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O cerco das redes sociais às fake news (e a ameaça de Donald Trump)

Facebook, Twitter, YouTube e WhatsApp têm mecanismos para tentar limitar o alcance das informações falsas, mas, ao colocá-los em prática, desagradam muita gente. O presidente Donald Trump, que teve um post seu marcado como duvidoso no Twitter, ameaçou fechar as redes sociais

 

Ápice de buscas por “fake news” no Google foi em janeiro de 2017

O presidente dos EUA Donald Trump e o Twitter viveram até aqui o que pode ser chamado de uma relação harmoniosa.

A rede social de 280 caracteres é a preferida de Trump para fazer seus anúncios e comprar briga com seus adversários. E, por outro lado, essa ênfase do presidente americano em usar o microblog serve como uma vitrine para atrair novos usuários ao Twitter.

Mas na terça-feira, 25 de maio, essa relação sofreu um abalo. Tudo porque Trump teve dois tuítes sinalizados pela imprecisão de seu conteúdo.

A mensagem escrita e compartilhada pelo presidente americano insinuava que os votos por correio não seriam seguros. “As caixas de correio serão roubadas, as cédulas serão falsificadas e até impressas ilegalmente e assinadas de forma fraudulenta”, publicou Trump.

Depois, o republicano atacou o governador da Califórnia. “O governador da Califórnia (Gavin Newsom) está enviando cédulas para milhões de pessoas, qualquer pessoa”, completou.

O Twitter classificou as postagens como “duvidosas” e, pela primeira vez, aplicou um selo de alerta a uma postagem do presidente, uma política usada pela rede social para avisar os usuários de que o conteúdo daquele post não está correto.

O presidente americano reagiu na mesma proporção. Trump voltou ao Twitter para atacar… o Twitter. “Essa rede está mudando completamente o conceito de liberdade de expressão e eu, como presidente, não vou permitir que isso aconteça”, escreveu o republicano em 26 de maio.

Para além da rede social, Trump ameaçou regulamentar ou fechar por completo essas plataformas, acusando-as de agir segundo suas ideologias políticas.

“Os republicanos sentem que as plataformas de redes sociais silenciam totalmente as vozes conservadoras. Nós as regulamentaremos fortemente, ou as fecharemos, antes de permitirmos que isto sequer possa acontecer”, escreveu o presidente americano.

Trump não foi o primeiro e nem será último político a ser contestado pelo conteúdo publicado em redes sociais. O presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, já teve um tuíte seu retirado do ar, em março deste ano.

Na ocasião, ele usou a rede de microblogs para compartilhar um vídeo em que aparecia sem máscara, descumprindo medidas de distanciamento social e outras recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Dado o momento sensível do País e do mundo no combate ao novo coronavírus, o Twitter julgou que o conteúdo violava as regras da comunidade.

O fato é que combater as fakes news não se trata de uma missão fácil. E as redes sociais só mais recentemente começaram a anunciar ferramentas de segurança para tentar evitar a disseminação de conteúdos falsos em seus ambientes virtuais.

“As redes sociais não nasceram para ser plataforma de notícia”, diz Eric Bucy, professor de comunicação estratégica da Universidade do Texas, Eric Bucy, ao NeoFeed.

Boa parte dos esforços começaram a partir de 2017, poucos meses após as eleições americanas que elegeram Donald Trump e do polêmico referendo do Brexit, sobre a saída da Inglaterra da União Europeia.

Diversas organizações ligaram a exploração indevida das redes sociais para o impulsionamento de notícias inverídicas capazes de mudar o rumo eleitoral. Não por acaso, o pico da busca por “fake news”, no Google, foi registrado justamente em janeiro de 2017.

Uma das primeiras a responder foi o YouTube, que, em 2018, investiu US$ 25 milhões em uma iniciativa do Google News. A área ligada à procura de conteúdo jornalístico da gigante reuniu veículos de comunicação de diversos países em uma espécie de comitê. O objetivo era estimular a criação e disseminação de vídeos com informações verificadas.

Na esteira dessas mudanças, o fundador do Facebook Mark Zuckerberg anunciou os seus planos. No WhatsApp, por exemplo, passou a ser limitado o número de vezes que uma mensagem poderia ser compartilhada. Já o Facebook, em setembro do ano passado, reavaliou seus algoritmos para tentar reduzir o alcance de informações duvidosas.

Uma das artimanhas era identificar mensagens que linkavam o usuário a um determinado site, sem que esse site estivesse de alguma forma ligado a outros portais relevantes. Isso, segundo a lógica do Facebook, indicaria uma potencial fake news.

O Twitter foi o último a adotar medidas mais incisivas. Neste ano, a rede social começou a testar um modelo de vigilância visual. Os tuítes com conteúdo duvidosos são sinalizados com um pequeno selo com um ponto de exclamação. Foi exatamente esse selo que levantou a ira de Trump.

Mas, vale lembrar, porém, que na fase de teste da ferramenta de segurança, o Twitter notificou usuários de todos os espectros políticos. Bernie Sanders, que concorria à indicação democrata à presidência americana, foi um dos que tiveram mensagens sinalizadas, por exemplo.

Embora tenha criticado o desenrolar da “crise” entre Trump e o Twitter, dizendo que as redes sociais não podem ser donas da verdade, Zuckerberg também utiliza recursos semelhantes no seu Facebook.

No começo da pandemia do novo coronavírus, a maior rede social disse que usaria o mesmo artifício para combater a desinformação. A ideia era que, quando um usuário reagisse a um post suspeito sobre a Covid-19, uma janela pop-up apareceria para lhe direcionar para informações verídicas. O NeoFeed fez o teste em diferentes semanas, mas não encontrou esse recurso.

Quem também se envolveu em polêmicas foi o YouTube, que voltou às manchetes por assuntos relacionados a sua conduta. De acordo com uma reportagem publicada pelo site The Verge, a empresa do Google tem deletado comentários que contenham duas frases críticas ao governo chinês.

A “falha” foi confirmada por um porta-voz da companhia, que disse ainda que esse problema tem se estendido pelos últimos seis meses, mas que a equipe está empenhada em solucionar. As frases censuradas eram algo como “governo quadrilha” e “festa dos 50 centavos”, uma referência aos usuários (e os valores) que são pagos para abafar as críticas ao Partido Comunista Chinês.

Na última quarta-feira, 26 de maio, a plataforma de vídeo virou notícias por retirar do ar o último trabalho do documentarista americano Michael Moore. O filme “Planet of the Humans” era uma crítica à indústria de energia renováveis mas, apesar do conteúdo controverso, foi derrubado do YouTube por questões de direitos autorais. Algumas imagens do fotógrafo Toby Smith foram usadas no documentário, sem o consentimento do profissional, que se opõe à narrativa.

Todos os ataques às redes sociais e suas reações na mesma proporção fazem sentido para o professor Eric Bucy, da Universidade do Texas. “Essas plataformas nasceram para ser uma ferramenta de conexão entre pessoas, não um portal de notícias. Quando as coisas mudaram, a falta de revisão editorial e verificação de fatos políticos em sites de mídia social levou a um forte aumento na disseminação da desinformação digital, especialmente durante as eleições presidenciais”, disse Bucy ao NeoFeed,

Segundo o professor, é difícil, até para pessoas educadas, discernir o falso do verdadeiro e, principalmente, o que é notícia do que é opinião. Quanto à essa força-tarefa das redes sociais para combater as fake news, Bucy diz que todos os trabalhos são válidos, mas que eles têm uma abordagem fragmentada. “Não vejo uma estratégia nacional para responder a esse problema, e a desinformação é um problema bastante sério”, afirma Bucy.

Paralelo ao trabalho das próprias empresas, o professor acredita que seja importante também uma mudança educacional. “Hoje não temos o tempo, a energia e o interesse de validar todas as informações que correm em nosso feed. E a psicologia deixa claro que, na primeira vez que somos confrontados com uma notícia, tendemos a aceitá-la como realidade. Só depois, se tivermos alguma dúvida, podemos retomar ao tema e descartá-lo”, conclui Bucy.

Ainda que esse pareça um problema digno de nossa era digital, o termo fake news nasceu, de acordo com o site CS Monitor, no final do século 19. Jornais usavam essa expressão para minar o concorrente e, simultaneamente, inspirar mais credibilidade para seu veículo de comunicação.

Apesar das evidências históricas que sustentem essa origem do termo, Donald Trump insiste dizer que foi ele quem, em 2017, o primeiro a usar o “fake news” da forma como o conhecemos.

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