EXPERTSMENTE PROGRAMADA

Na era da inteligência artificial, RH significará robôs e humanos

A evolução exponencial da tecnologia vai substituir diversas tarefas exercidas por pessoas hoje. O RH irá se transformar. As tarefas rotineiras serão substituídas por algoritmos e apenas poucos especialistas farão parte do time de uma empresa

 

Nos últimos dias reli e refleti bastante sobre um relatório do World Economic Forum, chamado “The Future of Jobs Report 2018”. É um estudo bem aprofundado, de quase 150 páginas, mas que deve ser lido com atenção. O estudo aponta quatro drivers tecnológicos, que são internet móvel de alta velocidade, uso de big data, inteligência artificial (IA) e a computação em nuvem. O impacto destas tecnologias na robotização de atividades, vai provocar profundas mudanças nos trabalhos e profissões como conhecemos hoje.

Resolvi escrever este artigo não para ser alarmista ou profeta do caos, mas como uma provocação. As mudanças estão acontecendo e devemos enfrentá-las. Para mim está claro que uma nova sociedade mundial está se delineando, fortemente baseada na tecnologia digital e na IA. Estas mudanças trarão impacto mais profundo que as demais ondas tecnológicas anteriores, como, por exemplo, a revolução industrial.

Além disso, sua amplitude e velocidade são únicas na história humana e muito provavelmente seus impactos sociais e econômicos, serão duramente sentidos pela obsolescência rápida de muitas profissões. A evolução exponencial da tecnologia vai substituir diversas tarefas exercidas por pessoas hoje. Tudo o que puder ser automatizado, o será. O desafio é que esta mudança, por ser rápida e profunda, tem muitas chances de destruir empregos mais rapidamente que criar outros.

Nas revoluções anteriores, funções que se tornaram obsoletas foram substituídas por outras, também executadas por pessoas, como a substituição de cocheiros por motoristas. A automação vem sucessivamente eliminando trabalhos, e já vimos algumas funções desaparecerem como ascensoristas, telefonistas, datilógrafos, operadoras de telex, engenheiros de voo, telegrafistas e assim por diante.

A velocidade da revolução que se avizinha vai pegar outra camada da sociedade, até então imune à automação, como os “white collars”, como advogados, contadores, auditores ou médicos,  e, o que é mais preocupante, o sistema educacional não está preparado para capacitar as pessoas para as novas funções que substituirão as que desaparecerem ou se transformarem.

Um outro estudo, “The Global Talent Competitiveness Index 2020: Global Talent in the Age of Artificial Intelligence”, publicado pelo Google e Insead, também demonstra claramente que a IA é uma tecnologia transformadora, como o foram anteriormente a eletricidade e os motores a combustão, que transformaram nossa sociedade. A economia, as profissões e as carreiras estão em transformação e as mudanças mais significativas ainda não aconteceram.

A IA está mudando o trabalho. A IA aumenta nossa inteligência. Isso facilitará muito mais as tarefas de rotina, reduzindo a demanda por essas tarefas e colocando alguns empregos em risco. Ao mesmo tempo, transformará algumas tarefas existentes e criará a necessidade de novas, criando oportunidades que não existiam antes, inclusive permitindo as pessoas dedicarem mais tempo ao trabalho criativo.

O efeito desta revolução, que vai afetar todas as profissões, será diferente nas diversas economias do mundo. Países com baixo nível educacional, fortemente ancorados em trabalhos de baixa qualificação tem possibilidades bem maiores de sofrerem efeitos maiores. Países com alto nível educacional conseguem gerar novas funções mais rapidamente, porque estas novas funções tenderão a exigir uma capacitação maior que a média atual.

Em um estudo da The Economist Intelligence Unit, com 35 países que representam 88% do PIB mundial, medindo as competências dos estudantes de 15 a 24 anos para as demandas do mercado de trabalho em transformação, aparecemos na 22ª posição. As competências necessárias para que os estudantes se tornem competitivos no mercado de trabalho futuro, como sugeridas pelo estudo, são capacidade analítica e criativa, conhecimento digital e técnico, consciência cívica e global, além de empreendedorismo, abertura interdisciplinar e liderança. Estamos vendo a valorização dos soft skills, que é pouco valorizada no nosso modelo educacional.

Em termos de competitividade, o Brasil também não está em situação confortável. Um estudo efetuado pelo IMD (International Institute for Management Development) em parceria com a Fundação Dom Cabral mostrou que ocupamos a 60ª posição entre 63 países analisados. Um dos fatores analisados é a eficiência empresarial em aparecemos no 59º lugar. E pior: quando olhamos alguns indicadores específicos, como produtividade do trabalho, aparecemos na 62ª posição.

Estamos também muito mal quando olhamos o grau de adoção de práticas gerenciais e tecnológicas compatíveis com o século 21. Quando perguntados se as empresas brasileiras estão usando ferramentas e tecnologias digitais para avançar em seus negócios, os entrevistados colocaram o Brasil em 54º lugar. Em algumas tecnologias, estamos mais abaixo ainda, como o uso de big data e de IA, onde estamos na 59ª posição. Este nosso baixo uso de tecnologias avançadas como IA, é comprovado por outras pesquisas, como a da O´Reilly. Por região, vemos que a América do Sul, onde estamos, está na lanterna no uso de IA.

Um subproduto desta revolução poderá ser o aumento da desigualdade econômica e social entre países e entre os habitantes de cada nação. Cada emprego atual está na mira da automação. Um escritório de advocacia em vez de 90% de advogados juniores e 10% seniores, será estruturado com muitos Data Scientists e engenheiros de Machine Learning escrevendo e treinando algoritmos e mais algoritmos, em torno dos poucos advogados especialistas seniores.

O dia a dia típico do trabalho de um escritório de advocacia, que é rotineiro e atualmente exercido pelos juniores, como buscar documentos, pareceres, jurisprudências ou escrever petições, será automatizado em sua maior parte.  Provavelmente se parecerá mais como uma empresa de tecnologia atuando na área advocatícia. A questão é: como formar Data Scientists em número suficiente? E o que fazer com os advogados que perderão seu espaço? E, como preparar um advogado sênior, uma vez que o estágio como conhecemos hoje, não será mais tão necessário ou possível?

O cenário pior em termos econômicos e sociais seria termos uma elite altamente qualificada e uma grande parcela de empregos na base da pirâmide, como jardineiros e outros que demandam habilidade humanas. O meio, que hoje é a que chamamos classe média, estará em risco de substituição de muitas de suas atuais atividades. Precisarão aprender outras e se reciclarem em suas profissões.

O desafio que vejo é que estas novas funções demandam um sistema educacional preparado para capacitar pessoas neste novo contexto. As novas funções são aquelas que requerem mais conhecimento e raciocínio cognitivo. Demandam criatividade e inovação. Uma escola tradicional, não incentiva estes aspectos. Ainda vemos muito do modelo do século 19, alunos sentados ouvindo um professor e fazendo anotações. Limita a criatividade. Sim, este é um desafio: repensar o modelo educacional.

Os professores precisam ser preparados para novos papéis. Não há outro fator dentro de uma escola que influencie tanto o aprendizado quanto a habilidade do professor. No Brasil apenas metade das vagas de pedagogia é preenchida. Entra na carreira quem quer. Hoje estão sendo atraídos para essa profissão os estudantes com o pior desempenho na educação básica.

Segundo dados do Movimento Todos Pela Educação, 70% dos matriculados em pedagogia tiveram notas abaixo da média nos últimos ENEM. Apenas 4% do currículo pedagógico é dedicado a teorias didáticas. Os maiores blocos de tempo estão com sociologia da educação e história da educação, disciplinas muito distantes da prática em sala de aula.

Aliás, uma proposta bem instigante de reinventar a educação foi formulada pela Singularity University, no texto “A Model for the Future of Education”. Precisamos urgentemente começar a formar pessoas com as capacitações necessárias para as profissões do futuro e não continuar a preparar pessoas para profissões que desaparecerão em poucos anos.

Outra questão que mais cedo ou mais tarde vai surgir: o emprego como conhecemos vai continuar existindo? As relações entre empresas e empregados continuará como hoje? A carga horária será ainda de 40 horas em turnos fixos, como definido, por necessidade, na sociedade industrial?

Para lembrar como surgiram as típicas oito horas de trabalho. Vamos voltar ao início da Revolução Industrial. No final do século 18, as fábricas funcionavam sem parar, em regime 24/7. Para tornar as coisas mais eficientes, as pessoas tinham que trabalhar mais. A norma era que as pessoas trabalhassem continuamente entre 10 e 16 horas.

Essa carga horária mostrou-se insustentável para a saúde dos trabalhadores. Então Robert Owen, um reformista social inglês, começou uma campanha para que essas pessoas não trabalhassem mais que oito horas por dia. Seu slogan era “oito horas de trabalho, oito horas de lazer, oito horas de descanso.” Não demorou muito para que a Ford implementasse, de fato, as oito horas diárias e mudasse os padrões. Portanto, as oito horas por dia não foi fruto de análises e estudos científicos. É simplesmente uma norma secular para tornar as fábricas mais eficientes.

Mas, quando as fábricas se tornam automatizadas, com robôs e não humanos? Um robô pode trabalhar 24×7. E quando o trabalho é cada vez mais baseado em conhecimento e criatividade? Esta não tem hora para chegar. Um insight pode acontecer a qualquer momento e não apenas das 9:00 às 17:00.

Com a automação, a necessidade de pessoas trabalhando em tempo integral para atender as demandas da sociedade diminuem substancialmente

Com a automação, a necessidade de pessoas trabalhando em tempo integral para atender as demandas da sociedade diminuem substancialmente. Isso implica em novas normas e práticas trabalhistas, e novas relações entre empresa e pessoas, afetando significativamente questões delicadas como aposentadorias e férias. Acredito que iremos caminhar na redefinição do atual conceito de trabalho e emprego.

Peguei algumas destas provocações e conversei com amigos, executivos de RH de algumas empresas de grande porte. Questionei se as empresas e as áreas de RH estão realmente preparadas para enfrentar essas ameaças disruptivas? Como e onde buscar e reter talentos para ajudar a empresa no processo de transformação digital e mudanças nos cenários de negócios que pululam por toda a parte?

Pelo que observei, as áreas de RH ainda precisam evoluir muito. Muitas delas baseiam seus processos e práticas nos princípios das empresas da sociedade industrial, que são ainda o cerne de suas organizações. Na verdade, o próprio RH irá se transformar. As tarefas rotineiras serão substituídas por algoritmos, como em outros setores, e apenas poucos especialistas farão parte do time de RH de uma empresa. A própria sigla RH vai se transformar em Robôs e Humanos.

Diante deste cenário transformador, para questionar como será o novo RH, precisamos antes questionar como as empresas se adaptarão para sobreviver em um mundo novo e desconhecido? O atual modelo organizacional, hierárquico não mais atende à demanda de velocidade e transformações quase que cotidianas que o novo cenário exige. Teremos um novo modelo organizacional, novas relações entre empresas e pessoas, e naturalmente, um novo RH.

O futuro do trabalho é um assunto que interessa a todos nós. Temos que discutir seriamente o assunto. Acredito que a revolução da tecnologia não é destino, mas um meio para chegarmos a um novo modelo social e econômico. Se será positivo ou negativo, vai depender de nós. Mas, indiscutivelmente, que a inação não é a melhor alternativa.

*Cezar Taurion é Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral. Antes, foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.

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