Grandes nomes do mercado alertam sobre valor da Tesla e risco de bolha

A opinião do investidor britânico, Jeremy Grantham, conhecido por antever crises, sobre a “exagerada” valorização da montadora de Elon Musk encontra eco nas palavras de Michael Burry, que ganhou fama ao prever o estouro da bolha imobiliária nos EUA, em 2008

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A Tesla está avaliada em US$ 1 trilhão

Aos 83 anos, Jeremy Grantham é daqueles nomes que ostentam o status de lenda no mercado de investimentos. Cofundador da gestora GMO, o britânico ganhou fama ao prever crises como as bolhas das empresas pontocom, na virada do século, e do mercado imobiliário, em 2008.

Com essas credenciais, o investidor vem alertando, há mais de um ano, sobre os riscos de uma nova crise no mercado de capitais. E, na última sexta-feira, ele voltou a abordar esse tema, usando como ponto de partida a Tesla, empresa comandada pelo bilionário Elon Musk, cujo valor de mercado atual é de US$ 1 trilhão.

Em entrevista concedida à agência Bloomberg, Grantham destacou que as ações da companhia de veículos elétricos estão no centro de uma nova bolha e a empresa tem “chance zero” de atender às enormes expectativas dos seus acionistas.

“A avaliação da Tesla pressupõe que a empresa terá não apenas um sucesso brilhante, mas múltiplos tão bem-sucedidos quanto as FAANGs, que são algumas das grandes empresas da história do capitalismo”, afirmou, em uma referência à sigla usada no mercado para reunir as gigantes de tecnologia Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google.

Em um contraponto a essa visão exageradamente otimista, Grantham ressaltou que a Tesla ainda terá pela frente uma forte concorrência, ao citar os planos de montadoras tradicionais como Volkswagen, BMW e Mercedes.

“Todas as grandes empresas automotivas estão se preparando para se tornarem elétricas”, observou. “A Tesla terá uma competição séria. Será impossível viver de acordo com as expectativas dos preços das ações”.

Na esteira desse contexto, ele destacou que os investidores estão mais otimistas do que o cenário observado antes de crises como o crash da Bolsa em 1929 e as bolhas do pontocom e do setor imobiliário, há 13 anos.

O investidor britânico Jeremy Grantham, cofundador da gestora GMO

“Há uma maior aceitação para ideia de que os preços nunca caem e que tudo o que você tem a fazer é comprar”, disse. “Quando o declínio vier, talvez seja maior do que qualquer coisa anteriormente na história dos Estados Unidos.”

Ao alertar que essa é a primeira que a inflação está sendo ignorada, Grantham também teceu críticas às políticas de estímulos que vem sendo implementadas, há tempos, pelo Federal Reserve, e fez uma menção a Paul Volcker, que presidiu o banco central americano de 1979 a 1987.

“O Fed não fez nada certo desde Paul Volcker, que era brilhante. Todos os outros incentivaram uma série de bolhas de ativos realmente perigosas. Eles super estimularam para chegar a 2000, super estimularam o mercado em meados dos anos 2000 e aprenderam? Absolutamente não.”

O discurso de Grantham encontra paralelos nas palavras de Michael Burry, outro nome do mercado conhecido por antever crises. Hoje à frente da Scion Asset Management, o investidor americano ficou sob os holofotes ao prever a crise de 2008, o que rendeu um livro e um filme, estrelado pelo Christian Bale, batizados de “A grande aposta”.

Burry também se destaca por ser um crítico ferrenho do alvoroço criado em torno da Tesla. Neste domingo, dia 14 de novembro, ele voltou a colocar a empresa e Elon Musk no alvo de suas postagens no Twitter.

Ele destacou que Musk fez empréstimos pessoais e sugeriu que o bilionário estaria vendendo suas ações para pagar essas dívidas e capitalizar sobre a valorização da Tesla. “Vamos enfrentá-lo”, tuitou. “Ele não precisa de dinheiro. Ele só quer vender TSLA”, citando o ticker de negociação da companhia na Nasdaq.

Em 6 de novembro, Musk fez uma enquete com seus mais de 60 milhões de seguidores no Twitter sobre qual seria o futuro de seus ativos na Tesla. Na semana passada, segundo levantamento da rede CNBC, ele vendeu cerca de US$ 6,9 bilhões em ações da empresa. O movimento impactou o desempenho dos papéis, que recuaram 15,4% no período, no pior desempenho semanal em 20 meses.

O investidor Michael Burry

Em outras oportunidades, Burry já destacou que o preço das ações da Tesla era “ridículo” e previu que os papéis da companhia entrariam em colapso, assim como aconteceu na crise de 2008 e na bolha das empresas pontocom.

Em linha com o cenário descrito por Grantham, na quinta-feira, 11 de novembro, ele também usou o Twitter para alertar que o mercado está vivenciando o seu período de maior especulação desde essas e outras crises, o que se reflete em avaliações de mercado exageradas como a da Tesla.

“Mais especulação do que na década de 1920”, disse o investidor, em alusão aos anos que antecederam a quebra da Bolsa de Nova em 1929. “Mais supervalorização do que na década de 1990”, acrescentou, em referência ao período da bolha da internet.

Para Burry, além da Tesla, um exemplo representativo desse contexto é a Rivian, startup de veículos elétricos que abriu capital na quarta-feira, dia 10, e já é avaliada em US$ 135 bilhões. Fundada em 2009, a companhia só produziu 156 veículos.

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