Estímulos monetários, China e energia: as preocupações de André Esteves

O sócio do BTG Pactual destaca a combinação desses três fatores como a razão por trás do cenário global de aversão ao risco. E diz que, apesar da “politização excessiva”, o Brasil tem boas perspectivas

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André Esteves, sócio do BTG Pactual

Um dos principais nomes do mercado financeiro e senior partner do BTG Pactual, André Esteves abriu o evento BTG Invest Talks, na noite desta segunda-feira. E, ao destacar sua preocupação com o cenário global, ele apontou três questões que estão favorecendo a aversão ao risco entre os investidores.

Esteves apontou, como um primeiro tema, a política monetária que está sendo adotada pelos principais bancos centrais do mundo, em particular, o FED e o Banco Central Europeu, e suas possíveis consequências para a economia global.

“Acho que está havendo um exagero na dose de estímulos monetários”, afirmou Esteves, em conversa com Roberto Sallouti, CEO do BTG. “Com a economia americana crescendo perto de 5%, com pressões inflacionárias importantes, estamos perdendo tempo de normalizar essa política.”

Entre outras questões nesse contexto, ele citou a necessidade de encerrar as compras de ativos promovidas por esses bancos centrais, o chamado tapering. E também de normalizar as taxas de juros que, segundo ele, “estão a zero”, de maneira genérica, nos Estados Unidos e na Europa.

“Toda vez que as economias centrais têm um resfriado, a periferia sofre uma pneumonia”, observou. “E quanto mais se atrasa essa política monetária, maior ou mais amplo é o tamanho do movimento para corrigir, e por consequência, maior a adversidade para países como o Brasil.”

Um segundo ponto destacado foram as possíveis consequências atreladas aos riscos expostos no caso da Evergrande, segunda maior empresa de construção civil da China, com dívidas de mais de US$ 300 bilhões.

“Nós temos um sinal amarelo”, afirmou ele, sobre essa questão. “Acho que a Evergrande não vai passar por uma explosão nuclear. Como tudo na China, vai ser bem controlado. Mas não sabemos exatamente as consequências para o crescimento chinês.”

Completando o trio de fatores que estão “tirando o sono” dos investidores, Esteves destacou o cenário de crise global de energia, com problemas, por exemplo, de falta de carvão na China e na Índia, e estoques baixos de gás natural. E, por consequência, com a alta nos preços.

“Vivemos secas históricas em uma combinação de regiões do mundo”, afirmou, citando países e regiões como Coreia do Sul, China, África do Sul, Europa, Califórnia (EUA), Chile e Brasil. “Existe algo acontecendo no clima e, pela primeira vez, estamos sentindo isso de modo mais síncrono e global.”

Além desses componentes, Esteves reservou alguns minutos para falar sobre as quedas nas cotações das ações de empresas de tecnologia sob esse cenário. Para ele, o mercado vivia, até pouco tempo, um momento no qual o “custo de sonhar” estava muito barato.

“Em 500 anos de história financeira, toda vez que houve expansão monetária e fiscal, combinada com inovação tecnológica, se criou uma bolha”, disse. “Então, acho que a hora que se começa a ter mais rigor com risco e com custo de capital, os sonhos começam a voltar à realidade. Então, existe uma certa correção nesse quadro.”

Já em relação ao Brasil, Esteves destacou o que ele classifica como avanços recentes conquistados pelo País. Entre eles, as reformas trabalhista e da previdência, a independência do Banco Central e a nova lei do saneamento, que foi o ponto de partida para “privatizações relevantes”.

“Estamos vivendo talvez uma excessiva politização, que, às vezes, pode turvar demais a visão do que está acontecendo”, observou, destacando que o País tem uma democracia consolidada e um mercado corporativo vibrante. “Temos um movimento subjacente às confusões de Brasília muito mais perene e legítimo do que a disputa política da vez.”

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