Château Dauzac, a vinícola que está subvertendo as regras de Bordeaux

No seleto grupo dos Cru Classé do Médoc, a famosa e mais relevante classificação de vinhos no mundo, o classicismo costuma ser a regra. Mas o Château Dauzac está chacoalhando isso com práticas inovadoras na conservadora Bordeaux

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O Château foi comprado pela família Rolleau (proprietários da empresa de serviços Samsic) em 2019 numa transação estimada em 120 milhões de euros

Bordeaux – Inovação não é um termo muito associado aos vinhos Bordeaux. Em especial no seleto grupo dos Cru Classé do Médoc, a famosa e mais relevante classificação de vinhos no mundo, estabelecida em 1855, em que classicismo costuma ser a regra.

O diretor-geral de Dauzac, Laurent Fortin, é a principal peça para entender a série de mudanças que deve alçar Dauzac a um dos nomes de destaque entre os 61 châteaux listados nos 5 degraus da classificação do Médoc.

São práticas como vinhedos biodinâmicos, nova adega, vinhos de parcelas de vinhedos, plantações em pé-franco e uso de recipientes de argila para vinificação que destoam do comum quando se pensa no padrão clássico de Bordeaux.

Dauzac está entre os 5ème Cru Classé, o que por um lado alivia a pressão sobre ações muito inovadoras, mas por outro também não permite alçar preços muito elevados frente aos demais 60 châteaux que estão na elite de Bordeaux.

Entre 1988 e 2018, o Château Dauzac pertencia à companhia de seguros francesa MAIF. Fortin chegou em Dauzac em 2013, após viver mais de 15 anos nos Estados Unidos, dos quais cinco anos como CEO do grupo de propriedades e marcas de vinhos AdVini Américas. No começo da década de 2020, a companhia de seguros deu sinal verde para Fortin liderar o processo para buscar compradores para a vinícola.

Após especulações que envolveram nomes como Jack Ma (fundador da gigante chinesa Alibaba) e a família Cathiard (também proprietária do Château Smith-Haut-Lafite), Fortin encontrou na família Rolleau (proprietários da empresa de serviços Samsic) os compradores alinhados a sua visão para seguir como diretor-geral de Dauzac. Estima-se que a transação na época tenha ficado na faixa dos 120 milhões de euros.

Com espaço para implantar suas ideias, Fortin está construindo uma nova adega de vinificação para os vinhos, com previsão de concluir as obras em 2024. Ali será tudo com fluxo gravitacional, mínimo uso de energia elétrica e reaproveitamento de água e valores alinhados à biodinâmica, forma de cultivo mais restritivo que o orgânico, que adotou nos 49 hectares de vinhedos de Dauzac desde 2016, de forma certificada.

Fortin e o recipiente de argila: “não é experimento, é aperfeiçoamento”

“Entre 2013 e 2016 foram anos muito difíceis, com rendimentos pífios, muito baixo mesmo, nos vinhedos. Quando se elimina os químicos, as videiras precisam de alguns anos para criar seus próprios anticorpos”, diz Fortin ao NeoFeed.

Dauzac tem 47 hectares de seus vinhedos dentro da comuna de Margaux e 2 hectares que pertencem à Haut-Médoc. E é uma das poucas propriedades que mantém a área que originalmente foi mapeada e classificada em 1855 como Cru Classé.

Explica-se: ao contrário da Borgonha, onde a classificação é territorial, em Bordeaux, a classificação pertence ao château (vinícola). Assim, se o Château Margaux comprasse Dauzac, o vinhedo passaria a ser um 1er Cru Classé.

Sobre a adoção do biodinamismo, Fortin, com seu inglês fluente e com sotaque californiano, afirma que se trata de ser decente com o ambiente, com as pessoas e pensar na responsabilidade com as próximas gerações.

Desde 2013, dedicam parte do campo para cultivar ervas e vegetais para elaborar os próprios compostos e chás biodinâmicos, assim como criar ovelhas que tratam de comer as ervas e plantas entre as videiras, além de ter apiário próprio. Dos 47 hectares de vinhedos, 69% estão plantados com Cabernet Sauvignon, 29% com Merlot e 2% com Petit Verdot.

“Com as mudanças do clima, estamos replantando algumas parcelas de Merlot com a Cabernet Sauvignon, que tem mostrado condições ótimas para amadurecer com os outonos mais quentes que temos vivido na última década”, diz Fortin. “Um dos primeiros passos quando cheguei a Dauzac foi fazer um estudo de subsolo nos nossos vinhedos, algo comum no novo mundo, mas em Bordeaux em 2013, não”.

A partir desse estudo, o vinhedo foi dividido em 27 diferentes parcelas com solos e expressões diferentes. E também foram encontradas algumas videiras com mais de 60 anos que estavam em pé-franco e a praga da filoxera não atacou por estarem em solo com muito cascalho e areia.

Franc de Pied, 100% Cabernet Sauvignon (também incomum um varietal em Bordeaux) e fermentado em dolias

Estas videiras foram propagadas em uma parcela de 1,5 acre (cerca de 6.000 metros quadrados) e hoje dão origem ao rótulo especial chamado Franc de Pied, 100% Cabernet Sauvignon (também incomum um varietal em Bordeaux) e fermentado de forma espontânea em dolias, pequeno tanque feito de argila em forma de vaso (inspirado nas ânforas utilizadas pelos romanos). O vinho é vendido apenas para uma lista de interessados (mesma forma americana para os cult wines) e custa cerca de 500 euros.

O mapeamento dos vinhedos e a eliminação dos químicos também permitiu que o château desenvolvesse as próprias leveduras, que é uma seleção das leveduras que são encontradas nas vinhas. Na linha dos vinhos, Laurent também decidiu tirar o foco da tradicional corrente de ter um exemplar principal, que leva o nome do château, e ter um segundo ou um terceiro vinho.

O foco não é no vinho principal que leva o nome do Château Dauzac

Dauzac tem desde 2013 seu vinho principal, o Château Dauzac, seguido de dois vinhos de parcelas de vinhedo, Aurore de Dauzac e Labastide de Dauzac. O primeiro, sempre da mesma área com solo rico em cascalho e areia, e o segundo de outra área com argila e cascalhos, todos em Margaux.

Vinificados da mesma forma e com mesclas parecidas, o mais fascinante é notar as expressões na taça. Aurore é um vinho rebelde, com extremos de taninos e acidez, mas com fruta para suportar tanta intensidade, e Labastide conta com taninos polidos e maior complexidade na fruta.

“Mas não gosto de ouvir que fazemos experimentos. Experimentos implicam em muitos erros. Apenas reproduzimos e aperfeiçoamos o que historicamente já era feito na região de Bordeaux e em Dauzac”, conclui Fortin.

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