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O avanço de Amazon e Apple em saúde e o zumbi WeWork. A análise de Scott Galloway

Escritor, empreendedor, professor da Universidade de Nova York e um dos gurus do Vale do Silício, Galloway critica o resgate a empresas que, antes da crise, lucraram com o mercado em alta e discorre sobre possíveis impactos do coronavírus em alguns setores da economia

 

Scott Galloway, escritor, empreendedor, professor e guru do Vale do Silício    /Foto: Daniel Grund for DLD

Não são poucas as facetas do americano Scott Galloway. Uma característica, no entanto, une o escritor, empreendedor e professor da Stern School of Business da Universidade de Nova York: as opiniões contundentes e diretas, seja sobre gigantes como Facebook, Apple, Google e Amazon, ou mesmo sobre temas mais amplos, como o futuro dos negócios e da sociedade.

Um dos gurus do Vale do Silício, Galloway voltou a exercitar sua língua afiada nesta terça-feira. Em uma entrevista concedida ao site americano Business Insider, ele fala sobre questões trazidas à tona pela Covid-19 e discorre sobre as possíveis mudanças que a pandemia trará, especialmente sob a ótica do mercado americano.

Galloway não poupa críticas, por exemplo, a disparidade de abordagem de muitas empresas no período pré-coronavírus e, agora, durante a pandemia. Ele ressalta que, enquanto esteve em alta, por 11 anos, o mercado foi marcado por um individualismo rígido e pela privatização da maioria dos ganhos. E que, agora, essa postura é totalmente oposta.

“Temos CEOs que gastaram 96% do seu fluxo de caixa livre para recomprar ações quando os tempos eram bons, inflando seus próprios ganhos”, diz. “E que agora, com esse choque, dizem que estamos todos juntos nessa”, observa, dentro da cultura que classifica como “capitalismo na ascensão e socialismo na queda”.

Ele também se diz contrário aos pacotes de resgate às empresas, o que classifica como uma cultura de “capitalismo na ascensão e socialismo na queda”. “Se vamos ter o capitalismo quando os tempos forem bons, precisamos tê-lo quando os tempos forem ruins”, afirma. “E, francamente, acho que muitas dessas empresas precisam falir. Devemos proteger pessoas, não companhias.”

Nessa direção, Galloway ressalta que a Covid-19 está mostrando que profissionais que estão prestando serviços essenciais nesse momento, como caixas de supermercado e entregadores, não deveriam ser invisíveis e precisariam ter uma remuneração mais digna e benefícios amparados por uma legislação. E questiona: “Como podemos ser a nação mais rica do mundo e, efetivamente, 50% da nossa população ser tão vulnerável?”

Para o professor, os recursos anunciados nos pacotes de resgate do governo americano para pequenas empresas apenas estão contribuindo para minimizar os impactos da pandemia nas pessoas mais ricas que, segundo ele, são as proprietárias de boa parte dos negócios nesse perfil no país. “Tudo o que fazemos nada mais é do que uma tentativa de manter a riqueza dos baby boomers”, afirma.

Vencedores e perdedores

Galloway também fala sobre as transformações que a Covid-19 provocará em alguns setores da economia. E, ao mesmo tempo, com prioridade no segmento de tecnologia, ele aponta empresas que se beneficiarão e outras que podem sair derrotadas nesse novo contexto.

Em sua avaliação, gigantes como Amazon e Apple passarão a investir com mais foco em saúde. O setor prevê movimentar US$ 10 trilhões até 2030 e surge como uma das poucas alternativas capazes de turbinar as receitas e as ações dessas empresas.

“A minha previsão é que, até 2025, a Amazon será a empresa de saúde que mais cresce no mundo”

Ele entende, no entanto, que a empresa de Jeff Bezos tem mais possibilidades de sucesso nessa estratégia. “A minha previsão é que, até 2025, a Amazon será a empresa de saúde que mais cresce no mundo”, observa, ressaltando o grande investimento anunciado recentemente pela empresa no desenvolvimento de um kit de teste mais robusto do coronavírus.

Já em educação, Galloway destaca um movimento que ganhou força nas últimas décadas nos Estados Unidos. Segundo o professor, as universidades do segundo escalão passaram a receber um grande volume de estudantes recusados em instituições renomadas, como Stanford. E, por sua vez, começaram a cobrar os mesmos valores que essas universidades do primeiro time.

Agora, diz ele, com aulas a distância, muitos alunos estão percebendo que essas cifras não são condizentes. “Então, o que vamos ver, infelizmente, é o fortalecimento das instituições que já são muito fortes e que farão parcerias com grandes empresas de tecnologia para criar programas muito robustos”, ressalta. “E veremos muitas universidades do segundo escalão que nunca reabrirão suas portas.”

Galloway enxerga um cenário semelhante na indústria de mídia, especialmente no que diz respeito às companhias tradicionais do setor. Nesse contexto, ele aponta como maiores beneficiados empresas como Google e Facebook.

Diante de tantos vencedores na indústria de tecnologia, Galloway traz um contraponto. “O WeWork é um zumbi. São mortos-vivos”, afirma ele, em seu estilo característico. “A marca pode sobreviver, mas todo o seu patrimônio será destruído.”

“O WeWork é um zumbi. São mortos-vivos. A marca pode sobreviver, mas todo o seu patrimônio será destruído”

Entre outros temas, Galloway destaca ainda que não houve pior momento para ser o dono de uma pequena empresa do que os últimos dez ou quinze anos. Em contrapartida, ele entende que, em cerca de seis a doze meses, o cenário para um negócio será extremamente propício, em linhas com outras crises vivenciadas por ele, como empreendedor.

“É ótimo começar um negócio nas profundezas de uma recessão”, afirma, ressaltando fatores como o acesso mais barato a bons profissionais, imóveis e recursos. “Além disso, as empresas estão muito mais dispostas a experimentar coisas novas. Você tem o vento nas suas costas.”

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