Logo no início do ano, o colapso do sistema de saúde em Manaus e o aumento dos óbitos e infectados no País já mostraram que a batalha contra o novo coronavírus está longe de acabar. Não por acaso, a primeira vacina do País, aplicada em 17 de janeiro, foi celebrada como feriado nacional.

Menos de um mês depois, o plano de imunização em massa já esbarra em uma série de desafios operacionais envolvendo falta de planejamento, defasagem tecnológica, ruídos de comunicação e dificuldade na coleta e compartilhamento de informações.

Por enquanto, o rastreamento de vacinados e doses aplicadas vêm sendo registrado de forma manual e independente por Estados e Municípios. Na sequência, os dados são direcionados para um sistema informatizado desenvolvido pelo Governo Federal por meio do Ministério da Saúde, onde são agrupados e consolidados os números nacionais.

Quando compartilhadas de forma ágil e precisa, essas informações ajudam as autoridades públicas a definir prioridades, mapear zonas de imunização e avaliar o desempenho regional das campanhas de vacinação.

Porém, essa dinâmica jogou luz sobre a realidade analógica de um país com proporções continentais e que, infelizmente, ainda engatinha no universo digital: são 5.570 municípios — até então dependentes do Governo Federal — desenvolvendo às pressas sistemas eletrônicos para registrar os vacinados.

Tanto que, até o momento, só o Rio Grande do Norte desenvolveu uma plataforma de compartilhamento de dados totalmente integrada ao Governo Federal. Nesta equação, a ausência de uma coordenação nacional a partir do Programa Nacional de Imunizações (PNI) sobre grupos de prioridade e direcionamento das informações atualizadas, por exemplo, acaba prejudicando a integração dos dados e retardando o rastreamento dos vacinados.

É verdade que alguns municípios vêm conduzindo com louvor o plano de vacinação. Considerada a cidade mais inteligente e conectada do país em 2019, Campinas vem desenvolvendo, desde o ano passado, plataformas online que possibilitaram uma jornada digital assertiva junto ao público para agendamento da vacinação e armazenamento de dados. Com mais de 33 mil vacinados, Campinas é uma exceção no país.

Não obstante, ainda estamos no início de uma longa jornada e temos tempo de melhorar. Atualmente, contabilizamos mais de 3,5 milhões de vacinados nos 26 Estados e Distrito Federal — apenas 1,69% da população brasileira —, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa apurados junto às secretarias estaduais de saúde. O ritmo atual abrange cerca de 200 mil vacinações diárias.

Com novos lotes de vacinas chegando e a ampliação da produção, a campanha de vacinação tende a crescer bastante nos próximos meses, exigindo das autoridades públicas o uso inteligente de dados para receber, organizar e compartilhar as informações relativas às doses e número de vacinas aplicadas.

Além disso, a natureza da vacinação da Covid-19, com múltiplos fabricantes e datas distintas de produção e aplicação da segunda dose, cria um enorme desafio de organização e pode colocar em risco a imunização do país se não bem executado.

Embora tenha um grupo técnico muito bem preparado e já tenha disponibilizado as ferramentas técnicas, o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) ainda está no início da sua missão de integrar os sistemas de vacinação municiais e estaduais por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS).

Nesse sentido, para termos um acompanhamento efetivo da imunização no País, Estados e Municípios, bem como estabelecimentos de saúde, precisam aprimorar as suas plataformas online de captação de dados para que integre com segurança, agilidade e transparência os dados de rastreamento da União, Estados e Municípios.

Maurício De Lazzari Barbosa é fundador da Bionexo, healthtech líder em soluções digitais para gestão em saúde e proprietária de um marketplace que conecta mais de 2 mil hospitais a mais de 20 mil fornecedores no Brasil, Argentina, Colômbia e México.