GVAngels carimba o passaporte e amplia investimentos fora do Brasil

Em quatro anos, a GVAngels fez dois investimentos internacionais. Em 2022, já foram mais dois: na britânica Palqee e na canadense Boundless Life. E a meta é realizar mais sete aportes. Conheça a estratégia

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Hartley Jean-Aimee, Sabrina Palme e André Quintanilha, cofundadores da britânica Palqee

A GVAngels está de olho no mercado internacional. Desde o começo do ano, o grupo formado por mais de 300 alunos e ex-alunos da Fundação Getulio Vargas realizou dois investimentos em startups fundadas fora do Brasil.

Desta forma, a gestora iguala o número de aportes feitos no exterior desde sua fundação, em 2017. Agora, a meta é fazer até sete investimentos no exterior até o fim deste ano. “Não tínhamos, dentro da estratégia de longo prazo, um plano de internacionalização. Mas isso mudou”, diz Wlado Teixeira, diretor-executivo da GVAngels, ao NeoFeed.

As novas startups na carteira da GVAngels são a britânica Palqee, que desenvolveu um software para facilitar a adequação de empresas às normas de segurança de dados; e a canadense Boundless Life, que oferece um serviço de intercâmbio para famílias que inclui moradia, coworking e educação infantil.

Assim como nos investimentos realizados até o fim do ano passado, com as empresas Game Safer e DragApp, as duas novas startups no portfólio da GVAngels também contam com pelo menos um dos cofundadores dos negócios sendo brasileiro.

De acordo com Teixeira, os negócios geralmente são apresentados por pessoas que já fazem parte do grupo de investidores. Depois disso, passam pelas mesmas etapas e são avaliadas assim como as startups brasileiras que acabam ingressando no portfólio da rede.

A principal diferença está no valor dos cheques. Enquanto startups brasileiras recebem valores entre R$ 800 mil e R$ 1,7 milhão da GVAngels, o cheque para as operações internacionais ainda não segue uma regra específica. O valor máximo empregado até agora foi de US$ 210 mil no aporte da Boundless Life.

A tendência, no entanto, é de que esses cheques possam aumentar de valor em empreendimentos futuros. De acordo com Teixeira, além da questão cambial, startups fundadas no exterior costumam ter um valuation maior mesmo em suas fases mais iniciais.

Wlado Teixeira, diretor executivo da GVAngels

Apesar de valerem mais, uma das exigências da GVAngels é de que as startups sejam mais responsáveis com o caixa. “Eu brinco às vezes que parece que a questão de dar lucro ficou pejorativa no universo de startups. Parece que é proibido dar lucro e tem que escalar a qualquer custo”, diz Teixeira.

É uma visão parecida com a de outras gestoras de capital privado. Em entrevista recente para o NeoFeed, Edson Rigonatti, sócio da Astella Investimentos, chegou a afirmar que a hora era de preservar caixa o máximo possível e garantir robustez operacional. “O foco agora é operacional e menos só em fund raising”, disse Rigonatti.

No total, a GVAngels já desembolsou R$ 45 milhões em investimentos realizados em 42 startups. Não há uma previsão de quanto a rede de investidores planeja desembolsar nos próximos anos. A expectativa é de que exista um aumento por conta do crescimento da base de 320 investidores, que deve aumentar 40% neste ano.

Anjos agnósticos

Dentro da tese de expansão geográfica dos investimentos da GVAngels, a associação segue a máxima de que não privilegia um setor frente ao outro. “Somos agnósticos, mas o mercado acaba criando certos nichos e a tendência é de que mais startups apareçam de um setor ou outro”, diz Teixeira.

Fundada no Canadá pelos brasileiros Marcos Carvalho e Mauro Repacci, além da canadense Rekha Magon e a grega Eleni Zoi, a Boundless Life, por exemplo, tem um negócio que é até difícil de encaixar em uma categoria específica. A companhia vende um tipo de pacote de intercâmbio para “famílias nômades” que podem trabalhar remotamente.

Os planos ofertados que custam a partir de 2,5 mil euros por mês oferecem moradia, espaço para coworking perto da residência e educação infantil para crianças de até 12 anos. A intenção é criar comunidades ao redor do mundo. Inicialmente, o serviço está presente apenas em Sintra, cidade portuguesa nos arredores de Lisboa.

Finalizada em março, a captação de US$ 2 milhões nesta rodada (com US$ 210 mil da GVAngels) vai ampliar os destinos para cidades na Grécia, Itália e Espanha. A expectativa é chegar na Costa Rica e na Indonésia em 2023. Além da GVAngels, fundos como Sequoia Capital e Lightspeed Ventures também participaram da rodada.

No plano de expansão, a companhia estuda chegar no Brasil em algum momento futuro – tanto para criar uma marca forte para atender consumidores brasileiros como para explorar alguns destinos no país. “A gente quer trazer esse projeto para o Brasil. Para isso, precisávamos de gente de confiança que pudesse abrir as portas por aqui. A GV faz isso”, diz Marcos Carvalho, cofundador da Boundless Life.

A história da Palqee é diferente. Fundada em 2019 pelo brasileiro Andre Quintanilha ao lado da alemã Sabrina Palme e do franco-americano Hartley Jean-Aimee, a startup levantou 600 mil libras em uma rodada seed realizada em fevereiro deste ano. Do valor, 77,5 mil libras vieram da GVAngels e o restante da Fuel Ventures, empresa britânica de capital de risco.

A startup opera com privacidade e governança de dados através de uma plataforma que oferece um motor para mapeamento de dados customizável e facilita o trabalho para que empresas se adequem às normas do Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

A entrada da GVAngels no negócio, além do impulso financeiro, serve para que a companhia tenha apoio para sua operação no Brasil, que já responde por 60% da receita do negócio. “A GV colocou a gente em contato com pessoas que a gente não conseguiria o contato e está ajudando no recrutamento de profissionais”, diz André Quintanilha, cofundador e diretor de privacidade da Palqee.

Processo de seleção

Ao contrário de um fundo de capital de risco que antes de escolher as startups nas quais pretende investir realiza a captação dos recursos, a operação da GVAngels funciona de forma diferente e não capta dinheiro previamente. O fundo só busca investidores após ter uma startup escolhida.

“A GVAngels é uma associação, mas quem coloca dinheiro é o investidor. O que a gente faz é um trabalho pedagógico”, diz Teixeira. Por trás deste trabalho está a intenção de abrir o caminho para ensinar e permitir que mais pessoas invistam em startups, além de facilitar o crescimento das investidas no Brasil.

Tanto para operações nacionais como internacionais, o processo de seleção é semelhante. A cada mês, mais de 40 startups participam de uma seleção na busca por recursos da GVAngels. Um comitê formado por especialistas em marketing, finanças, vendas, tecnologia e outras áreas filtra este número para duas ou três empresas.

As companhias escolhidas, então, passam por um processo de due diligence e, se forem aprovadas, poderão ser investidas pela comunidade de investidores da GVAngels com cheques individuais no valor mínimo de R$ 20 mil para aportes em startups brasileiras e que ficam entre US$ 5 mil e US$ 10 mil para startups estrangeiras.

Em geral, o processo leva cerca de 44 dias para que uma startup receba um cheque. A intenção é reduzir este tempo para 30 dias. Já para as companhias que não são aprovadas, a resposta negativa chega em 10 dias. “A gente não tem o direito de demorar mais do que isso, porque as startups têm pressa”, diz Teixeira.

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