EUA caminham para uma recessão. Quem diz é Larry Summers

Ex-secretário do Tesouro americano e chefe do Conselho Econômico de Barack Obama não vê a inflação em queda sem que o Fed aperte a política monetária e desacelere a economia com o aumento da taxa de desemprego

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Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA e chefe do Conselho Econômico de Barack Obama

Crítico feroz da política executada pelo Federal Reserve (Fed), o BC dos EUA, e da leniência com que a instituição vem tratando a inflação, o ex-secretário do Tesouro americano, Lawrence Summers, reafirma que não vê a inflação nos EUA, que chegou a 9,1% em base anualizada em junho, recuando sem que o país passe por uma recessão nos próximos 18 meses.

“Na situação atual, minha esperança é que o Fed faça o que for necessário e coloque o gênio da inflação de volta para dentro da garrafa por mais 40 anos, mas não creio que isso acontecerá sem que uma desaceleração séria da atividade e sem que a taxa de desemprego avance a 6%”, afirmou o influente economista de Harvard, que também chefiou o Conselho Econômico de Barack Obama.

Em sua participação na Expert XP 2022, em painel que contou com Artur Wichmann, CIO Global da XP Private, e Alberto Bernal, estrategista global da XP Investimentos, Larry Summers, como é conhecido, lembrou que “o desempenho da economia é o que é” e afirmou que, diante do mercado de trabalho tão forte (taxa de desemprego nos EUA está em 3,6%) só existem dois caminhos a considerar, indicando que um deles é improvável na sua avaliação: “Não teremos recessão ou quanto mais alto [o desempenho] maior o tombo”.

Com a inflação muito alta num cenário de mercado de trabalho super restrito, “só vamos para um lado”. “Tenho razoável confiança de que teremos recessão econômica nos próximos 18 meses. E não tenho certeza de por quanto tempo o Fed vai apertar a política monetária”.

Na semana passada, durante a “Wall Street Week”, da Bloomberg Television, Summers sugeriu que o Congresso americano eleve os impostos como uma ferramenta-chave para ajudar o Fed a conter a inflação. “A política fiscal faz uma grande diferença”, afirmou. “A coisa certa a fazer é aumentar os impostos agora para tirar parte da demanda da economia.”

O ex-secretário do Tesouro americano disse também que, com base em declarações de dirigentes do Fed que a instituição acredita que vai conseguir reduzir a inflação para 2% [meta] sem elevar a taxa básica acima de 3,25% ao ano e sem que a taxa de desemprego aumente. “Se acreditarmos nisso, como vamos acreditar que o Fed vai derrubar a inflação?”, questiona.

“Posso acreditar que vou jogar com a Serena Willians [tenista americana, ícone do esporte e participante da Expert XP] e vou ganhar três partidas. Mas essa possibilidade não é real. Achar que o Fed vai baixar a inflação sem subir a taxa de juro e desacelerar a atividade não é real. Não há suporte [na literatura econômica] para essa visão.”

Wichmann, da XP, ponderou que as políticas monetárias são divergentes entre as economias, mas que os EUA parecem estar na frente dos demais bancos centrais e perguntou como devemos pensar daqui para frente. A prática de políticas divergentes vai persistir?

Summers afirmou que “políticas monetárias divergentes ficarão por mais tempo porque os países são diferentes e devem ter políticas diferentes”. Ele reconheceu que o dólar está muito forte porque a economia norte-americana está mais aquecida e tem recursos, inclusive naturais, para crescer.

O ex-secretário do Tesouro reforçou que a política monetária americana será mais restritiva do que na Europa. E indicou que o Japão é um caso a parte. O Japão, diz Summers, está em outro ponto, com a população e o mercado de trabalho encolhendo.

Bernal, da XP, destacou o processo inflacionário nos EUA, chamando atenção para os preços dos automóveis usados que pretendia comprar para sua filha. Bem-humorado, Summers recomendou que Bernal comprasse um carro novo e afirmou ser quase sempre um erro pensar em inflação com base em cada produto, indicando que as crises recentes alteraram a formação de preços por razões distintas.

“A falta de semicondutores [desde a pandemia] contribuiu para o aumento dos preços de carros usados. Portanto, é melhor avaliar [a inflação geral] como resultado de gastos. Nos EUA, o PIB nominal cresceu à taxa de quase 18% nos últimos 18 meses, o que pressiona a inflação”.

Sem se desviar do tema inflação, Summers acrescentou que se alguém perguntar se o petróleo e as commodities têm maior probabilidade de alta ou de queda de preços, a resposta é sim.

“Os preços caíram e vão voltar a subir. Se olho para os salários, vejo a inflação salarial subindo e não me parece que a inflação vai desaparecer por conta própria. Não é provável, portanto, que a inflação [atual] seja transitória. E não devemos sair disso sem recessão”.

Larry Summers encerrou sua participação na Expert XP com uma observação feita na abertura do painel: a semelhança entre América do Norte e América Latina.

“Sempre pensei que a América Latina se tornaria mais parecida com a América do Norte, mas olhando o governo Trump e as políticas corporativas, me pergunto se não é a América do Norte que está mais parecida com a América Latina.”

Essa pergunta, recomendou, deve ser feita nos próximos anos.

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