O câmbio tem um problema. E não é a eleição

A instabilidade recente do dólar tem mais a ver com falta de compromisso fiscal do País do que com o cenário internacional e a com a eleição presidencial, avaliam Alfredo Menezes, da gestora Armor, e Alexandre Chaia, professor do Insper

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No câmbio, há um ponto em que o mercado e academia se encontram. E não é a eleição. Em entrevista ao NeoFeed, Alfredo Menezes, sócio e CEO da Armor Capital, e Alexandre Chaia, professor do Insper, afirmam que o cenário externo interfere na cotação da moeda. Localmente, porém, o que pesa mesmo é a falta de compromisso fiscal.

Em meio à confirmação, nesta quarta-feira, 6 de julho, pela ata do Federal Reserve (Fed), o BC dos EUA, de que mais um aumento de 0,50 ponto ou 0,75 ponto na taxa básica é adequada na próxima reunião de política monetária, a turbulência no câmbio internacional colaborou para puxar o dólar até R$ 5,46 – nível mais elevado desde janeiro. O fechamento foi em torno de R$ 5,42.

O câmbio está pesado aqui e lá fora. Chaia, do Insper, avalia que o aumento do juro nos EUA já está levando investidores do mundo inteiro para ativos em dólar. Com outros bancos centrais de grandes economias também aumentando os juros, diz o professor, “o cenário caminha para um equilíbrio, mas não está claro quando isso vai acontecer”.

Chaia lembra que, no Brasil, o juro também fez diferença na trajetória do dólar. Ele diz que o BC errou a mão quando baixou o juro a 2%. A baixa atratividade do juro e o baixo compromisso com reformas impulsionou a moeda.

“O processo inflacionário levou o BC a corrigir a Selic que vem subindo, mas o BC acabou numa armadilha porque agora não conseguirá baixar tão cedo a taxa, uma vez que o Fed deve elevar o juro a mais de 3,5%, nível considerado neutro.” No último aumento, o Fed aumentou a taxa básica ao intervalo de 1,50% a 1,75%.

O professor reconhece que as eleições de outubro vão trazer incertezas até o final do 1º turno. “Mas não espero dólar acima de R$ 5,50 e considero que a situação melhora em 2023 porque, seja quem for o presidente eleito, Bolsonaro ou Lula, ele terá que tomar medidas de ordem fiscal. Também por isso não vejo o câmbio muito acima de R$ 5,50 no ano que vem”, diz Chaia.

Ele afirma que o dólar está instável no Brasil há dois anos e isso tem a ver com a falta de compromisso fiscal do governo Bolsonaro. “Nas últimas duas décadas, tivemos compromisso fiscal no início do governo Lula e no governo Temer, que tinha Henrique Meirelles como ministro da Fazenda. Do atual governo temos a PEC Kamikaze ou das Bondades, o calote dos precatórios e uma falta de ordenamento fiscal”, afirma.

Alfredo Menezes, Armor Capital, um dos maiores especialista do país em operações monetárias e cambiais e ex-chefe de Tesouraria do Bradesco, vai na mesma linha e pondera que o governo abre brechas para gastar além do teto de gastos, o Congresso segue a mesma toada e os dois principais pré-candidatos à presidência da República – o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – já se manifestam contra o teto de gastos.

“O Brasil não tem folga fiscal como no passado e as bondades do pacote em aprovação vieram para ficar. Não vejo Bolsonaro ou Lula tirando os benefícios concedidos e voltaremos ao dilema: o PIB potencial do Brasil menor, o setor privado fica sufocado e ainda podem surgir questionamentos sobre nossa solvência fiscal, ainda mais com os dois pré-candidatos vindo com discursos populistas”, afirma o CEO da Armor, para quem essas condições locais podem carregar o dólar a R$ 5,60/R$ 5,80 no fim deste ano.

Menezes lembra que o Brasil teve grande melhora nos termos de troca [de mercadorias na balança comercial] que ajudou a apreciação forte do real, além de obter um fluxo importante de recursos externos para investimentos em ações de empresas ligadas a commodities, como Vale, CSN, Usiminas e Petrobras.

“Há três meses, o dólar chegou a R$ 4,60 e alguns analistas esperavam queda a R$ 4. E o mercado errou. O cenário mudou. O ‘high’ das commodities passou; o risco de recessão nos EUA, embora mais baixo do que na Europa, afetará negativamente os preços de troca do Brasil; e o fluxo de dinheiro para a bolsa deve inverter.”

Menezes diz que não há dados do BC disponíveis sobre as operações cambiais em função da greve dos servidores da instituição, mas afirma que o movimento dos participantes do mercado indica que já tem dólar saindo do Brasil.

“Para o segundo semestre, as perspectivas não são as melhores. As remessas de juros, lucros e dividendos devem crescer devido ao cenário de mais inflação, atividade melhor que o esperado no início do ano e uma explosão das taxas ‘high yield’ [maior risco] no mercado internacional”, afirma Menezes.

De acordo com ele, as matrizes vão pedir que as subsidiárias remetam o máximo de recursos. Adicionalmente, a conta turismo – gastos de brasileiros no exterior – deve registrar aumento. Tornando-se mais deficitária.

Menezes lembra ainda que a conta turismo vem apresentando déficit de US$ 2 bilhões nos últimos três anos em função da pandemia que afetou as viagens. “Mas nosso déficit real é de US$ 12 bilhões a US$ 13 bilhões e deve retornar a esse nível”, avalia.

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