“No Brasil, você levanta dinheiro quando dá, não quando quer”, diz Eduardo Mufarej

Em entrevista ao NeoFeed, o fundador da GK Ventures e do Renova BR fala dos desafios de amadurecimento do venture capital no País e de uma revisão nesse mercado, que caminha para ser mais seletivo

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Um passo pra lá, dois pra cá. Eduardo Mufarej não consegue caminhar muito longe sem ser puxado pelo braço, em uma dança de camaradagem, política e networking.

O investidor, que entrevistou Kevin Efrusy, partner da Accel, no Brazil at Silicon Valley, evento realizado na semana passada em Mountain View, Califórnia, passou para o outro lado do balcão a pedido do NeoFeed, e respondeu algumas questões sobre o atual momento do País.

Fundador da Good Karma Ventures – ou simplesmente GK Ventures, como é conhecido o fundo de impacto que captou R$ 400 milhões, Mufarej é ex-sócio da Tarpon e ex-CEO da Somos Educação, grupo de educação básica vendido em 2018 para a Kroton (hoje Cogna), por R$ 4,6 bilhões.

Além de investir em negócios que atacam problemas nas áreas de clima, educação e saúde, o empresário dedica seu tempo e energia ao Renova BR, uma espécie de “curso preparatório” para a formação de lideranças políticas.

Na conversa, ele explica como essas atividades se conectam e fala como o Brasil pode ser impactado pelo ano eleitoral. Confira:

Há quem diga que estamos vivendo um momento de encolhimento, de redução das avaliações de startups. Outros dizem que é um movimento de “right-sizing”, de correção. Qual a sua percepção em relação ao reajuste dos cheques?
Eu acho que a gente viveu um momento de abundância de liquidez: regime de taxa de juros global negativa, um apetite a risco enorme… Mas aí, tivemos um primeiro soluço pós-pandemia, que foi quando, para a surpresa de todos, os mercados andaram muito, sobretudo por conta dos programas de estímulo. O que acabou acontecendo é que, essa realidade inflacionária obrigou o Banco Central a mexer na taxa de juros, e essa mexida mudou o fluxo de capital. Isso desengatilhou dois movimentos – um que fez com que o capital que estava em growth fosse para empresas mais tradicionais. E outro que levou o capital que estava em bolsa para ativos de renda fixa. Agora, em alguns casos, a renda fixa remunera o investidor dentro de uma equação de risco que passa a fazer mais sentido. É uma movimentação de fluxo importante.

Como isso afeta o financiamento de venture capital no Brasil?
O Brasil é um lugar onde os preços, normalmente, são ancorados com o preço de empresas públicas. À medida em que as empresas públicas caíram na velocidade que a gente viu, e foram quedas muito retumbantes, desde big techs até as empresas médias de tech, cedendo 70, 60, 50% no ano, é muito forte. E, conforme esses valuations se reajustam, é natural que, no mercado privado, eles se ajustem também. Se você olhar os preços pagos no mercado privado em relação aos valuations dos mercados públicos, normalmente você tem um componente de desconto. Você tem as empresas públicas que negociam prêmios, porque têm liquidez, você consegue entrar e sair. Conforme as empresas públicas caem, é natural que ajuste tudo. Acho que vai ter um ajuste, sem dúvida, de alguns parâmetros de preço. O regime de abundância vai passar por uma revisão e acho que o mercado vai ficar mais seletivo.

Mas não é o fim…
Não é, com certeza. O problema é que fica nessa polaridade, nessa pendularidade, mas acho que ela é efêmera. Ela dura pouco tempo. Acho que daqui 3, 6, 9 meses a gente vai começar a achar mais normalidade, porque as transações vão voltar a acontecer. Até operações de fusões e operações dentro das empresas que têm dificuldade de funding. Vai ser um outro mercado, não tão agressivo de IPO. Vai ser mais um mercado de consolidação. Consolidadores com posição de caixa forte vão entrar numa posição de muita força em relação aos outros. Vai ser interessante observar esse movimento.

“Acho que vai ter um ajuste, sem dúvida, de alguns parâmetros de preço. O regime de abundância vai passar por uma revisão e acho que o mercado vai ficar mais seletivo”

Algumas empresas de impacto social não têm, necessariamente, compromisso com o lucro a qualquer custo. Acha que elas podem ser mais prejudicadas por essa nova lógica?
Acho que não. O desenho da indústria ainda é muito norte e sul, sabe? A gente diz “essa empresa é a tal do Brasil”, “essa empresa é a tal do México”. “O iFood é o DoorDash do Brasil”, né? É mais fácil. Eu acho assim: uma empresa que está resolvendo um problema grande – e o Brasil tem problemas estruturais enormes – que tem um mercado endereçável importante e consegue entregar uma proposta de valor, vai ter funding. Agora, o oitavo “neobanco”, esses vão ter mais dificuldade. O funil ficou mais estreito. Toda empresa que está se colocando em um lugar de resolver um problema que nasce a partir de uma dor, tem um olhar social. Ela pode nascer da dor do consumidor, da indústria, de determinado segmento. Essas empresas vão sobreviver. Uma empresa que não resolve nada para ninguém, acho que vai ter mais dificuldade.

O Brasil está vivendo um ano eleitoral. É mais conturbado, porque as pessoas ficam mais reticentes?
Acho que sim. Menos do lado operacional. O Brasil é um país onde o dinheiro sempre foi muito caro. Nunca teve capital disponível para o empreendedor no Brasil. Essa é a primeira geração que passa a ter capital disponível para poder empreender e poder montar planos de negócios. O capital para empresas de early stage (pre-seed, seed e série A) está disponível no Brasil e eu vejo que os players vão continuar investindo dentro de uma nova ótica. Talvez pedindo mais referência de unit economics, mais clareza sobre qual o caminho de lucratividade. Dito isso, acho que o momento de eleição pode criar uma maior aversão a risco, fazendo com que menos companhias passem por esse momento de financiamento. Por último, um ponto adicional que é relevante, é que o funil no Brasil é muito ineficiente. O funil no Brasil hoje viabiliza companhias de estágio inicial, mas as companhias em estágios mais avançados, que estão numa série B e C, aí você tem poucos players. Temos muito capital para séries iniciais e pouco pra growth. Essencialmente, o dinheiro para growth vem de fundo estrangeiro.

O capital de fundos estrangeiros vai sair do Brasil?
Acho que não, tem um contexto geopolítico que nos favorece. Os Estados Unidos estão olhando mais para o Sul e menos para o Leste, pela questão do que a gente está acompanhando com a China. Isso pode ser um fator importante do fluxo de capital, sobretudo em algumas indústrias. Então acho que é um assunto para acompanhar, mas, certamente, é um pouco mais próximo do que foi o mercado de 2016, 2017 do que foi o de 2021.

Você diria que o Brasil amadureceu no tempo certo?
O investidor no Brasil não tem paciência e para construir um negócio que resolve problemas, leva tempo. O que acontece é o seguinte: um país com taxa de juros de dois dígitos, 10, 12, 13%… Isso vai consumindo. O investidor está pensando: eu coloco dinheiro aqui ou coloco no CDI? Ele sai 13% pra trás desde o primeiro ano. É preciso ter muita resiliência, muita capacidade de respirar fundo e falar “agora nós vamos construir a partir de uma nova realidade” e entender que isso leva tempo.

Mas investimentos, quase sempre, demandam tempo. O Brasil é diferente?
O tempo no Brasil é muito mais curto. Em mercados emergentes, como o Brasil, o que materializa retorno dentro do contexto de venture capital é um evento liquidez – seja uma saída de mercado ou uma saída para um investidor estratégico. Qual o problema? O Brasil é um país onde as janelas de liquidez são muito curtas. o Brasil é um país onde você levanta dinheiro quando dá, não quando quer. Isso é um aprendizado importante. Quando é a próxima janela de liquidez de capital market brasileiro? Acho que vai demorar um pouco. Com o juros mais alto fica mais difícil, porque o investidor de varejo, o investidor institucional vai ter menos apetite para esse tipo de investimento no médio prazo. Por isso, taxa de juros no Brasil é essencial. A taxa de juros tem que cair, se não as empresas quebram, o país quebra e aí a gente vai ter um problema.

“Eu vejo que os players vão continuar investindo dentro de uma nova ótica. Talvez pedindo mais referência de unit economics, de mais clareza sobre qual o caminho de lucratividade”

Você é bastante ativo no desenvolvimento de liderança políticas. Como essas áreas conversam?
Durante cinco anos, eu fui CEO da Somos Educação, que era o maior grupo de educação básica no Brasil. Uma das atividades mais importantes do grupo era um cursinho, um curso preparatório para entrar na faculdade. Meu próximo passo, depois de sair da Somos Educação, foi criar um curso preparatório para as pessoas poderem ingressar no mundo político, que é a mesma lógica. Muita gente tem vontade, tem predisposição, mas não sabe como fazer. O Renova existe com essa intenção: ajudar a formar lideranças para poderem ingressar no mundo político. Fortalecimento de liderança no nosso País é essencial. Melhores lideranças públicas, melhores lideranças empresariais são o que vai ajudar a gente no final do dia a construir uma classe pública e empresarial mais ética e transparente, com gente mais competente e preparada. Os princípios são muito parecidos. A gente entende que não existe um país desenvolvido no mundo com uma classe política despreparada.

Você pensa em se candidatar a algum cargo público, em algum momento?
Acho que eu ajudo muito mais da forma como tenho agido. Esse ano, o Renova chega à marca de 200 candidatos. Quando você vira candidato, você, inexoravelmente, vai servir a sua própria missão. Ao servir a você, você deixa de servir os outros. Eu acho que nossos problemas são de atacado, não de varejo.

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