Na Galapagos Capital, um ex-BTG e C6 Bank quer destravar o crédito para startups

Fundada por Carlos Fonseca, a gestora está apostando em uma área pouco explorada no Brasil: o venture debt. Em 2020, foram sete operações e R$ 45 milhões. Neste ano, a previsão são até 15 operações, que podem chegar a R$ 150 milhões. Entenda a estratégia

0
114
Leia em 6 min

Carlos Fonseca, sócio da Galapagos Capital

Ao longo de sua trajetória profissional, Carlos Fonseca foi um investidor de grandes jogadas. No BTG Pactual, onde comandou a área de private equity, ele tinha sob seu chapéu mais de R$ 40 bilhões aplicados em dezenas de empresas. Algumas bem-sucedidas, como a rede de hospitais D’Or e a credenciadora Stone. Outras nem tanto, a exemplo da rede de farmácias Brazil Pharma e da varejista Leader Magazine.

No banco digital C6 Bank, onde ele foi um dos sócios, Fonseca teve uma rápida passagem. Saiu para criar a sua própria gestora de investimentos. Desde março de 2019, ele está à frente da Galapagos Capital, que já tem R$ 3 bilhões de ativos sob gestão.

Agora, a Galapagos Capital, que atua em wealth e asset management e conta com uma área proprietária, com várias frentes de atuação, como home equity e car equity, quer reforçar um segmento pouco explorado no mercado brasileiro: dar crédito a startups, o chamado venture debt.

“É uma oportunidade gigantesca”, disse Fonseca, em entrevista ao NeoFeed. “O Brasil passou a ter muito capital para equity. Mas os bancos e o mercado de capitais não estão prontos para prover dívidas para essas empresas que estão nascendo.”

Em 2020, a Galapagos Capital já estruturou sete operações para startups, emprestando R$ 45 milhões. Na lista de empresas que receberam os recursos da gestora estão o marketplace de serviços de beleza Singu, vendido para a Natura; o site de reservas Voa Hotéis, um concorrente da indiano Oyo, investido pelo Softbank; e a empresa de construção civil Tecverde, que utiliza um sistema construtivo que usa madeira para criar obras rápidas e sustentáveis.

Agora, a meta é estruturar pelo menos 15 operações em 2021. O tíquete médio varia entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões, o que fará com que a empresa empreste entre R$ 75 milhões e a R$ 150 milhões às startups em 2021.

“Os grandes bancos fazem uma análise de crédito das startups como se fosse uma padaria”, afirma Thomas Averbuck, sócio da Galapagos Capital, responsável por essa linha de negócios. “Entendemos o modelo de negócio e olhamos o cap table, para saber se levantou bastante capital.”

Um exemplo dessa abordagem é a Singu, fundada pelo empreendedor Tallis Gomes, o mesmo que criou o aplicativo de transporte Easy Taxi. A startup negociava sigilosamente sua venda para a Natura. Mas o dinheiro levantado com investidores havia acabado. Buscar uma nova rodada de capital não fazia sentido, pois o negócio poderia ser concluído a qualquer momento (a transação foi fechada em agosto do ano passado, por valor não revelado).

Gomes, durante um tempo, colocou dinheiro do próprio bolso. Até que surgiu na mesa a opção de realizar um venture debt com a Galapagos Capital. “Foi uma ponte até o acordo ser fechado para que eu não precisasse fazer uma nova rodada e ser diluído”, diz Gomes. “Em um mês, fechamos o empréstimo. É uma forma que o mercado encontrou de fazer dívida para startups, que não têm balanço ou lucro.”

Um dos riscos de dar créditos a startups é exatamente esse. Sem balanço e, muitas vezes, sem lucro, emprestar dinheiro às startups é arriscado. Para reduzir esse perigo, a Galapagos sempre busca garantias. “Buscamos startups que tenham recebido rodadas de investimentos e que já estejam mais maduras”, diz Averbuck. “Sempre há algum tipo de garantia.”

Thomas Averbuck, sócio da Galapagos Capital

No caso da Singu, as garantias foram os recebíveis da empresa – a transação com a Natura deu, logo em seguida, os recursos necessários para a companhia quitar a dívida. Em relação a Tecverde, os imóveis da empresa deram segurança ao empréstimo. “Para uma empresa que está crescendo, faz todo o sentido uma linha de crédito”, afirma Fonseca. “O custo é bem mais atrativo de que o de um venture capital.”

Não se trata de uma declaração de guerra ao venture capital. Ao contrário. Os dois tipos de capital são extremamente importantes para as startups. Em 2020, por exemplo, as startups brasileiras captaram mais de US$ 3,5 bilhões (R$ 18,1 bilhões), um montante 17% superior ao ano anterior, segundo o estudo Inside Venture Capital Brasil, realizado pelo hub de inovação Distrito. “Para que haja o business de dívida, é preciso que haja o de equity”, afirma Fonseca.

No caso do venture debt, no entanto, o capital ainda é escasso – não há pesquisas que mostrem quanto de recursos dessa modalidade foi aportado nas startups brasileiras. Mas há algumas vantagens ao recorrer esse tipo de recurso.

Uma delas é que os fundadores e investidores não são diluídos. A outra é que quem empresta o dinheiro não participa da gestão da empresa. Os recursos precisam ser usados para alavancar a startup. O lançamento de um novo produto, a compra de uma empresa ou até mesmo uma nova estratégia, que vai gerar mais receita no longo prazo, são exemplos de como o venture debt pode ser útil.

Mesmo de forma incipiente, o venture debt começa ganhar adeptos no Brasil. Mas o mato para quem atua nesse mercado ainda é muito alto. Isso não significa, entretanto, que não haja concorrência. Essa modalidade começa as poucos ganhar a atenção de outras gestoras e de bancos de investimentos.

O Silicon Valley Bank (SVB), considerado o banco das startups nos Estados Unidos, estruturou um fundo de venture debt de US$ 30 milhões, em parceria com o Partners for Growth (PFG) e com o IDB Invest, braço de investimento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Sob o comando de Julia Figueiredo, que dirige a operação para a América Latina do SBV, o fundo, no entanto, ainda não fez nenhum empréstimo – a primeira startup a receber os recursos deve ser anunciada em breve.

O Brasil Venture Debt, sob o comando de Gabriela Gonçalves, que teve passagens pelo BNDES e pelo Banco do Nordeste, conta também com um fundo de R$ 140 milhões que já emprestou recursos para startups como Goomer, Kenoby, Smilink, Ambar, SmartMEI, entre outras.

O BTG Pactual, antiga casa de Fonseca, atua também nessa área desde 2019. Procurado, não quis comentar as operações que já realizou até o momento. Mas há um caso emblemático envolvendo o banco de André Esteves: foi a operação na qual emprestou dinheiro para a Mosaico, dona dos sites Zoom e Bondfaro, comprar o rival Buscapé, em 2019 – o valor não foi revelado.

Na semana passada, a Mosaico fez um bem-sucedido IPO na B3: captou R$ 1,2 bilhão e viu seus papéis se valorizarem 97% no primeiro dia de negociação na  bolsa de valores. A abertura do capital da empresa – depois de vários IPOs de sucesso na B3, como Locaweb, Méliuz, Enjoei e Neogrid – abre uma janela de oportunidade para quem quer atuar com venture debt.

A própria Galapagos está se estruturando para atacar essas startups que querem recorrer a bolsa de valores. A ideia é oferecer recursos para os gastos com o processo de se tornar uma empresa pública. Sobre a concorrência, a resposta de Fonseca não foge do padrão. “Está crescendo rápido e está ficando mais competitivo. É super-saudável”, afirma.

Leia também