Com “chaves na mão”, Pague Menos dá início à integração da Extrafarma

Um dia depois de concluir a aquisição, a rede de farmácias começa a dar os primeiros passos em frentes como logística, tecnologia e sortimento de lojas. Em paralelo, a empresa lida com desafios como a perda de market share

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A Pague Menos está avaliada em R$ 2 bilhões

Nos últimos meses, uma das expressões mais usadas pelos executivos da Pague Menos foi “tomar as chaves”. As três palavras resumiam a expectativa da rede de farmácias em assumir, enfim, a operação da Extrafarma, diante da iminente aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) do acordo anunciado em maio de 2021.

O sinal verde veio no fim de junho e a aquisição foi selada ontem, dia 1º de agosto, por R$ 737,7 milhões, acima da cifra inicial de R$ 700 milhões. Entre outros números, o acordo cria uma operação com cerca de 1.584 lojas, faturamento de R$ 10,1 bilhões e coloca a Pague Menos na segunda posição do setor, atrás apenas da RD.

“Com as quase 400 lojas e o acréscimo de aproximadamente R$ 2 bilhões em faturamento, vamos conquistar uma fatia relevante do mercado”, disse Mário Queirós, CEO da Pague Menos, em conferência com analistas nesta terça-feira. “E ampliar ainda mais nossa liderança no Norte e no Nordeste do País.”

Segundo a Pague Menos, a aprovação do acordo faz com que a rede cearense chegue a um market share de 22,2%, no Nordeste, e de 18%, no Norte, seus dois carros-chefes. Para efeito de comparação, a RD, líder do setor, tem, respectivamente, participações de 9,92% e 6,56% nas duas regiões.

Com sinergias estimadas na faixa entre R$ 180 milhões e R$ 275 milhões de Ebitda incremental por ano, nos próximos 24 meses, a Pague Menos começa agora a arregaçar as mangas e executar, de fato, o plano que vinha sendo costurado a quatro mãos com a equipe da Extrafarma.

Desde ontem, as equipes de operações das duas bandeiras já estão dividindo o mesmo espaço em um escritório da Pague Menos na zona oeste de São Paulo, que foi ampliado para receber o novo time e dar sequência aos projetos planejados.

“Estamos revisitando os desafios em lojas deficitárias da Extrafarma. Agora não é mais um mapa, é terreno, estamos com a mão no negócio”, afirmou José Rafael Vasquez, COO da Pague Menos, que estará à frente do processo de integração das duas operações.

O executivo ressaltou que esse processo começará, efetivamente, pela busca de eficiência logística, com questões como a integração de centros de distribuição e rotas de abastecimento. Essa fase terá início em outubro desse ano e a projeção é de que seja finalizada até janeiro de 2023.

“Nossos CDs são complementares em regiões como Maranhão, Pará, Pernambuco e Bahia. Vamos ter um produto mais disponível e mais rápido para o cliente e, claro, com benefícios também no aspecto tributário”, disse Vasquez.

Ele também ressaltou o foco em abastecer e melhorar o sortimento das lojas da Extrafarma, além de expandir, gradativamente, a Clinic Farma, hub de saúde da Pague Menos, a cerca de 200 lojas da bandeira recém-adquirida. Hoje, hub está em 915 unidades da rede cearense.

Outra iniciativa é a substituição de 100% dos sistemas da Extrafarma pela infraestrutura tecnológica da Pague Menos, que deve se estender por oito meses. Assim como as negociações com fornecedores, com a expectativa de uniformizar as condições de compra em até seis meses.

“As principais sinergias virão de frentes como logística, sortimento, margem buta e renegociação de contratos”, observou o COO. “E esperamos começar a capturá-las a partir do último trimestre deste ano.”

Apesar de abrir caminho para que a Pague Menos defenda seu território e avance no setor, a aquisição também trouxe o nível de alavancagem que será alcançado pela operação como um dos pontos questionados por analistas.

“Chegamos a um nível de relação entre dívida líquida e Ebitda de 2,7 vezes com o pagamento de 50% da aquisição e com os investimentos que faremos na operação, vamos chegar a 3 vezes em seis meses”, disse Luiz Novais, CFO da Pague Menos. “Mas, com base nas sinergias, voltaremos ao patamar de 1,7 vezes em dois anos.”

O executivo destacou ainda que a Pague Menos tem uma posição forte de liquidez, com um caixa próximo de R$ 900 milhões e R$ 600 milhões em recebíveis, além de um prazo médio de divida “razoável”, próximo de três anos.

Em paralelo, outros ingredientes pesaram no resultado da companhia no segundo trimestre. Um dos principais pontos atribuídos pela companhia para o desempenho mais fraco no período foi o fato de a rede ainda contar com uma safra de novas lojas pesando no balanço.

A Pague Menos retomou a abertura de unidades no terceiro trimestre de 2021, após um período sem inaugurações. No segundo trimestre, foram 28 novas lojas e, nos últimos 12 meses, 111, sendo 75% nas regiões Norte e Nordeste.

“O efeito das novas lojas ainda é muito marginal. Apenas 3% do nosso crescimento é oriundo dessas novas unidades”, afirmou Novais. Ele também destacou que a menor exposição da rede em mercados como o Sul e o Sudeste, os que mais cresceram no período, ajuda a explicar a performance.

“Agora no terceiro trimestre, no entanto, vamos ter uma comparação mais justa”, disse o CFO, referindo-se à base de inaugurações que foram retomadas a partir de julho de 2021. “Até então, estávamos comparando um período com aberturas com outro sem aberturas.”

Sob o impacto desses e de outros componentes, a Pague Menos perdeu market share no período em seus principais mercados. No Nordeste, o recuo foi de 0,8 ponto percentual e, no Norte, de 1,1 ponto percentual.

Outra questão no trimestre foram os problemas e rupturas no sortimento e nos estoques, ainda diante dos efeitos da pandemia na indústria farmacêutica. Na Pague Menos, o índice de ruptura de estoques em lojas cresceu 69,3% no período, alcançando o maior patamar desde 2019.

“Estamos acompanhando essa questão desde o quarto trimestre de 2021”, ressaltou Queirós. “Mas já começamos a ver uma certa regularização e acreditamos que estamos bem próximos da normalização.”

Resultado

A Pague Menos encerrou o trimestre com um lucro líquido de R$ 53,6 milhões, o que representou uma queda de 22,8% em relação a igual período, um ano antes. O lucro líquido ajustado, por sua vez, recuou 20%, para R$ 56,7 milhões.

Entre abril e junho, a receita líquida da rede cresceu 9,2%, para R$ 2,07 bilhões. O Ebtida ajustado foi de R$ 210,5 milhões, alta anual de 9,5%, enquanto a Margem Ebtida ajustada subiu 0,1 ponto percentual, para 9,5%.

Na operação multicanal, a Pague Menos reportou um crescimento de 41,3% nas vendas em canais digitais, para R$ 213 milhões, que totalizaram 9,6% das vendas totais. Essa área foi um dos pontos positivos destacados em relatório da XP sobre os resultados da companhia.

Em contrapartida, os analistas da XP, que definem um preço-alvo de R$ 7 para a ação, ressaltaram que o desempenho veio fraco, como esperado, e inferior ao da RD. Eles também apontaram fatores como a perda de participação da rede em todos os estados, em particular, nas regiões Norte e Nordeste.

Com recomendação outperform (acima da média do mercado) para o papel e preço-alvo de R$ 13, o Credit Suisse também observou a perda de participação de mercado e a deterioração da relação dívida líquida/Ebtida, para 1,7 vezes. Mas ressaltou como positiva a conclusão da compra da Extrafarma.

“Ainda vemos a ação sendo negociada a múltiplos baratos e assimétricos, mas o baixo desempenho ante seus pares neste trimestre, aliado ao alto endividamento e risco de execução embutido na digestão da aquisição da Extrafarma podem inibir o apetite dos investidores pelo nome no curto e no médio prazo”, escreveram os analistas Pedro Pinto e Victor Saragiotto, do Credit Suisse.

Na B3, os papéis da companhia estavam sendo negociados com alta de 1,77% por volta das 12h40, a R$ 4,59. As ações acumulam uma desvalorização próxima de 51%. A Pague Menos está avaliada em R$ 2 bilhões.

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