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O criador do WhatsApp contra a sua própria cria

Depois de deixar o aplicativo que fundou há três anos, por discordar das políticas de privacidade do Facebook, Brian Acton vê seu projeto, o Signal, que tem como mantra não coletar informações pessoais, ganhar milhões de usuários justamente na brecha de novas alterações no compartilhamento de dados do WhatsApp

 

Brian Acton, cofundador do WhatsApp e hoje à frente do rival Signal

Em setembro de 2017, Brian Acton, deixou o WhatsApp, empresa que ele fundou com Jan Koum, oito anos antes, e que havia sido comprada pelo Facebook, em 2014, pela bagatela de US$ 22 bilhões. O motivo para abandonar o negócio que havia criado? Os rumos que a rede social de Mark Zuckerberg traçava, na época, para o aplicativo.

O empreendedor discordava das mensagens enviadas pelo Facebook, que planejava veicular anúncios publicitários no app e, com essa estratégia, mudar a política de privacidade, com a captura de informações dos usuários. Pouco tempo depois, em abril de 2018, esse plano do Facebook fez com que Koum seguisse o mesmo caminho.

Agora, passados pouco mais de três anos, um roteiro escrito a partir de argumentos similares está colocando, mais uma vez, Acton e o Facebook em lados opostos. E, por consequência, o empreendedor contra a sua criação. Agora, porém, com um novo ator nesse processo.

Em 2018, Acton desembolsou US$ 50 milhões para lançar a Signal Technology Foundation, com o pesquisador Moxie Marlinspike. Sem fins lucrativos, a organização tem como maior projeto o Signal, app de mensagens cujo mantra é priorizar a privacidade e não coletar os dados dos usuários.

Acton diz que o serviço vem registrando um crescimento expressivo nas últimas semanas. E a razão desse salto é justamente o WhatsApp. Ou melhor, uma nova mudança nas políticas de privacidade do aplicativo, implantada por Zuckerberg e companhia.

Até 8 de fevereiro, os usuários do WhatsApp terão que concordar com o compartilhamento de seus dados com o Facebook, Instagram e o Messenger caso queiram continuar com acesso ao aplicativo. “O menor dos eventos ajudou a desencadear o maior dos resultados”, disse Acton, em entrevista ao portal americano TechCrunch.

Ele destacou a brecha para crescer a base de usuários. “É uma grande oportunidade para a Signal brilhar e dar às pessoas uma alternativa”, disse. “Tivemos um crescimento lento por três anos e, então, uma grande explosão. Agora, o foguete está decolando.”

Acton também comemorou o fato de a questão ter jogado luz sobre o tema da privacidade e a busca por respostas e explicações, por parte dos usuários e da mídia, quanto às alterações propostas pelo Facebook. Ele afirmou que a nova política é “complicada” e que “todo mundo está confuso”.

Embora não tenha revelado quantos usuários o Signal ganhou nas últimas semanas, ele disse que o aplicativo está no topo da App Store, em 40 países, e na Google Play, em 18 mercados.

O app não é o único a colher bons frutos dessa situação. Na última terça-feira, o russo Telegram informou que adicionou mais de 25 milhões de usuários em sua plataforma nas 72 horas anteriores.

Segundo a App Annie, empresa que compila dados do mercado móvel, a Signal tinha cerca de 20 milhões de usuários ativos no fim de dezembro. Já a Sensor Tower informa que o aplicativo foi baixado mais de 7,5 milhões de vezes entre 6 e 10 de janeiro.

A expansão traz um alento para a Signal, que também depende de doações para tocar sua operação, hoje composta por um time de 50 profissionais. E Acton quer aproveitar esse momento para dar fôlego a esse financiamento.

“Se o Signal chegar a um bilhão de usuários são um bilhão de doadores”, disse. “A única maneira de ganhar essa doação é construindo um produto inovador e encantador”, que cutucou o WhatsApp e o Facebook, ao classificar essa relação como mais saudável.

Na corrida para atrair mais pessoas ao aplicativo, Acton e o Signal ganharam reforços de peso nas últimas semanas. Primeiro, Elon Musk, o bilionário da Tesla, que já teceu críticas às políticas do Facebook, fez uma postagem no Twitter dizendo apenas: “Usem o Signal”. Posteriormente, a mensagem foi replicada por Jack Dorsey, o fundador do Twitter, que também publicou uma postagem com uma captura de tela do Signal.

Mesmo com esse apoio, Acton não recomendou que os usuários deixem o WhatsApp. Ao contrário. Ele ressaltou que enxerga as pessoas usando o Signal para conversas com a família e amigos próximos, e o aplicativo do Facebook para outros fins.

“Não tenho vontade de fazer todas as coisas que o WhatsApp faz. Meu desejo é dar às pessoas uma alternativa”, afirmou. “Caso contrário, você está preso em algo que não tem escolha. E esse não é um cenário onde o vencedor fica com tudo.”

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