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Biologia sintética e agricultura hi-tech: as apostas da futurista americana Amy Webb

Em entrevista ao NeoFeed, Amy Webb, uma das mais respeitadas futuristas americanas, comenta os principais pontos de seu último trabalho, o Tech Report 2020, e explica como o coronavírus tem mudado o rumo de suas pesquisas e estudos

 

Amy Webb, do Future Today Institute, uma das mais respeitadas futurista dos EUA

A americana Amy Webb, uma das mais respeitadas futuristas dos EUA e responsável pela fundação e coordenação do Future Today Institute, trabalha para corrigir a visão distorcida do que está por vir. 

Como aluna, ela frequentou algumas das mais prestigiadas universidades do planeta, como Oxford, Harvard e Columbia. Mas hoje, graduada em economia, vive, como professora, o outro lado da sala de aula, lecionando marketing na Stern School of Business, da Universidade de Nova York. 

Essa sua vocação professoral transborda os campi que visitou mundo afora e é consolidada em palestras, livros e consultorias. Webb, inclusive, voltaria ao palco do SXSW 2020 depois de arrancar aplausos da plateia que compareceu ao evento do ano passado.

Em Austin, a futurista apresentaria ao mundo o mais novo relatório de tendências organizado pelo seu Future Today Institute, lançado anualmente há 13 anos.

“Começamos a fazer isso porque um de nossos clientes, décadas atrás, pediu que fizéssemos um relatório mensal de tendências. Mas era tudo muito trabalhoso, sobretudo porque pensamos no longo prazo. A única maneira de tornar esse produto viável seria dessa maneira, reunindo tudo com profundidade, mas uma vez ao ano”, disse Amy.

Este ano, o consolidado aborda 406 tendências diferentes, e pode ser acessado na íntegra aqui

Poucas horas depois de tornar público seu último relatório, Amy conversou com o NeoFeed. A especialista falou sobre como o coronavírus poderia ter mudado esse trabalho e de como os brasileiros devem estar atentos à entrada das grandes empresas de tecnologia no setor de agricultura. 

Acompanhe os principais trechos da entrevista.  

Seu trabalho é sempre pensando num futuro a longo prazo, mas o quão distante isso seria?
Bem, é difícil dizer porque cada parte tem sua própria linha do tempo. Eu digo que esse trabalho tem que ser usado para reduzir incertezas, não como um manual. Neste ano, temos uma seção dedicada à biologia sintética e acho que, dadas as circunstâncias, esse mercado deve evoluir mais rápido e veremos impactos já na próxima década. Por outro lado, acho que no que diz respeito à mídia sintética, outra tendência que abordamos no relatório, as mudanças já vêm dentro de um ou três anos. 

São centenas de tendências abordadas no relatório, mas você poderia dizer quais seriam as mais importantes?
Essa é sempre a primeira pergunta que me fazem: quais as mais importantes? E a resposta é sempre a mesma: depende de quem você é, de onde mora e com o que se ocupa. Para mim, particularmente, tenho prestado atenção nas tendências de políticas, agricultura e biologia sintética, que é essa desenvolvida em laboratório, como as “carnes” sem nenhum tipo de produto animal.

Por que têm se atentado a esses tópicos?
Com essa pandemia que estamos vivendo, os investimentos vão flutuar para áreas de inteligência artificial, testes científicos e biologia. Esse esforço vai atingir a curva de desenvolvimento de certas tendências, como a biologia sintética, que já falei algumas vezes. Uma aposta que eu faço é que a adoção de testes feitos em casa será muito, mas muito rápida. Tanto que os Estados Unidos acabam de concluir uma enorme mudança nas regras para permitir que as análises clínicas fossem feitas de outras maneiras e também para abrir caminho para a telemedicina, que nunca foi legalizada nesse país. 

“Com essa pandemia que estamos vivendo, os investimentos vão flutuar para áreas de inteligência artificial, testes científicos e biologia”

E isso vai impactar o sistema de saúde americano?
Tremendamente. Talvez em um futuro mais próximo do que pensamos, em vez de irmos até um laboratório ou consultório para saber se temos uma determinada doença ou para checar nosso nível de açúcar no sangue, façamos os exames no nosso próprio banheiro. Esse tipo de tendência é importante, mas as disrupções estão por todos os lados e pode ser que, em alguns dias, novidades na área de logística, por exemplo, talvez seja mais relevante. Por isso, acho importante entender que, de certa maneira, todas as 406 tendências estão conectadas. São interseccionais. Esse relatório é um atlas, uma espécie de mapa para o futuro. 

Como podemos tirar vantagem disso, sem ficar paranoico?
Meu background acadêmico é economia e teoria de jogos e matemática. Se você está tentando construir um modelo financeiro que só aceita uma variável, isso é uma coisa. Estamos falando do futuro de muitas coisas aqui, e não há maneira de prever exatamente como será o futuro. Podemos construir vários modelos, mas não apenas um. Nosso trabalho não é com previsão, é com preparação. O que significa que as empresas e as pessoas não devem se concentrar em ter certeza de algo, devem estar confiantes. Porque a certeza é frágil. Confiança permite que você tome melhores decisões. E é isso que todos nós precisamos nos acostumar para seguir adiante, porque há muita incerteza. O problema é que, se você não possui um conjunto de ferramentas, estrutura ou tendências ou algo assim, suas emoções assumem o controle e você começa a tomar decisões malucas ou nenhuma decisão. Então, neste momento, todos nós temos que fazer um trabalho melhor ao usar dados que falam a longo prazo, porque isso nos permitirá tomar melhores decisões hoje e amanhã.

Tendo em vista a dimensão dessa pandemia do coronavírus, seria necessário fazer algum tipo de alteração ou pelo menos acrescentar alguma outra tendência?
Certamente. Tenho um grupo de discussão sobre esse tema, reunindo economistas, futuristas e cientistas do mundo todo. Estamos todos empenhados em desenhar possíveis cenários para essa situação. Dia desses, um dos participantes, que é PhD em economia, levantou uma questão bastante interessante: será que poderíamos usar o blockchain para, de alguma maneira, resetar a economia global, que parece sucumbir com esse vírus? É uma proposta bastante ousada, mas seria basicamente definir uma data, digamos 20 de março, e permitir que o coronavírus siga seu curso natural. No final do processo, a gente “formataria” a economia usando blockchain para que tudo voltasse a ser como no dia 20 de março. Parece uma loucura, mas são teorias a se pensar – e certamente novas tendências podem surgir a partir delas.

Como assim?
Bem, se for o caso em que a força de trabalho global precisar desacelerar e passarmos por uma escassez de mão-de-obra porque muitas pessoas ficam doentes, isso dá vantagens a empresas como a Amazon, que já estão bem à frente na robótica baseada em nuvem – uma tendência que já estávamos vendo de qualquer maneira. Esse caos pode ser também um acelerador de certas tendências, como as entregas feitas por drones. Temos drones de entrega capazes de fazer delivery em qualquer lugar, mas que são barrados por obstáculos regulatórios. 

“Esse caos pode ser também um acelerador de certas tendências, como as entregas feitas por drones”

Você está dizendo, então, que essa pandemia pode até causar uma disrupção na legislação?
Com certeza. Se acabamos vivendo uma situação em que, por algum motivo, as pessoas não tenham acesso a medicamentos porque não podem ir buscá-los, teremos que mudar as regras do jogo. Nos Estados Unidos, pelo menos, a Federal Aviation Administration (instituição equivalente à Infraero, no Brasil) liberou a CVS, o Walmart e a Amazon para entregas baseadas em drones. No momento, estamos recebendo notícias confusas e estamos assustados. As pessoas estão se sentindo ansiosas e eu entendo. Em toda época de crise, coisas horríveis acontecem. O mundo será diferente por causa desse vírus, de várias maneiras. Nossas empresas e estruturas governamentais vão mudar. 

Conseguiria, contudo, apontar as tendências que os leitores do NeoFeed deveriam estar atentos?
Eu suponho que a maioria da sua audiência seja brasileira e resida no Brasil, que é um país muito ligado ao agronegócio. Sendo assim, acho que seria interessante prestar atenção na seção de agricultura. Mesmo sem essa questão do coronavírus, que é bastante atual, sabemos que a mudança climática é uma realidade e a agricultura está inserida nesse contexto. Muitas novidades e oportunidades indicam que esse mercado está à beira de uma mudança radical, sobretudo porque grandes empresas de tecnologia estão de olho nisso.

As gigantes do Vale do Silício?
Sim, a Microsoft acabou de concluir a compra de mais uma fazenda. Agora, a empresa de Bill Gates tem duas fazendas em território americano, onde estão testando um programa-piloto de automação agrícola. A Amazon está conduzindo pesquisas para desenvolver uma espécie de “fazenda indoor”. Vou te dizer que essa área me fascina por demais.

Por quê?
Porque todos precisamos de comida para sobreviver e é curioso perceber que as poderosas empresas de tecnologia querem entrar nesse espaço. 

E quais outras tendências devemos vigiar?
Acho que vale a pena estudar a seção de mídia sintética, porque lá falamos de deep fake e discutimos direitos autorais e outros tipos de proteção de trabalhos criativos. Por fim, acho que também é pertinente olhar com cautela para a parte que avaliamos as tecnologias ligadas ao sexo. Sobretudo em tempos de pandemia e reclusão social, nossas relações podem ser hackeadas, e coisas como os namoros virtuais, possam ganhar novas inflexões. 

Tendo em vista que você conhece melhor do que ninguém cada uma das tendências, qual delas lhe traz mais preocupação?
Hoje, dia 15 de março, eu diria que o que mais preocupa é a incerteza política. Certas regras não estão muito claras. Por exemplo, quando o assunto é inteligência artificial ou propriedade de dados, o entendimento varia muito, mesmo dentro de um país. Também não chegamos a um consenso no que diz respeito ao blockchain, e isso tudo é muito problemático. Essas incertezas dificultam os investimentos, os experimentos e o empreendedorismo. Fica desafiador evoluir. Tudo isso fica ainda mais complicado porque nações como a China não passam por isso. Ah, também me preocupo com a inteligência artificial.

Com a velocidade de seu avanço?
Não, acho que não estamos colaborando da maneira que deveríamos. O Vale do Silício e a Casa Branca parecem não enxergar o tipo de colaboração que deveria acontecer para que possamos manter a tecnologia antropocêntrica, centrada em tudo que nos faz humanos. Veja, não acho que isso vai ser um problema amanhã, mas pode se tornar uma dor de cabeça ao longo do tempo.

Mas já que apontou o peso dessa pandemia para as mudanças globais, não acha que o coronavírus pode mudar isso também?
Andei pensando muito sobre esse vírus. Se você perguntar para um futurista que trabalha com riscos, como eu, o que teria que acontecer para resolver grandes problemas, eles diriam “uma invasão alienígena”. Isso os obrigaria a colaborar, a trabalhar em conjunto, e isso poderia resultar em um futuro melhor. Então talvez uma forma interessante de olhar para todo esse caos é pensar que, a sua maneira, esse vírus é um alienígena. Um vírus é basicamente um malware no código do genoma humano: ele se mistura e vai invadindo. Para combatê-lo, estamos aprendendo rapidamente que é preciso pensar e agir em conjunto e fico aqui torcendo para que pelo menos toda essa confusão nos una e surta algum tipo de efeito positivo. 

Mas nesse mundo tão “sintético”, o que vai ser humano?
Sei que é muita coisa para assimilar, mas é importante ter em mente que não vai surgir, do dia para noite, uma tecnologia que acabe com tudo. Ainda teremos muito trabalho com criatividade e pensamento crítico. Aliás, quem aposta que, no futuro, as máquinas farão tudo e nós ficaremos em casa como meros expectadores, vai ver já nas próximas duas semanas que a humanidade não funciona bem confinada, sem nenhuma atividade. 

“Quem aposta que, no futuro, as máquinas farão tudo, vai ver que a humanidade não funciona bem confinada, sem nenhuma atividade”

E como você faz para se manter otimista avaliando tantos cenários possíveis, inclusive os ruins?
Olha, eu não me considero nem otimista e nem pessimista, mas pragmática. Sou esperançosa porque acredito que todos temos a opção e a capacidade de mudar o futuro. Nós moldamos o futuro todos os dias, com as nossas decisões. Por isso meu trabalho está disponível a todos, gratuitamente. Podemos criar um futuro melhor, se decidirmos juntos o que queremos.

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UM CONTEÚDO:

NEOFEED REPORT

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