Nos EUA, os mais ricos são donos de 89% do mercado de ações

Nem mesmo o crescimento de pessoas físicas que investem na bolsa americana impediu o crescimento da concentração, segundo dados do Federal Reserve. Há quase 20 anos, fatia era de 77%

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No segundo trimestre, o PIB dos Estados Unidos cresceu 1,6% e, finalmente, retomou o nível de atividade econômica que tinha antes da pandemia, impulsionada pelo avanço da vacinação e pelos estímulos criados pelo governo.

O mercado de ações, porém, vive outra realidade. Desde o tombo enfrentado em março do ano passado, quando a pandemia “estourou”, o S&P 500 já quase dobrou de tamanho e está 40% acima do nível de janeiro de 2020. Nesta terça-feira, dia 19 de outubro, fechou em alta de 0,74%, aos 4.519,63 pontos.

A disparidade entre os dois mundos levou a um novo recorde de concentração de investimentos nos EUA. Segundo dados do Federal Reserve, o banco central americano, os 10% mais ricos do país são donos de 89% do valor das ações e de cotas em fundos no segundo trimestre, o nível mais alto já registrado.

Há quase 20 anos, no terceiro trimestre de 2002, a fatia era de 77,4%. O crescimento, porém, não foi contínuo. A proporção saltou para 85% em 2007 e caiu para 82% no início de 2009, após a crise financeira de então. De lá para cá, avança com alguns solavancos e já quase bate em 90%.

No segundo trimestre deste ano, os outros 90% dos investidores ficaram com os 11% restantes do valor das ações e das cotas de fundos, contra 12% no início de 2020. Em cálculo que considera apenas o 1% mais rico, eles possuem 54% das ações e de cotas de fundos.

Não apenas os mais ricos dominam o mercado, como ganham mais. Ainda segundo o Fed, o 1% que está no topo da pirâmide social ganhou US$ 6,5 trilhões no mercado durante a pandemia do coronavírus, enquanto os 90% mais pobres levaram US$ 1,2 trilhão.

A disparidade ocorre mesmo após o boom de investidores pessoa física que entraram na Bolsa nos EUA, a exemplo do que também tem ocorrido no Brasil nos últimos três anos. A Robinhood, plataforma de investimentos que simboliza essa “democratização” entre os americanos, abriu 10 milhões de novas contas nos últimos dois anos.

“Muitos dos investidores mais jovens também compraram a preços mais altos, em comparação com investidores maiores que estão no mercado há anos e veem ganhos maiores”, disse Steven Rosenthal, pesquisador do centro de estudos para políticas tributárias Urban-Brookings, à CNBC.

No Brasil, não há um levantamento que mostre exatamente qual é a concentração de renda no mundo dos investimentos, como indicam os dados do Fed nos EUA. Mas é possível, a partir de números da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), chegar a algumas conclusões.

Os clientes de bancos que formam o chamado private, aqueles de altíssima renda, contam com 29,4% das suas carteiras aplicados em ações, de acordo com dados de dezembro de 2020. No varejo de alta renda, uma categoria abaixo, a proporção cai para 14,1%. Entre os investidores do varejo tradicional, aqueles de classe baixa e média, a fatia é ainda menor, de apenas 2,6%.

Assim como nos EUA, o mercado brasileiro também tem experimentado uma explosão de novos investidores. De 2018 até 2021, o número de CPFs com contas abertas em corretoras para investir na B3 saltou de 800 mil para 3,8 milhões.

A diferença é que o Ibovespa não se descolou tanto da economia real quanto o S&P 500 nos EUA. Por aqui, o principal índice da B3 opera em torno de 110 mil pontos, abaixo dos 118 mil pontos atingidos em janeiro do ano passado, enquanto o PIB brasileiro voltou ao nível pré-pandemia no segundo trimestre, após expansão de 1,2%.

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