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Da Nigéria ao Brasil: a fintech que oferece crédito aos desbancarizados

A Migo captou mais de US$ 30 milhões em dois aportes. Fundada nos EUA, mas operando na Nigéria, ela desembarca no Brasil com um modelo que busca democratizar a oferta de contas digitais e empréstimos para as classes C, D e E. Seu fundador conta a estratégia

 

Ekechi Nwokah (abaixo, à dir.), CEO e cofundador da Migo, e parte da equipe da startup

Desde cedo, Ekechi Nwokah, 49, acostumou-se a grandes mudanças. A infância e a adolescência foram vividas entre os países de origem de seus pais, uma inglesa e um nigeriano. Já adulto, foi para os Estados Unidos, onde formou-se e tornou-se PhD em Ciências da Computação.

No mercado americano, atuou como professor visitante da Purdue University, no estado de Indiana, e acumulou passagens pela NASA e a Amazon Web Services. Até que decidiu empreender. Em 2014, fundou a fintech Migo (na época, chamada de Mines.io), em São Francisco, nos EUA. Três anos depois, voltou a morar na Nigéria, primeiro país a contar com os serviços da startup financeira.

Nwokah tem agora um novo endereço. O CEO e cofundador da Migo acaba de se mudar para São Paulo. Na bagagem, traz um volume polpudo de recursos para estruturar e lançar a startup no Brasil, segundo país a receber uma operação da companhia.

Em dezembro do ano passado, a Migo captou US$ 20 milhões em uma série B, liderada pelo fundo de venture capital Valor Capital. Boa parte desse montante já estava reservado ao Brasil.

Agora, a startup acaba de fechar uma nova rodada, que também terá como destino a operação local. Embora não revele a cifra captada e os fundos envolvidos, Nwokah afirma que o novo aporte está em linha com o montante estimado na divulgação da série B. Na época, o portal americano CrunchBase informou que a companhia buscava uma rodada adicional na faixa de US$ 10 milhões a US$ 15 milhões.

“Nós precisávamos de mais dinheiro para investir no Brasil”, diz Nwokah. Ele também ressalta que sua presença no País era fundamental. “Estamos em um negócio de confiança. É essencial estar próximo dos parceiros todos os dias, entender o mercado, viver o País e falar português. São coisas que você não aprende se não estiver aqui.”

Com um modelo baseado em uma plataforma hospedada em nuvem, a Migo busca parceiros dispostos a oferecerem crédito a seus clientes, especialmente das classes C, D e E, que não são atendidos pelos bancos tradicionais. A startup conecta essas empresas a bancos e fundos que financiam os empréstimos.

“Não importa se é Nigéria, Brasil, Índia ou Indonésia. Muitas pessoas no mundo não têm acesso a crédito, especialmente nas classes menos favorecidas”, diz Nwokah. “É um mercado com uma oportunidade de trilhões de dólares.”

Para colocar esse formato em prática, o radar de parceiros inclui desde varejistas e operadoras de telecomunicações até empresas de pagamentos, bancos e fintechs. A partir dos dados de clientes dessas companhias, a Migo aplica algoritmos de inteligência artificial para determinar o risco na oferta de crédito.

A Migo aplica algoritmos de inteligência artificial para determinar o risco na oferta de crédito

As parcerias se concretizam por meio de uma oferta cobranded, que envolve uma conta digital e linhas de crédito. Além da possibilidade de realizar pagamentos que eliminam a necessidade de cartões, por meio de recursos como QR Code e até mesmo por celulares com funções menos sofisticadas, os chamados feature phones.

Esse modelo começou a tomar forma em 2013, quando Nwokah conheceu o nigeriano Kunle Olukotun. Ele já acompanhava as pesquisas publicadas pelo colega, professor da Universidade de Stanford, sobre inteligência artificial.

Semelhanças

Na Nigéria, em três anos, a Migo fez mais de 3 milhões de empréstimos para 1 milhão de clientes. A carteira inclui parcerias com empresas como as operadoras de telecomunicações 9mobile e MTN, além de companhias de pagamento como Interswitch e Flutterwave, além de instituições como Bank of Industry e Fidelity Bank.

Nwokah enxerga muitas similaridades entre a Nigéria e o Brasil. Entre elas, o fato de serem dois países de grande população e com uma boa parcela de pessoas desbancarizadas e à margem do crédito. Na Nigéria, a estimativa é de que sejam 90 milhões de habitantes dentro desse perfil. No Brasil, 100 milhões.

O mercado brasileiro começou a entrar no mapa da Migo há cerca de três anos, quando a Via Varejo entrou em contato com Nwokah. Após uma série de conversas, a parceria não vingou, muito em função do fato de que, na época, o foco era consolidar a operação na Nigéria, que acabara de ser lançada.

Esse também foi o motivo para que um segundo contato do Brasil não fosse para frente. Até que as conversas com uma terceira empresa, de grande porte e nome não revelado, finalmente rendessem o primeiro contrato da Migo no País.

Com a previsão de lançar oficialmente a operação local em junho, a startup negocia outras seis parcerias locais. O foco inicial são as empresas de pagamento.

A prioridade da Migo é montar sua estrutura no Brasil. Para esse ano, a projeção é contratar 30 funcionários

No momento, a prioridade é a montagem da estrutura local. Para esse ano, a projeção é contratar 30 funcionários. No médio prazo, a previsão é fechar o quadro total em 50 pessoas. O escopo passa por áreas como compliance, regulação, produto, marketing e desenvolvimento de negócios. A equipe também incluirá um time de engenheiros, que será responsável pela localização da oferta.

Para viabilizar a operação nessa etapa inicial, a Migo também tem uma estratégia traçada para estruturar a ponta de quem financiará a oferta de crédito. Nesse caso, a empresa avaliar obter uma licença de atuação junto ao Banco Central ou mesmo a aquisição de um banco de menor porte, tal como fez na Nigéria.

“Os bancos ainda são muito conservadores e cautelosos”, afirma Nwokah. “Essa seria uma alternativa apenas para começar e mostrar para futuras instituições parceiras que nosso modelo, de fato, funciona.”

Ele também descarta, no médio prazo, a incursão da Migo em novos países, mesmo sob contatos iniciais em mercados como Indonésia, Índia e Estados Unidos. “As pessoas nos perguntam por que não expandimos para a América do Sul e África”, diz. “Mas Nigéria e Brasil são mercados muito competitivos e diferentes de qualquer outro país nessas regiões. Agora, todos os nossos recursos e atenção estarão focados nessas operações.”

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