“As regras atuais da Lei Rouanet dificultam a realização da próxima Bienal”, diz José Olympio Pereira

Prestes a visitar a Bienal de Arte de Veneza, José Olympio Pereira, presidente da Fundação Bienal e ex-CEO do Credit Suisse, conversou com o NeoFeed sobre as conquistas em sua atual gestão e as dificuldades para a próxima edição do evento em 2023

0
356
Leia em 9 min

José Olympio Pereira: Bienal cresceu no ambiente virtual e ampliou seguidores nas redes sociais

O ex-CEO do Credit Suisse e atual presidente da Fundação Bienal, José Olympio Pereira, já está com as malas prontas para viajar à Itália, onde vai finalmente ver o que o artista alagoano Jonathas Andrade e o curador Jacopo Crivelli planejaram exibir no Pavilhão do Brasil na 59ª edição da Bienal de Arte de Veneza, que abre no dia 22 de abril.

De acordo com o Crivelli, a instalação de Andrade, cujo título é “Com o coração saindo pela boca”, provocará no visitante uma experiência única. “Será uma exposição ousada, que responde às urgências que todos enfrentamos, mas o faz poeticamente e também com humor e ironia”, afirmou ao Neofeed.

A escolha do artista foi muito bem vista por Pereira. “Eu achei uma ótima escolha. Conheço o trabalho do Jonathas há bastante tempo. Na 32ª Bienal de São Paulo, em 2016, ele teve uma participação extraordinária com o vídeo ‘O Peixe’, que fez um enorme sucesso”, afirma. O trabalho audiovisual hoje faz parte da coleção que ele tem com a mulher Andrea. O casal figura, por sinal, na lista dos 200 maiores colecionadores de arte do mundo, segundo o site ARTNews.

“O trabalho do Jonathas responde muito bem ao momento em que vivemos. É um trabalho que reflete sobre o que é o Brasil hoje e o que são os brasileiros”, justifica Crivelli, que entende que o projeto feito por Andrade em 2016 tem muita conexão com o que pensaram para a Bienal italiana.

“Estamos todos cansados e acho que tanto a 34ª  edição da Bienal de São Paulo quanto a proposta do Jonathas para o Pavilhão Brasileiro em Veneza respondem a essas questões. Vivemos momentos de tensão e de ruptura do tecido social e político. O projeto reflete essa sensação física, corporal, que sentimos no dia a dia”, conclui o curador.

Embora não seja uma regra, é de costume o curador da última edição da Bienal São Paulo escolher o artista que irá expor no Pavilhão do Brasil da Bienal de Veneza seguinte. Jacopo Crivelli foi o curador da 34ª edição do evento paulistano – “Faz escuro mas eu canto”.

Processo de desenvolvimento de “Com o coração saindo pela boca”: Jonathas Andrade trabalhando com o escultor Silvio Botelho, em Olinda

Antes de embarcar para a Itália, José Olympio Pereira conversou com o NeoFeed sobre as conquistas e dificuldades da sua função como presidente da Fundação Bienal, cargo que ocupa desde 2019 e para o qual foi reeleito em 2021. Seu mandato vai até 2023.

As novas restrições de captação da Lei Rouanet oferecem preocupação sobre a viabilidade da edição do ano que vem, a 35ª, já batizada de “Coreografias do Impossível”. “Se prevalecerem as regras atuais, nós teremos muitas dificuldades para realizar a próxima Bienal.”

O que você acha que a Bienal de São Paulo pode aprender com a Bienal de Veneza, que é a mais antiga do mundo?
Eu tenho muita honra em representar o Brasil em Veneza. A Bienal de São Paulo, fundada em 1951, é a segunda mais antiga. A de Veneza é de 1895. Eu acho que a maior lição que aprendemos é apresentar exposições intrigantes, que provoquem o público a fazer descobertas e ofereçam uma experiência atraente do ponto de vista artístico. Um dos objetivos de uma Bienal é conhecer artistas novos.

“A maior lição que aprendemos é apresentar exposições intrigantes, que provoquem o público a fazer descobertas.”

Quais foram as suas principais descobertas na última edição da Bienal de São Paulo?
Nessa última Bienal os curadores fizeram um trabalho fantástico na curadoria de arte indigena contemporânea. Eu não conhecia nada. A partir da Bienal conheci os trabalhos de artistas como Daiara Tukano, Sueli Maxakali, Jaider Esbell, Uýra e Gustavo Caboco. Foi uma baita surpresa. Os projetos do artista chileno Alfredo Jaar, tanto na Bienal quanto no Sesc Pompeia, foram experiências incríveis. Eu considero que foi um presente para a cidade. Um dos aspectos mais interessantes das artes é este: um assunto tão vasto e tão complexo que você está sempre fazendo descoberta. É realmente muito rico.

Você disse anteriormente que a decisão mais importante de um presidente da Bienal é a escolha do curador. Como foi a escolha para a próxima Bienal do grupo de curadores Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel?
Eu reitero essa afirmação. Essa escolha, na realidade, foi feita a partir de convites que foram feitos para alguns curadores. Dois dos convidados, Hélio e Manuel, se reuniram e apresentaram uma proposta única agregando outras pessoas ao grupo – Diane e Grada. O grupo tem uma diversidade muito legal de origem geográfica [dois brasileiros, uma portuguesa e um espanhol], de cor de pele e de gênero. Isso é muito bom.

“Nosso grupo de curadores tem uma diversidade muito legal de origem geográfica [dois brasileiros, uma portuguesa e um espanhol], de cor de pele e de gênero. Isso é muito bom.”

É uma tendência?
Essa experiência de grupos curatoriais não é nova, ela já foi feita em edições anteriores. É uma tendência atualmente. A Documenta de Kassel, pela primeira vez, está sendo curada por um grupo [o coletivo ruangrupa, formado por artistas da Indonésia]. E eu achei a proposta do nosso grupo de curadores muito interessante: “Coreografias do Impossível”. Nas entrevistas que fiz, percebi uma harmonia do pensamento em conjunto muito importante e uma complementaridade de talentos. Estou muito animado com o projeto deles. Vai ser mais uma Bienal muito interessante e rica.

Você está trabalhando para uma internacionalização da Bienal. Quais são as ações que estão sendo tomadas para que o evento ganhe mais relevância internacional?
Antes de assumir a presidência da Bienal, mas a partir de uma iniciativa minha, foi criado um conselho consultivo internacional. Ele é formado por 11 pessoas, que são colecionadores ou amantes de artes visuais, vindas de países como Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Inglaterra e Japão. Com esse grupo a gente quer propagar e atrair atenção para nossa Bienal, estabelecendo contatos e divulgando o evento internacionalmente. Esse conselho internacional também faz uma contribuição à Fundação. É uma fonte de apoio financeiro. A partir de 2018, passamos a promover o International Weekend, em que organizamos um programa especial para visitantes estrangeiros. Apesar da pandemia, quase 100 pessoas participaram do evento em 2021.

A Bienal de São Paulo tem planos de entrar no Metaverso?
Essa será uma questão para os curadores. Eu estou curioso para saber se isso será apresentado na Bienal de Veneza. A presença da Bienal no ambiente virtual curiosamente é bastante antiga. Desde 1996, usamos o site para divulgar a Bienal e fazer visitas remotas. Nesta última Bienal, até por conta do adiamento, nós incrementamos muito o uso das redes sociais com o programa A Bienal tá on!. Fizemos visitas virtuais aos ateliês dos artistas, promovemos discussões e conversas com os curadores. Incrementamos também a nossa presença no Instagram. Desde que eu assumi a presidência, o número de seguidores aumentou cinco vezes, chegando a quase 400 mil. É um conteúdo de arte contemporânea diariamente atualizado com histórias e imagens e que não fica restrito apenas à última edição.

Você já disse estar desiludido com o governo Bolsonaro e que a Lei Rouanet é muito importante para o Brasil. Qual é a sua avaliação sobre os passos que o governo tem dado na cultura?
A Lei Rouanet é fundamental. As recentes mudanças no programa de incentivo restringem muito a capacidade de captação. Do jeito que está, o setor cultural terá um impacto muito grande. Não impactaram o nosso plano anual de 2022, mas podem impactar mais para frente. A Bienal está com uma situação financeira bastante saudável. Mas precisamos pensar como fica o cenário para o ano que vem. Se prevalecerem as regras atuais, nós teremos muitas dificuldades para realizar a próxima Bienal. Mas eu acredito que encontraremos uma solução. Já levamos à Secretaria Especial de Cultura a nossa preocupação com as mudanças recentes implementadas. Estamos querendo dialogar para resolver. Nada se resolve sem o diálogo. Eu vou morrer tentando dialogar com quem quer que seja.

“A Lei Rouanet é fundamental. As recentes mudanças restringem muito a capacidade de captação. Não impactaram o nosso plano anual de 2022, mas podem impactar mais para frente.”

Você está na lista dos 200 maiores colecionadores do mundo. A coleção de arte é um investimento?
Eu nunca colecionei com o objetivo de investir. Embora, ao colecionar arte, de uma certa forma, você esteja alocando recursos do seu patrimônio em obras de arte. O investimento em arte foi mais uma consequência e não um objetivo. Eu agradeço a Deus e ao meu trabalho por ter conseguido formar uma coleção que me dá muito prazer. Algumas dessas obras foram um excelente investimento. Outras, não. Mas nem por isso me deixaram de dar prazer. Quando você coleciona por paixão e isso se torna um bom investimento, ótimo. Se não, os dividendos vem na forma de prazer estético, prazer de conviver com aquela obra.

Você incentiva as pessoas a investirem em obras de arte?
Nunca incentivei ninguém a investir em arte. Mas eu sempre incentivei as pessoas a se interessar, conviver com arte e ter arte. Digo sempre que o interesse por arte não deveria ser um interesse por investimento, mas um interesse por uma fonte de prazer. Eu gosto de dizer que arte é alimento da alma. Arte de uma forma ampla: artes visuais, música, literatura, teatro, cinema…

“O interesse por arte não deveria ser um interesse por investimento, mas por uma fonte de prazer.”

Ser um grande colecionador e ao mesmo tempo estar nos conselhos dos museus não é uma relação delicada?
Sem dúvida, essa relação é delicada e pode ensejar conflitos. Por isso, temos um código de ética. Na Bienal, como presidente, eu não posso comprar o trabalho de nenhum artista antes que o evento seja inaugurado. Eu também não posso emprestar obras da minha coleção para a Bienal. Nosso código de ética endereça todos os conflitos potenciais que alguém da minha posição pode ter. Mas em todos os países e instituições, quem faz parte dos conselhos é quem que adora arte e coleciona. Não espere que alguém interessado só em música esteja no conselho do MoMA ou da Pinacoteca.

Qual foi o seu primeiro contato com arte?
Meu pai e meu avô [José Olympio Pereira Filho, fundador da editora José Olympio] eram editores de livros. Minha avó paterna [Vera Pacheco Jordão] era crítica de arte. Então, eu sempre tive contato com arte. Mas fui me interessando mais à medida que fui ficando adulto e comecei a colecionar. Além do colecionismo, contribuo com museus aqui no Brasil e no mundo. Há 25 anos, entrei para o conselho do Museu de Arte Moderna de São Paulo, depois entrei para conselhos de museus internacionais como o do MoMA [Museu de Arte Moderna de Nova York]. Até 2018, eu presidi o conselho da Pinacoteca. Quando venceu meu mandato, vim para a Bienal.

Leia também

Brand Stories