Em 1º balanço pós-fusão, Hapvida não mostra a “saúde’’ esperada por investidores

As ações da empresa, que se uniu ao Grupo NotreDame Intermédica, desabam na B3 por conta da queda no número de beneficiários e da alta sinestralidade. Para reverter a reação negativa, Hapvida enfatizou sinergias e sua estratégia de M&A

0
0
Leia em 5 min

A Hapvida está avaliada em R$ 45,9 bilhões

No início de 2022, a Hapvida e o Grupo NotreDame Intermédica (GNDI) receberam, enfim, a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para a fusão entre as duas operações, anunciada em fevereiro de 2021.

Já nesta semana, o mercado conheceu os primeiros números da operação combinada, a partir dos resultados do primeiro trimestre, que incorporaram os indicadores de fevereiro e março do GNDI. E a primeira impressão não foi nada positiva.

Por volta das 14 horas, as ações da Hapvida, avaliada em R$ 45,9 bilhões, recuavam mais de 18% na B3, cotadas a R$ 6,46. Em conferência com analistas, as lideranças da nova operação tentaram acalmar os ânimos do mercado, com a promessa de que o pior já passou e de que dias melhores virão pela frente.

“Tivemos um trimestre, de fato, extremamente desafiador, assolado por uma nova crise da Covid-19, assim como a antecipação de todas as viroses que esperávamos para o segundo trimestre”, disse Irlau Machado Filho, co-CEO da Hapvida. “Por outro lado, estamos muito otimistas, pois estamos percebendo um retorno à normalidade da empresa.”

Alguns indicadores ajudam a explicar a reação negativa do mercado ao balanço da operação. Entre eles, um índice de sinistralidade de 72,9% no período, contra 61,1%, há um ano. Além de uma redução orgânica de 64 mil vidas no número de beneficiários de saúde da base da operação.

Nessa última frente, a Hapvida destacou que a redução em questão teve como uma de suas principais justificativas a limpeza das carteiras da série de aquisições realizada por ambas as empresas no decorrer de 2021.

“Esses ajustes são naturais nesses processos e envolvem, em geral, algo entre 5% e 10% do portfólio de qualquer empresa”, afirmou Jorge Pinheiro, co-CEO da Hapvida. “A boa notícia é que já fizemos a grande maioria dos ajustes necessários e há pouca coisa pela frente.”

O grupo encerrou o trimestre com uma base total de 8,8 milhões de usuários no segmento de saúde, um crescimento anual de 16,1%. Já no segmento de beneficiários de planos odontológicos, o salto foi de 10%, para 6,5 milhões de usuários.

Em outro ponto de atenção, o tíquete médio no segmento de saúde registrou uma queda de 4,2%, para R$ 196,08, o que foi atribuído pela empresa ao reajuste negativo de R$ 8,19% nos planos de saúde individuais, promovido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Nesse contexto, o grupo disse ter boas perspectivas com novos reajustes previstos no curto prazo no setor, em torno de 15%, em segmentos como os planos voltados a pequenas e médias empresas. O que, na visão da companhia, deve influenciar positivamente no reajuste de planos corporativos.

Entre janeiro e março, a Hapvida reportou um prejuízo líquido de R$ 182 milhões, contra um lucro líquido de R$ 151,8 milhões, em igual período, há um ano. Já a receita líquida cresceu 108,4%, para R$ 4,8 bilhões.

“O crescimento lento (ou mesmo negativo) dos últimos trimestres, aliado às pressões macroeconômicas à frente, aumenta a incerteza sobre o momento de um possível ponto de inflexão”, escreveram, em relatório, os analistas Mauricio Cepeda e Pedro Caravina, do Credit Suisse.

Com um preço-alvo de R$ 16,70 para a ação, eles acrescentaram. “No curto prazo, o crescimento orgânico limitado e os níveis ainda elevados de sinistralidade impedem uma recuperação nos preços da ação.”

Sinergias e M&A

Enquanto lida com esses desafios de curto prazo, a Hapvida e o GNDI se movimentam para capturar as sinergias da operação combinada, estimadas em R$ 1,38 bilhão para o período compreendido entre 2022 e 2024.

“Estamos há apenas 90 dias da aprovação e já caminhamos muito”, disse Pinheiro. “Temos um produto nacional que já tem 50 mil vidas assinadas e em implementação em várias empresas. E um produto no forno focado mais em pequenas empresas.”

Ele também destacou iniciativas em curso ou em vias de serem implantadas envolvendo o credenciamento cruzado das redes das duas empresas, em praças como Joinville (SC), Florianópolis (SC), Brasília (DF) e Parauapebas (PA).

“Todas as cidades com mais de 2 mil vidas de ambas as empresas estão sendo verificadas para identificar a melhor solução a ser adotada”, observou Pinheiro. “Se passaremos por verticalização, credenciamento cruzado ou transferência de portfólio pra outra empresa.”

Machado Filho acrescentou: “Hoje, já são 54 hospitais com credenciamento cruzado entre as empresas, o que facilita a verticalização e a redução de custos”, afirmou. Os dois executivos também destacaram a oportunidade de expansão na base de leitos ativos da operação.

Atualmente, o grupo tem 85 hospitais, com 7.231 leitos ativos. O portfólio inclui ainda ativos como 318 clínicas, com outras 15 em construção, e 269 unidades de diagnóstico por imagem.

Segundo os executivos, a estratégia à frente também seguirá comportando o apetite por crescimento inorgânico. Mesmo em um ambiente macroeconômico mais instável e, no qual, a elevação da taxa de juros poderia ser um fator inibidor para esse ímpeto por aquisições.

“Temos cerca de 20 targets em conversas em nível nacional”, disse Machado Filho. “O País ainda é pouco penetrado em planos de saúde e o mercado é muito pulverizado, com centenas de operadoras atuando. Temos muitas oportunidades pela frente.”

Leia também

Brand Stories