Frank Geyer Abubakir, presidente do conselho de administração e maior acionista da Unipar Carbocloro, tem adotado o tom mais otimista, sem deixar de ser realista, para lidar com essa crise causada pelo coronavírus.
Aos seus amigos mais tristes, que têm andado cabisbaixos, indica a leitura de “O estrangeiro”, um clássico da literatura francesa, escrito por Albert Camus, que retrata as reflexões de um homem que, repentinamente, se vê privado de sua liberdade de ir e vir.
“Eles me dizem: ‘Ah, não! Vou ficar mal’. Mas eu digo que é um remédio amargo. Sente o amargor, mas depois vê, mesmo com as dificuldades, que a vida é bela”, diz Abubakir ao NeoFeed.
Apesar de todas as dificuldades pelas quais a economia brasileira passará, a Unipar Carbocloro está em uma posição, digamos, mais “confortável”. Não que a companhia não seja afetada pela baixa demanda que virá, mas sim porque boa parte dos produtos químicos que produz são essenciais no dia a dia da população.
A empresa é a maior produtora de cloro-soda da América do Sul, materiais usados no tratamento de água e na indústria de limpeza, entre outras. Com cerca de 1,5 mil funcionários e uma receita líquida de R$ 3,04 bilhões em 2019, a empresa também vem reduzindo o seu endividamento nos últimos anos.
Ele caiu de R$ 1,02 bilhão, em 2018, para R$ 677,5 milhões no fim de 2019. Na entrevista que segue, Abubakir fala sobre as medidas que a empresa tem adotado, as dificuldades que virão e a avaliação de futuros investimentos.
Ele também discorre sobre a quarentena e o pagamento de dividendos da empresa para este ano. “É o momento de assunção de responsabilidade, diz ele. Acompanhe:
A empresa se preparou para o momento que estamos vivendo hoje?
A situação da gente difere de outras atividades. Pelo fato de viabilizarmos água limpa para milhões de pessoas, pois somos os maiores produtores de cloro-soda da América do Sul, temos a consciência que temos de estar do lado seguro da coisa. Não podemos ter uma atuação curto-prazista, oportunista ou de tomada de risco. ‘A gente pode ficar quanto tempo sem água?’. Talvez seja o produto que, na sua falta, mais rapidamente traga consequências para a qualidade de vida do ser-humano e para a sobrevivência. Então, começamos a tomar medidas com alguma antecedência. Se não viessem problemas, tudo bem. Mas não poderíamos arriscar. Tive uma reunião com a diretoria onde planejamos em fases quais seriam as principais linhas a serem adotadas caso viesse uma pandemia que trouxesse consequências e que trouxesse o confinamento, o que está sendo colocado agora.
Quais medidas foram adotadas?
Nossa preocupação é dar primeiro segurança aos nossos colaboradores. Eles têm de estar seguros sob o ponto de vista de saúde física e mental. E não só eles como as famílias deles. Portanto, criamos atendimento médico garantido para os funcionários e para as famílias dos funcionários, uma linha de comunicação com os funcionários e os seus familiares, amparo psicológico para as pessoas. Mudamos o sistema de alimentação, não temos mais buffet e entregamos o prato pronto. Estamos analisando a questão do transporte dos funcionários para não ser mais coletivo. Criamos a formação de times que pudessem se isolar separadamente, não podemos ter todos funcionários doentes ao mesmo tempo. Outra coisa que fizemos, com a ajuda de médicos e cientistas, foi o isolamento de pessoas que estão no grupo de risco.
"No que eu puder, não vai haver demissão. Enquanto estiver recebendo e tendo recursos, vamos garantir todos os funcionários"
Falando em funcionários, muitos empresários estão falando em milhões de demissões. Como você está enxergando os próximos meses?
No que eu puder, não vai haver demissão. Enquanto estiver recebendo e tendo recursos, vamos garantir todos os funcionários. Não posso comparar a minha atividade com quem tem um restaurante ou uma agência de turismo. Cada um vai ter que encontrar a sua repactuação. Nós estamos, inclusive, com os fornecedores e clientes, dispostos a repactuar, desde que com seriedade e bom senso. O objetivo da companhia nesse momento perde muito da percepção de lucro. Ou seja, agora não estamos olhando o lucro. Estamos olhando como atender o mercado porque os produtos precisam ser entregues para tratamento de água, para remédio, para limpeza.
Mas não preocupa a questão dos pagamentos?
Aqueles que podem, a gente cobra para que paguem os custos, para que eu possa pagar os meus colaboradores, para que todos possam ir para casa e terem comida e água. Falando agora como eu tenho feito como pessoa física, mandei todos que trabalham aqui em casa para as casas deles. Todos ficaram com medo e eu disse que todos vão continuar recebendo salário enquanto eu tiver dinheiro. A gente vai manter todo mundo porque acho que é o que tem de ser feito agora. A mesma coisa é para a companhia. Claro que eu não posso quebrar a companhia porque senão, inclusive, não consigo fazer o produto e pagar os salários dos colaboradores. Mas é o momento de quem aguenta mais, é o momento de assunção de responsabilidade. Estamos usando isso para tranquilizar as pessoas e também para servir como exemplo para que todo mundo que puder fazer.
Como estão as operações da empresa atualmente? Já falaram em fechar o Porto de Santos, por onde chegam vários insumos...
Se fechar o Porto de Santos, é um problema grave. Eu vi um único exemplo em que a Justiça do Trabalho atuou de forma rápida e eficiente. Aparentemente, tinha uma tentativa de greve em uma planta de produção de alimentos e a Justiça falou que não podia.
A empresa está trabalhando de forma normal?
Nosso parque industrial tem tido capacidade ociosa há cinco anos. Estamos atendendo a demanda e, sob o ponto de vista da nossa capacidade de produção, estamos com 30% da capacidade ociosa e temos condições de chegar a 100% de produção. Os colaboradores estão trabalhando para obter uma produção normal, mas não estão trabalhando normalmente por conta de uma série de medidas que adotamos para garantir a segurança deles. Mas com o País, em grande parte parado, provavelmente conseguiremos atender de sobra o mercado.
E vai ter demanda?
O que nos preocupa é a capacidade dos nossos distribuidores, clientes e consumidores de absorverem os nossos produtos. A gente percebe que as demandas de alguns produtos subiram e outros caíram.
Quais subiram e quais caíram?
Os químicos, que são soda, clora e derivados, subiram. E o PVC, o plástico mais conhecido pelos tubos de PVC, das conexões de água, está tendo uma queda. Não consigo fazer um produto e não fazer o outro. Preciso tornar o cloro inerte, inofensivo, e para isso misturo com o etileno e vira esse plástico. Estamos o tempo inteiro vendo os balanços nas plantas.
Aliás, tudo tem mudado rapidamente. O cenário de ontem já não é o mesmo de hoje. Como vocês têm trabalhado com essa volatilidade?
Para você ter uma ideia, minha última reunião ontem foi as 11h45 da noite. Fizemos, por exemplo, reunião para debater sobre as novas medidas anunciadas nos EUA e os impactos nos nossos negócios. Acordei hoje as 4h30 da manhã e já comecei a responder mensagens no Instagram, desde os funcionários aos distribuidores, e faço questão de responder a todos.
"Esquece a crise e pensa que a nossa situação era muito confortável. Nós aumentamos a recompra das nossas ações"
A economia vai sofrer muito e vão sobreviver as empresas que têm caixa. A Unipar tem caixa para aguentar?
Esquece a crise e pensa que a nossa situação era muito confortável. Nós aumentamos a recompra das nossas ações. Ainda temos uma situação confortável, um endividamento baixo e, pela nossa atividade, a gente aguenta mais tempo.
E os investimentos planejados, continuam no pipeline?
Na nossa atividade, o investimento em manutenção e segurança da planta não pode parar. Não existe possibilidade de parar esse tipo de investimento. Recentemente, anunciamos um investimento com a AES Tietê para a construção de um parque eólico (um projeto de R$ 600 milhões). Fizemos um signing, quando assina, e agora tem o closing, que é quando vai fechar lá na frente. Mas é claro que a gente vai ter que ver como vai ser o mundo.
Mas esse investimento está congelado?
Ele está sendo trabalhado, não está no momento de execução, vamos tocar normal. Provavelmente, esse horizonte vai se apresentar antes de a gente tomar uma medida de sim ou não, de postergação ou não.
A Unipar é conhecida por pagar dividendos. Isso vai continuar?
A política de dividendo nossa é de 25% do lucro líquido. Essa é a política dos tempos normais. Sob o ponto de vista de daqui um ano, não tenho a menor ideia de como essa crise vai, efetivamente, afetar. Não sei se vai demorar três meses, seis meses, um ano, se vai ter lucro ou não vai ter lucro. Não é algo que possa sequer me preocupar agora. Mas é claro que, se tiver uma situação de emergência, eu, como controlador da companhia, para manter a saúde da companhia, posso solicitar e colocar em aprovação que não seja distribuído como também posso fazer uma medida como essa e, se as coisas melhorarem, distribuir. Será algo que acompanharei de perto. O objetivo é manter a companhia funcionando e rígida.
Muitos empresários estão dizendo que o Brasil não pode parar, comentando que a economia tem de funcionar, não deve ter quarentena. Qual é a sua visão sobre isso?
Acho que, primeiro, cada um deve falar do que entende. O que eu posso dizer, no meu papel, na minha indústria, é o princípio que temos usado e que até fiz um post no meu Instagram sobre isso. Eu escrevi algo como: ‘qual é o menor número de pessoas que têm de trabalhar com segurança para garantir o maior número de pessoas em casa com segurança?’. E segurança em toda a amplitude que essa palavra pode ter. É segurança física, psicológica, alimentar, de ter água, de ter energia, de ter internet, que está viabilizando esse mundo. Isso é o que acho que posso contribuir.
E o que você achou do pronunciamento do presidente ontem?
Não sei o que dizer.