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“Não tomar a vacina é a escolha mais arriscada”, diz membro do FDA

Membro do conselho que aprova a vacina contra a Covid-19 nos EUA, Paul Offit falou ao NeoFeed sobre as teorias conspiratórias e os medos que envolvem as drogas contra a Covid-19. O imunologista reconhece que o FDA cedeu a pressões do governo na pandemia, mas garante que o órgão está cumprindo seu papel quando o assunto é a vacina

 

O imunologista Paul Offit

Membro do Comitê Consultivo da Food and Drug Administration (FDA), órgão americano equivalente à Anvisa, no Brasil, o imunologista Paul Offit acompanha estupefato as notícias de que parte dos americanos não pretende tomar a vacina contra a Covid-19.

Segundo uma pesquisa divulgada pela rede americana CNN, em outubro, 45% dos entrevistados declararam que não têm intenção de tomar uma dose do remédio, enquanto 4% disseram ainda não ter uma opinião formada.

O volume cresceu desde maio, quando a CNN apurou que 33% dos participantes não pretendiam se vacinar. “As pessoas precisam entender que elas não estão livres de riscos ao não tomarem a vacina. Elas apenas estão escolhendo outro tipo de risco”, disse Offit, ao NeoFeed.

Cético declarado, o imunologista que é também diretor do Centro de Vacinação do Hospital Infantil da Filadélfia e professor na escola de medicina da Universidade da Filadélfia, acredita que toda cautela seja válida, desde que as pessoas estejam dispostas a aceitarem a ciência e as estratégias que defendam os interesses da sociedade.

Apesar das notícias do aval britânico para a vacina da Pfizer, Offit não quer apressar os protocolos de segurança. “Pedimos dois meses de dados de segurança após a aplicação da segunda dose”, explica, acrescentando que terá acesso a esses indicadores em 10 e 17 de dezembro. “Estamos resistindo à pressão do governo. Eu, como parte do painel consultivo, não vou aprovar uma vacina que não estaria disposto a aplicar em mim ou em minha família”.

Acompanhe a entrevista :

Como imunologista, tenho certeza que você deve ter encontrado pessoas com medo de vacinas. Esse temor é justificável?
Acho que você pode ser razoavelmente cético em relação a qualquer coisa que coloquem em seu corpo. Quando você recebe uma vacina, está sendo injetado com um agente biológico que induz uma resposta imunológica. Mas como qualquer produto que tenha efeitos positivos, às vezes estamos sujeitos a efeitos colaterais. É algo bastante sério e, portanto, acho que é bom ser cético em relação às vacinas, só acho que não é bom ser cínico. 

Como assim?
Acho que, uma vez que você tenha dados que mostrem claramente que os benefícios das vacinas superam de forma clara e definitiva a maioria dos riscos teóricos, você deve estar disposto a recebê-las. 

É bom ser cético em relação às vacinas, só acho que não é bom ser cínico

Como no caso do novo coronavírus?
Não tomar a vacina contra a Covid-19 é assumir um risco também. Veja, é fato que estamos enfrentando um vírus altamente contagioso que, só nos Estados Unidos, matou mais de 250 mil pessoas em menos de um ano. Seria bastante óbvio assumir que uma vacina contra essa doença seria vantajosa, não? A escolha de não tomar a vacina, não é uma escolha sem risco. É apenas uma escolha de assumir um risco diferente. Sobretudo porque todos os dados que temos até o momento apontam que a injeção é segura e eficaz. Então, a escolha de não tomar a vacina é, indiscutivelmente, a escolha mais arriscada.

Há quem ainda se apoie em mitos, como a história de que vacinas levam ao autismo.
Bem, essas pessoas são geralmente conspiracionistas e, na maioria das vezes, estão erradas. Elas dizem que as vacinas causam autismo, diabetes, esclerose múltipla ou até déficit de atenção. A todas elas eu digo apenas que estudos após estudos mostram que isso não é verdade. Portanto, essa é uma falsa preocupação. 

Em algum momento as vacinas foram, de alguma forma, um perigo?
A vacina oral contra a poliomielite, de Albert Sabin, provocou, em raríssimos casos, a poliomielite. Apenas um a cada 2,4 milhões de pacientes desenvolviam a doença por conta da vacina, mas ainda assim era real. Da mesma forma, a vacina da gripe é uma causa muito rara da síndrome de Guillain-Barré, um tipo de polineuropatia que causa fraqueza muscular. E a vacina do sarampo pode provocar em uma entre 30 mil pessoas a redução na contagem de plaquetas, que são células do corpo que ajudam a coagular o sangue. Então, quero dizer, esses são realmente efeitos colaterais graves associados às vacina. Mas o que o movimento antivacina prega, de que pode causar autismo e etc., simplesmente não é verdade. 

Você defende a obrigatoriedade da vacinação?
Você é um membro da sociedade e, portanto, não é seu direito pegar e transmitir uma infecção potencialmente fatal. Quando você vê surtos de sarampo, por exemplo, como o que vimos recentemente na cidade de Nova York, os pais dirão: “Bem, não quero tomar vacina nem vacinar meus meus filhos.” Mas isso não coloca em risco apenas os seus filhos, mas também os filhos de outras pessoas. Ou seja, você não está apenas tomando uma decisão por si ou por seus filhos, você está tomando uma decisão pelos outros. E quando se trata de infecções potencialmente fatais, a decisão não é sua. Desculpe. Existe uma tensão neste equilíbrio entre saúde pública e liberdades individuais. 

A tensão atual também tem a ver com a “pressa” pela vacina. Para acelerar o processo das doses testadas, o governo suavizou os protocolos?
Não, o que aconteceu é que o governo praticamente tirou os riscos das farmacêuticas. É como se o Estado dissesse: “olhe, a gente vai pagar pela terceira fase de testes”, uma fase que custa centenas de milhões de dólares. O governo vai pagar também para produzir em massa essas vacinas a seu próprio risco, ou seja, sem saber se elas serão seguras ou eficazes. Caso os dados mostrem que elas não são, jogaremos milhões de doses fora. É disso que estamos falando ao acelerar o processo. Não de enfraquecer os protocolos de segurança. O único problema é que você só saberá se a vacina faz efeito no longo prazo depois de alguns meses. Você não vai saber se o efeito dura por seis meses ou um ano. Mas você realmente quer fazer um estudo de dois ou três anos para ver se ele é eficaz ou não por dois ou três anos, quando 270 mil pessoas morreram só nos Estados Unidos? Não acho que faça muito sentido. 

Quando se trata de infecções potencialmente fatais, a decisão não é sua. Desculpe. Existe uma tensão neste equilíbrio entre saúde pública e liberdades individuais

Das vacinas em teste mais avançadas, quais as suas principais apostas?
Só posso responder a essa questão depois que avaliar os dados científicos. Nós, do Comitê Consultivo da FDA, os receberemos em 10 e 17 de dezembro. Se os dados forem tão bons quanto os anunciados em comunicados à imprensa, serei um dos primeiros a me candidatar a receber a vacina. 

Ao longo da sua vida, você chegou a ver algo parecido, com uma força-tarefa tão forte e incentivo governamental?
Eu tinha apenas quatro anos, mas o caso da vacina contra poliomielite causou a mesma comoção. Na época, uma organização privada de filantropia chamada March of Dimes pagou pelo teste e pela produção, assumindo todo o risco. Ou seja, há um paralelo aí. 

E quanto tempo levou para chegar ao resultado final?
Um ano. 

Ou seja, temos precedentes.
Exatamente. Estou ansioso para ver os dados em dezembro. 

Mas você não viu nada nesse sentido?
Só comunicados de imprensa, como você e todo mundo. 

E é normal que isso aconteça? Receber comunicados muito antes de ter acesso aos dados científicos?
Não é nada normal, mas eu entendo: é óbvio que isso aconteça, dado o cenário atual. Esse vírus nos deixou de joelhos, provocou uma pandemia mundial. A destruição econômica é terrível também. Acho que o que vivemos hoje só pode ser comparado com a gripe de 1918. Ou seja, faz mais de 100 anos que tivemos que lidar com algo assim. 

E ainda há quem duvide da letalidade e perigo do vírus.
Eu ainda me surpreendo com a capacidade das pessoas ignorarem tudo o que está ao seu redor. Quer dizer, realmente temos que convencê-las de que a SARS CoV-2 foi uma doença contagiosa, que causou um enorme sofrimento, hospitalizações e mortes? Nós realmente precisamos convencer as pessoas! E fico ainda constrangido com a disposição do nosso governo de negar a gravidade disso.

Por falar em governo, muitas pessoas estão descrentes quanto à atuação do FDA, justamente o órgão responsável pela regulamentação das vacinas.
É preciso lembrar o que fizemos com a hidroxicloroquina, que foi aprovada por autorização de uso de emergência, e com o plasma convalescente, que também foi aprovado por autorização de uso de emergência. Dois produtos que não funcionam e, um deles, a hidroxicloroquina, ainda representava um perigo. Com isso você pode ver como as pessoas não confiam no FDA, dizendo que a organização estava apenas cedendo ao capricho do governo e não estava fazendo seu trabalho, que é proteger o público americano de produtos inseguros ou ineficazes. Não é isso que está acontecendo com as vacinas. Com as vacinas, o FDA está sendo firme. Ele enfrentou a administração e pediu, por exemplo, dois meses de dados de segurança após a segunda dose, o que significa que as vacinas não poderiam ser aprovadas antes da eleição. Estamos resistindo à pressão do governo. Eu, como parte do painel consultivo, não vou aprovar uma vacina que não estaria disposto a aplicar em mim ou em minha família.

Acha que essa vacina contra o novo coronavírus tem que ser obrigatória?Não teremos doses suficientes para fazer com que seja mandatória. Então a questão do estoque é uma coisa, a outra é pensar em outras estratégias também. Queremos ter certeza de que as vacinas são seguras em milhões de pessoas antes de torná-la obrigatória. 

Estamos resistindo à pressão do governo. Eu, como parte do painel consultivo, não vou aprovar uma vacina que não estaria disposto a aplicar em mim ou em minha família

Qual sua maior preocupação em relação às vacinas que temos acompanhado?
Bem, você quer ter certeza de que os estudos da forma como foram feitos representam toda a população. As minorias raciais e étnicas estão representadas? As pessoas com mais de 65 anos estão representadas? E as pessoas que têm várias condições médicas, como diabetes ou obesidade, estão representadas? E também, a incidência de infecção nos estudos representa a incidência de infecção no seu país? Precisamos responder a uma série de perguntas para ter certeza de que a solução englobe, de forma segura, a todos e não apenas uma parcela da população.

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