Na economia, um alívio temporário e um aperto no horizonte

Alívio do IPCA em julho e agosto por isenção tributária nos preços dos combustíveis não perdura porque dinâmica da inflação não mudou; aperto monetário vai durar mais tempo e com Selic maior

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O alívio temporário da inflação poderá alavancar votos para o presidente Jair Bolsonaro nas eleições de outubro, mas custará caro ao Banco Central (BC), ao Tesouro Nacional e aos consumidores especialmente para aqueles que dependem de crédito para consumo ou para compor o orçamento.

O aperto monetário deve durar mais tempo, a Selic deve ir além de 14% e o custo do financiamento da dívida pública ficará ainda mais salgado porque a perspectiva de encerramento do ciclo de alta da Selic a 13,75% é página virada.

Nesta terça-feira, 19 de julho, o Tesouro vendeu títulos indexados à inflação (NTN-B), com quase 40 anos de prazo até o vencimento em 2060, pagando juro real de 6,33% ao ano.

“A deflação em julho está contratada. Em agosto, a inflação pode ser zero. Em setembro, o IPCA deve avançar cerca de 0,50%. Em dezembro, porém, quando expirar a isenção tributária dos preços de combustíveis e energia elétrica, a inflação estará apontando para 0,80%”, diz Gino Olivares, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management.

Em 20 de junho, a pesquisa Focus apontava IPCA para julho de 0,37%; em 15 de julho, a projeção estava em -0,46%. “As medidas impostas pela PEC das Bondades representam mudanças temporárias nos preços. É como se todos tivessem subitamente um desconto que vale para o primeiro momento. Mas, como todo desconto, o efeito passa. Os efeitos das medidas são estritamente temporários porque a dinâmica da inflação não mudou”, diz Olivares.

Para o economista será “mais importante e necessário do que nunca expurgar dos índices os preços que sofreram intervenção pelas medidas do governo”. Ele, que agora projeta Selic entre 14% e 14,25% para este ano, afirma que o trabalho do BC [para a convergência da inflação às metas] ficou mais difícil porque “a política fiscal vai em outra direção”.
“A política do BC já mira 2023 e as medidas envolvidas na PEC não vão se esgotar em 2022. Ao contrário, haverá repercussão no ano que vem, quando a isenção fiscal deixar de ter efeito sobre os preços. Além disso, o BC continuará atuando num contexto de elevação de juros pelos bancos centrais das principais economias”, diz.

Sem associar a alta da taxa de câmbio à PEC das Bondades, Olivares cita que no final de maio o dólar era cotado a R$ 4,72 e já está em R$ 5,40. Ele lembra que ocorreu um movimento global de valorização da moeda americana. “Aqui a taxa subiu, desceu, subiu. E a volatilidade observada dificulta a incorporação de um dólar em baixa aos preços de bens e serviços. Portanto, o câmbio não ajuda a conter a inflação.”

O especialista em preços, Fabio Silveira, sócio e diretor da MacroSector Consultores, é da mesma opinião. “Em um mês, o dólar chegou a valorizar quase 10% e impulsionou a revisão de projeções para a taxa de câmbio que pode chegar a R$ 5,60. E não vejo como o câmbio pode refluir para R$ 5 ou menos nos próximos seis a oito meses”, diz o economista para quem o câmbio também não vai dar refresco para a inflação.

“Depois de 18 meses com altas mensais entre 0,8% e pouco mais de 1%, o IPCA tende a desacelerar a cerca de 0,50%”, diz Silveira, reforçando a ideia de que a dinâmica da inflação prossegue a despeito das isenções tributárias sobre os combustíveis.

Embora reconheça a desaceleração dos preços das commodities nos próximos meses no mercado internacional – na sequência da estabilização em patamares elevados observada a partir do segundo semestre do ano passado – Silveira não vê IPCA na casa de 5,5% em 2023.

“Trabalho com 7,5% para 2023 e com 9% para este ano. Ainda que os preços dos combustíveis caiam, outros segmentos terão alta, sobretudo, aqueles vinculados à taxa de câmbio.”

O diretor da MacroSector avalia que a transferência de renda – via Auxílio Brasil – vai estimular o consumo. “Haverá majoração da demanda e os preços de bens e serviços vão subir”, pondera Silveira que tem, entretanto, uma visão favorável para as commodities nos próximos meses.

Ele acredita que os preços das commodities, embora em patamares elevados, tendem a declinar sobretudo sob o efeito da alta do juro nos EUA. “O juro mais alto já começou a tirar dinheiro dos mercados futuros de commodities no segundo trimestre deste ano”, afirma.

“Simultaneamente, a oferta de produtos aumentará porque os preços de venda seguem elevados e países do Oriente muito populosos, como China, Índia e Indonésia, já formaram estoques para garantir segurança alimentar às suas populações. Portanto, as commodities de alimentos tendem a arrefecer, mas o que não vejo, mesmo com grandes economias em desaceleração, é petróleo retornando a US$ 50 ou a US$ 60 o barril”, completa o diretor da MacroSector.

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