ser uma boa administradora dos recursos da Terra’. Desde então, nos esforçamos para projetar produtos que sejam bons não só para o corpo humano, mas também para o meio ambiente”.

Smith afirmou, no entanto, que os executivos de hoje em dia querem dar o exemplo daquilo que buscam tirar do papel – daí a decisão de transformar o produto de maior apelo da Herman Miller, com mais de 7 milhões de unidades vendidas, em sinônimo de sustentabilidade.

“A sustentabilidade é uma questão global e a soma de pequenas coisas”, acrescentou Amy. “Começamos com a Aeron porque é o produto que pode causar o maior impacto positivo no meio ambiente. Mas não concluímos nossa jornada rumo à sustentabilidade. Temos muito a aprender.”

Registre-se que a Herman Miller, fundada em 1905, é uma das criadoras da NextWave Plastics, um consórcio que busca desenvolver uma rede global de suprimento de plástico tirado dos oceanos.

Em 2019, a companhia se impôs a meta de diminuir em 30% o uso de embalagens plásticas descartáveis. De 2004 para cá, reduziu a emissão operacional de poluentes em 91% e passou a usar só energia elétrica oriunda de fontes renováveis.

Algumas das metas traçadas para 2023: zerar o desperdício, reduzir o consumo de água pela metade – significa 30 milhões de “galões” a menos – e atingir a marca de 125 mil toneladas de produtos retornados a cada ano.

Visualmente, a nova Aeron Chair, que custa R$ 14.665, não deve nada às versões anteriores. Criada pelos designers Bill Stumpf e Don Chadwick, a peça marcou o fim da era das cadeiras de escritório estofadas – móveis de couro ou de tecido dominavam os ambientes corporativos assim como o fumacê dos cigarros, onipresentes até a virada do século.

A cadeira também deve sua fama ao sistema de distribuição de peso e à engenharia que garante apoio total à coluna, além de reclinação equilibrada e de inclinação harmônica.

A dúvida que fica é se a nova Aeron Chair se destina aos escritórios das companhias, que em geral continuam bem menos movimentados do que antes da pandemia, ou ao home-office, que, definitivamente, veio para ficar.

Para tentar responder a perguntas como essa, a fabricante elaborou uma pesquisa no ano passado com arquitetos e designers de 13 escritórios brasileiros. Ganhou o nome de “O Futuro do Trabalho.”

O estudo concluiu que os líderes empresariais, de maneira geral, se habituaram com a ideia de que os funcionários podem ser produtivos também fora do escritório — pelo menos em alguns dias da semana. Não à toa, jornadas híbridas e mais flexíveis já viraram regra em grande parte das empresas.

O estudo constatou, no entanto, que a nova configuração demanda escritórios nos quais os lugares marcados não têm mais vez. Portanto, das duas, uma. Qualquer um vai poder sentar na cadeira do CEO. Ou as empresas terão de comprar cadeiras do tipo para todo mundo.

Leia também

Brand Stories