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Depois de “latir” na Bolsa, a Petz quer morder o setor de serviços para animais

Desde o IPO, em setembro, as ações da varejista saltaram 47%. Agora, a rede de pet shops prepara uma nova expansão, agregando hotelaria, passeios e aquisições. O CEO Sergio Zimerman detalha a estratégia ao NeoFeed

 

Cerca de quatro meses separaram a suspensão e a realização da abertura de capital da Petz, em 2020. Nesse intervalo, a rede de pet shops foi obrigada a colocar à prova a estratégia multicanal que começou a construir cinco antes, diante dos duros efeitos da Covid-19.

A combinação entre as lojas físicas e os canais digitais passou pelo teste de fogo da pandemia. E com uma janela mais favorável, Sergio Zimerman, fundador e CEO da empresa, decidiu acionar a campainha da B3 em 11 de setembro, ao lado de seu cão e fiel escudeiro Wolke.

Depois de ser avaliada, na época, em R$ 5,1 bilhões e reforçar seu caixa com os R$ 336,7 milhões captados no IPO, a companhia está iniciando um ciclo estratégico de cinco anos, composto por frentes como ampliação do portfólio, aquisições e expansão das suas lojas físicas e hospitais veterinários.

“Nossa visão é sermos reconhecidos como o melhor ecossistema do segmento pet até 2025”, diz Zimerman, em entrevista ao NeoFeed. “Já temos boa parte desse plano bem encaminhado. Mas existem alguns gaps que precisamos fechar para consolidar essa plataforma.”

A principal lacuna a ser preenchida é o lançamento de uma série de serviços, com ofertas como dog sitter, dog walker, hotel, adestramento e transporte para os pets, entre outras alternativas. A ideia é adicionar gradativamente essas opções ao portfólio.

O modelo para concretizar esse plano envolve dois caminhos. O primeiro deles é o estabelecimento de parcerias com empresas que prestam esses e outros serviços. Já o segundo formato passa por aquisições de companhias que atuam nesses segmentos.

“Estamos analisando as opções de mercado, pois há muitas coisas que ainda não entregamos”, observa Zimerman. “Vamos ser muito criteriosos, mas minha expectativa é fechar ao menos dois acordos ainda em 2021. Esse será um direcional bastante forte a partir desse ano.”

Além de prestadores de serviços, esse escopo de aquisições, com ativos de menor porte, também pode incluir startups de tecnologia, ligadas especialmente a ferramentas de omnichannel, assim como produtores de conteúdo.

Com o seu IPO, em setembro, a Petz captou R$ 336,7 milhões e foi avaliada em R$ 5,1 bilhões

O apetite da Petz não está restrito, porém, a essas áreas. “Temos um primeiro bloco, onde olhamos aquisições mais parrudas, de players que atuam em todo o País”, diz Zimerman.

Em uma segunda camada, a empresa pode comprar redes regionais, que permitam acelerar sua expansão. Há, porém, alguns pré-requisitos. “As lojas precisam ter, no mínimo, 700 metros quadrados e um estacionamento razoável”, afirma o empresário.

Expansões, marca própria e plataforma para pet shops

Em 2021, a Petz projeta abrir mais de 30 lojas, superando a marca das 28 do ano passado. A expansão, que até então mesclava o reforço da presença em algumas cidades com a entrada em novas praças, passará a priorizar essa última abordagem.

Hoje, a rede tem uma base de 133 unidades, em 16 estados. Até 2025, a meta é estender a cobertura a todos os estados do País.

Já nas prateleiras das lojas, o plano é seguir ampliando o portfólio da marca própria Petz, que hoje tem ofertas em 25 categorias, com cerca de 300 produtos, entre snacks, shampoos, lenços umedecidos e tapetes higiênicos.

Sergio Zimerman, fundador e CEO da Petz

A expansão é também o norte da Seres, marca da varejista voltada para a saúde animal que encerrou 2020 com 104 centros veterinários e 10 hospitais. Embora não revele a projeção de aberturas, Zimerman diz que a bandeira seguirá um ritmo menos forte que as lojas, dada a complexidade para estruturar os serviços ofertados.

No campo das iniciativas de omnichannel, um dos passos recentes foi a criação de uma diretoria de Experiência do Cliente, comanda por Teodoro Ornelas, executivo com passagens pelo Grupo Pão de Açúcar, Walgreens, Accenture e Bain & Company, no Brasil e nos Estados Unidos.

“Agora, enquanto cada diretoria tem autonomia para cuidar de uma parte da jornada do cliente, essa área olhará esse processo de forma integrada, em todos os canais de contato”, diz Zimerman. “A intenção é sair dos clusters e ter ofertas absolutamente personalizadas.”

Nessa direção, Diogo Bassi, CFO da Petz, destaca dois componentes que ajudam a alimentar essa estratégia. “Hoje, 85% das nossas vendas já são identificadas, considerando todos os canais”, afirma o executivo.

Outra fonte é o programa de assinatura da rede, que permite programar compras recorrentes e, entre outros benefícios, oferece descontos no uso de serviços como a retirada de produtos nas lojas. “Hoje, 15% do faturamento da companhia já vêm de assinantes”, acrescenta Bassi.

Além desses clientes, a Petz prevê atender outro público: os pet shops de pequeno porte. A rede planeja desenvolver e lançar, ainda nesse ano, uma versão de sua plataforma de e-commerce, que será ofertada no modelo de white label para esses lojistas, de olho na digitalização impulsionada pela Covid-19.

Segundo o Instituto Pet Brasil (IPB), esse perfil de varejista é predominante no setor. Das cerca de 32 mil lojas no País, aproximadamente 26 mil são estabelecimentos com até 4 funcionários. Outras seis mil têm até 19 profissionais. Existem ainda 400 mega stores regionais e 180 unidades de grandes redes nacionais.

“Em 2020, o setor faturou cerca de R$ 40 bilhões, 13% a mais que em 2019”, afirma Nelo Marracini, presidente-executivo do IPB. “Desse montante, os canais de comércio eletrônico responderam por aproximadamente R$ 1,5 bilhão.”

Segundo o Instituto Pet Brasil, o segmento de pet shops movimentou cerca de R$ 40 bilhões em 2020 no País, um crescimento anual de 13%

A Petz não é a única empresa disposta a ganhar mais escala em um mercado ainda extremamente pulverizado e que movimenta essas cifras. Sua principal concorrente segue sendo a Cobasi, que tem pouco mais de 100 lojas e também vem avançando em uma série de ofertas multicanal.

Outro nome que está ganhando musculatura nessa disputa é a Petlove, cuja estratégia recente guarda alguns paralelos com a Petz. A começar pelo caixa reforçado. Em 2020, a companhia atraiu R$ 375 milhões em duas rodadas, lideradas, respectivamente, pelos fundos Softbank e L Catterton.

A Petlove também tem mostrado seu apetite por aquisições. Seja de plataformas para atender lojistas de menor porte, caso da compra da Vetus, em setembro, ou para ampliar seu portfólio, como aconteceu em outubro, com a fusão com a DogHero, que oferece serviços como dog sitter, hospedagem e atendimento veterinário.

Resultado

Enquanto prepara seus próximos movimentos para ampliar sua participação nesse mercado, a Petz reporta os indicadores apurados em 2020. No ano, a empresa registrou uma receita líquida de R$ 1,43 bilhão, alta de 45% sobre 2019.

No período, a receita bruta digital cresceu 341,8%, para R$ 395,6 milhões. Com o montante, a participação do online nas vendas totais saltou de 7,7%, no ano passado, para 23,2%. Já a fatia das vendas multicanal evoluiu de 71,1% para 79,8%, na mesma base de comparação.

O lucro líquido da companhia foi de R$ 74,1 milhões, um avanço de 98,3% sobre o resultado reportado na última linha do balanço, um ano antes. Desde o IPO, as ações da Petz acumulam uma valorização de 47%. Em 2021, a alta é de 5,91%. A empresa está avaliada em R$ 7,76 bilhões.

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