Negócios

“O economista Paulo Guedes é muito melhor do que o ministro Paulo Guedes”, diz gestor da Verde Asset

Em entrevista ao NeoFeed, Luiz Parreiras, gestor de multimercado da Verde Asset, critica o trabalho do ministro da Economia, mostra preocupação com a questão fiscal e o alto endividamento do Brasil, fala sobre IPOs, ESG e conta a estratégia da Verde

 

Luiz Parreiras, gestor de estratégia multimercado e previdência da Verde Asset

O gestor de estratégia multimercado e previdência da Verde Asset, Luiz Parreiras, cresceu no mercado financeiro acompanhando de perto um dos mais respeitados gestores do Brasil: Luis Stuhlberger, fundador da Verde Asset Management, gestora com R$ 49 bilhões sob gestão.

Parreiras iniciou sua carreira na Hedging-Griffo, empresa criada por Stulberger e vendida ao Credit Suisse, e depois seguiu para a Verde. E lá se vão quase vinte anos atuando no mercado, acompanhando crises econômicas, trocas de governos e a volatilidade das bolsas.

Tal experiência garantiu uma visão crítica – e preocupada – sobre o atual momento da economia brasileira. Principalmente no que diz respeito à situação fiscal do País. “Quando você acha que você está comendo um almoço de graça, a conta vai vir. Você só está se enganando”, diz Parreiras ao NeoFeed.

O que está acontecendo nessas últimas semanas, com a bolsa em queda, o dólar em alta e mercado tenso, é que a conta dos bilhões de reais gastos na pandemia com o auxílio emergencial está começando a chegar e os políticos, diz ele, continuam achando que está tudo bem.

“Há uma certa percepção de vários atores de que aumentar o endividamento não tem problema nenhum porque todo mundo está fazendo o mesmo”, diz Parreiras. “Só que temos de lembrar que o Brasil não é os Estados Unidos. Uma coisa é você aumentar o endividamento em um país desenvolvido, outra coisa é aumentar o endividamento em um país emergente.”

O gestor, com muita franqueza, também avalia o trabalho do ministro da Economia, Paulo Guedes, algo que, até agora, poucos na Faria Lima, o centro do mercado financeiro do País, ousaram fazer abertamente. “Acho o ministro muito bom nos aspectos filosóficos, mas tem deixado a desejar muito na execução”, diz ele.

“Não adianta dar declarações maravilhosas se, na prática, você não consegue entregar essas medidas bem articuladas dentro do governo, levar para o Congresso, negociar com os players relevantes. Entre a promessa e a realidade tem um fosso brutal no caso do ministério”, afirma Parreiras.

Na entrevista que segue, ele também fala sobre empresários e banqueiros de investimentos que só querem buscar valuations altos nas aberturas de capital – o que ele acredita ser errado. “Aqui no Brasil, 80% das recentes operações de IPO estão abaixo do preço que foram listadas”, afirma.

“Gostaria que os empresários e banqueiros de investimentos vissem o mercado como um aliado. O mercado está aqui para prover capital, ajudar as empresas crescerem, mas precisa ser remunerado por isso”, diz ele.

Parreiras vai além. “Há uma visão oportunística, tratando o mercado acionário como se fosse um mercado de imóveis. ‘Nossa, tem alguém pagando um preço absurdo pela minha casa, deixa eu vender logo para esse otário e ir embora’”, diz ele. Acompanhe a entrevista:

Nesta semana, o Ibovespa desabou. Como você enxerga o cenário macroeconômico, a questão fiscal e as últimas notícias que vêm de Brasília?
O Brasil teve vários problemas, teve de lidar com a pandemia, e, de uma certa maneira, conseguimos ver uma trajetória de recuperação econômica acontecendo. Mas o gasto fiscal que foi colocado na mesa para se contrapor aos efeitos econômicos da pandemia deixa um legado, e é um legado de muito endividamento. Isso torna a discussão fiscal muito mais sensível porque o custo marginal de uma decisão errada aumenta, dado que subimos muito o nosso endividamento. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é a percepção que ficou para vários políticos de que o gasto fiscal não tem custo nenhum, que o mercado vai absorver e que endividamento adicional não tem problema. Ao longo de vários meses, a reação dos políticos foi de dizer que estão melhorando a vida do brasileiro, está dando popularidade e não tem custo nenhum.

Como se o Brasil tivesse uma fábrica de dinheiro…
Exatamente. E em economia não existe almoço de graça. É uma frase clássica e batida, mas a realidade é essa. Quando você acha que você está comendo um almoço de graça, a conta vai vir. Você só está se enganando. O que está acontecendo nessas últimas semanas é que a conta está começando a chegar. E a urgência de lidar com essa conta aumentou muito. É aí que o conflito político se estabelece.

De que forma?
Você tem uma visão política/populista de que o presidente conquistou muita popularidade com o auxílio emergencial – e, particularmente, conquistou popularidade num eleitorado que não era historicamente o dele, o eleitorado do Norte e Nordeste, das classes mais pobres, o legado do lulismo. De um lado, você tem os políticos dizendo que ‘não tem custo nenhum, construímos o caminho para a reeleição do presidente’. Do outro lado, você tem o mercado dizendo que não existe almoço de graça, que essa conta vai chegar e embutindo um prêmio maior ao longo do tempo. Então, esse conflito, na hora que ele se coloca, e dada a sensibilidade do tamanho do endividamento público, é onde as decisões como a comunicada na segunda-feira de manhã passam a ter uma relevância maior e causar efeitos muito maiores no mercado.

“Quando você acha que você está comendo um almoço de graça, a conta vai vir. Você só está se enganando”

Você diz sobre a decisão de mexer nos precatórios e em parte do Fundeb para bancar o programa Renda Cidadã?
Sim, o conflito fiscal já está colocado há vários meses. O governo por “ene” razões não quis tomar decisões duras. O próprio presidente tem falado que não vai mexer no seguro defesa, no abono, no reajuste das aposentadorias, no funcionalismo público, não vai mexer em nada. Então, o dinheiro tem que sair de algum lugar. Na segunda-feira, eles falam ‘então vou mexer no precatório e no Fundeb”. O mercado olha aquilo e pensa ‘o que você vai fazer é uma espécie de contabilidade criativa ou, como algumas pessoas colocaram, é a volta das pedaladas’.

O efeito é muito ruim…
Aí você tem esse choque nos preços dos ativos, a bolsa cai, o dólar sobe, as taxas de juros ao longo da curva embutem muito mais prêmio. Há uma certa percepção de vários atores de que aumentar o endividamento não tem problema nenhum porque todo mundo está fazendo o mesmo. Só que temos de lembrar que o Brasil não é os Estados Unidos. Uma coisa é você aumentar o endividamento em um país desenvolvido, outra coisa é aumentar o endividamento em um país emergente com todos os problemas que o Brasil tem. No fim do dia, esse é o resumo do debate. É o conflito sobre como vai ser a postura fiscal daqui para frente, dado o legado da pandemia.

O Luis Stuhlberger, fundador da Verde Asset, disse recentemente que está preocupado com a fragilidade da economia brasileira. Vocês trabalham com o risco de calote no Brasil?
Não. Primeiro que nenhum país deixa de pagar sua dívida interna. Ao mesmo tempo, o Brasil não tem uma dívida externa elevada como acontecia no passado. Só tem um caso na história de um país relevante que deixou de pagar sua dívida interna, que foi a Rússia. Mas, no fim do dia, o que acontece é que, se não tomarmos as decisões que tenham uma trajetória sustentável para resolver o endividamento público no Brasil, o mercado está falando, ao derrubar a bolsa, ao esticar a curva de juros e colocar o dólar para cima, que vai demandar mais prêmio. O mercado precifica hoje, na estrutura a termo de taxa de juros, que a Selic vai a 9% daqui a três anos, isso é um prêmio brutal, hoje estamos a 2%. O problema do Brasil não é calote e não vai ser calote.

“Temos de lembrar que o Brasil não é os Estados Unidos. Uma coisa é você aumentar o endividamento em um país desenvolvido, outra coisa é aumentar o endividamento em um país emergente”

Qual será o problema?
O problema do Brasil será o custo para financiar esse endividamento, se não tomarmos as decisões corretas. É muito mais complicado o país crescer e as empresas se desenvolverem se a taxa de juros é 10% em vez de 2%. Passamos os últimos quatro anos vendo a taxa de juros cair e construindo um monte de coisas em cima disso. O aprofundamento do mercado de capitais, a mudança de como o brasileiro investe, o surgimento de um monte de novas empresas, a possibilidade de financiar a infraestrutura… Todos esses benefícios serão perdidos se a taxa de juros voltar a 10% ou além. É isso que está em risco e talvez não seja tão óbvio para os políticos.

Qual é a sua avaliação sobre o trabalho do ministro da Economia Paulo Guedes?
O economista Paulo Guedes é muito melhor do que o ministro Paulo Guedes. Acho o ministro muito bom nos aspectos filosóficos, mas tem deixado muito a desejar muito na execução. No fim do dia, ser ministro tem aspectos de execução e de política que são extremamente relevantes. Não adianta dar declarações maravilhosas se, na prática, você não consegue entregar essas medidas bem articuladas dentro do governo, levar para o Congresso, negociar com os players relevantes. Entre a promessa e a realidade tem um fosso brutal no caso do ministério. Os aspectos de execução e comunicação deixam a desejar. Parte dos problemas que estamos vivendo agora tem a ver com esses aspectos de execução.

Quais?
Vamos lembrar que, em março, o ministro (Paulo Guedes) falava que com R$ 4 bilhões a mais a gente resolveria os problemas decorrentes da pandemia. Aí, quando começaram as negociações do auxílio emergencial, ele falava de dar R$ 200. Naquele momento, por falta de capacidade de execução, comunicação e negociação política do governo como um todo, quando a medida foi para o Congresso, os R$ 200 se tornaram R$ 400. Aí, a esquerda pediu R$ 500 e o presidente, para não perder uma bandeira política, falou R$ 600. O custo de má execução virou dezenas e dezenas de bilhões para o Brasil. Mas uma coisa tem de ser dita: a capacidade de negociação política desse governo melhorou muito nos últimos meses. Pessoas como Fábio Faria (ministro das Comunicações) e Ricardo Barros (líder do governo no Congresso) são profissionais da política, extremamente capacitados para conduzir essas negociações.

Estamos assistindo a fuga do capital estrangeiro. Você acha que isso deriva da falta de confiança no governo?
Acho que em partes. Há muitas razões pelas quais o capital vai para um país ou vai embora de um país. Quando alguém fala que só tem uma razão, tendo a ser um pouco cético. Tem as questões da confiança e da dúvida sobre a trajetória fiscal, mas tem outros aspectos. O Brasil vem desapontando em termos de crescimento há muitos anos, o nosso mercado de capitais é pequeno, o investidor estrangeiro pode comprar as empresas brasileiras na bolsa de Nova York ou na Nasdaq, o diferencial de taxa de juros no Brasil, que era muito alto e mantinha o capital aqui, hoje é muito menor e o estímulo para o estrangeiro ficar não é tão grande. É uma série de coisas. Agora, com certeza, não ter um bom regime fiscal e uma boa trajetória de endividamento é uma delas. O maior risco que a gente corre enquanto mercado é cair na irrelevância. Comparado com os nossos pares e outros países, estamos tomando decisões erradas, com riscos regulatórios, jurídicos, de volatilidade e macroeconômicos.

“O maior risco que a gente corre enquanto mercado é cair na irrelevância. Comparado com os nossos pares e outros países, estamos tomando decisões erradas”

A questão ambiental também está contando para essa fuga de capital?
É claro. Qual é a narrativa de um cara sentado em cima de um fundo soberano na Europa? Ele vê as notícias de que está pegando fogo no Pantanal ou na Amazônia e diz ‘não vou dar dinheiro para esses caras’. E o governo, até nisso, tem uma capacidade de execução muito ruim. A resposta do governo é falar mal do mensageiro, dizer que a mídia está comprada, é falar mal do passado, dizer que hoje tem menos queimada do que no governo Lula. Ao mesmo tempo, tem uma “bateção” de cabeça. O governo diz que vai tomar medidas e aparece o ministro (Ricardo Salles, do Meio-Ambiente) tirando a proteção dos manguezais. A capacidade de comunicação do governo nesse fator é muito ruim. Hoje, estão acontecendo os maiores incêndios na história da Califórnia. As pessoas estão deixando de comprar ações de empresas sediadas no Vale do Silício por conta dos incêndios lá? Não. O tema está presente na agenda, ele veio para ficar e não vai sair. É o mundo que a gente vive. Então, por que se colocar do lado errado?

Aliás, hoje se fala muito em ESG (Environmental, Social, and Corporate Governance). Vocês levam esses fatores em questão no momento de fazer os investimentos?
Esse é o tema da moda no mundo dos investimentos. Acho que tem que separar um pouco o que é marketing e o que é realidade. Quando olhamos no detalhe o que quer dizer o ESG nos aspectos ambientais, sociais e de governança, boa parte dos fatores que estão abarcados nessa sigla, a gente leva em conta. Mas, como tudo na vida, você pode analisar as questões com zero de profundidade ou com muita profundidade. Na Verde, olhamos com muita profundidade e, quando olhamos as discussões sobre ESG no mercado, elas estão sendo feitas no grau zero de profundidade.

Por exemplo?
No mercado, muitos dizem ‘você não pode investir em combustíveis fósseis, você só pode investir em empresas com discursos bonitinhos’. Quando você mergulha no tema, percebe que a realidade, como sempre, é muito mais complexa. Não existe o branco e o preto, existe um monte de tons de cinza e é muito mais complicado tomar boas decisões levando em conta todos os aspectos. E não existem, apesar de todas as propagandas, empresas que atendam todos os critérios ESG de maneira perfeita. Tem boas empresas que fazem bem as coisas do lado ambiental, mas não têm mulheres no conselho ou tenham aspectos de governanças muito ruins como um fundador com uma super ON. O ESG tem sido tratado de uma maneira muito simplista e marqueteira, o que acho ruim.

“Não existem, apesar de todas as propagandas, empresas que atendam todos os critérios ESG de maneira perfeita”

Mas essas discussões também têm um lado bom, não?
Sim. O caso da Magalu, da qual somos acionistas, é um exemplo. Ela tomou uma postura social extremamente meritória de falar, ‘se não mudarmos isso aqui, de trazermos mais funcionários negros, de ascenderem à liderança, não vamos mudar o País’. Tem muito valor esse tipo de decisão. Gostaríamos de ver mais coisas desse tipo e vamos tentar, nas nossas relações com as empresas das quais somos acionistas, endereçar esse tipo de ponto e trabalhar os pontos ambientais, sociais e, particularmente, de governança.

Por que, particularmente, a governança? Temos mais problemas neste ponto?
O Brasil é o país em que há muito mais ações PN do que ON, onde o acionista minoritário é muitas vezes prejudicado em transações de M&As. Esse conflito que está colocado na Linx com a Stone e a Totvs, tem um monte de questões que perpassam por isso. O mercado trazer essas questões à tona tem muito valor para as empresas melhorarem. Tem uma série de transações na história em que tivemos de ir à Justiça buscar os nossos direitos. A agenda ambiental veio para ficar, a agenda social veio para ficar e a agenda de governança veio para ficar, mas, às vezes, parece que ela ficou meio esquecida. O fato é que não existem soluções simplistas. Quem vendeu soluções simplistas está sendo marqueteiro.

Hoje, qual é o portfólio da Verde? Como os investimentos estão divididos?
Temos uma exposição moderada a bolsa no Brasil. Não temos uma posição maior por conta dos riscos fiscais e trajetória de longo prazo, mas não estamos excessivamente pessimistas porque achamos que há uma trajetória de recuperação econômica conforme vamos saindo da pandemia, especialmente quando tivermos a vacina.

Historicamente, o fundo Verde investe um terço em bolsa e dois terços em renda fixa. Como está hoje?
Hoje, olhando o fundo Verde, que é tocado pelo Luis (Stuhlberger), temos 25% em ações no Brasil, 15% em bolsa nos Estados Unidos e o restante em instrumentos de renda fixa sem grandes exposições a juros.

Quais são as ações que vocês têm posição?
Temos investimentos grandes em uma série de empresas. Magalu é uma delas. Nos tornamos acionista relevante e montamos uma posição grande entre março e abril. Era uma empresa que a gente admirava há muito tempo e, por uma questão de preço, não tínhamos investido antes. Outras empresas que temos posições relevantes é a Natura, a Equatorial, a B3, a Intermédica, a Hapvida. São negócios bem geridos, com oportunidades bem importantes seja do crescimento do mercado como de uma B3 ou de uma Magalu, seja por sinergias de aquisições no caso de uma Natura. A Equatorial pode expandir e colocar capital em saneamento, a Intermédica e a Hapvida, no setor de saúde, têm oportunidades de crescimento em um setor com uma trajetória estruturalmente positiva.

E no exterior?
Temos foco no mercado americano e somos acionistas de Facebook, Microsoft, Amazon, Lowes, Visa, Eli Lilly, Union Pacific, Charter Communications. Temos um portfólio diversificado, mas compramos bons negócios a bons preços.

Nos últimos dias, algumas empresas cancelaram os planos de abrir o capital aqui na B3. A janela se fechou? Havia uma euforia muito grande?
Se tem euforia ou não, o que eu vejo e que me incomoda um pouco, é uma visão que existe nos empresários e também nos banqueiros de investimentos que se relacionam com essas empresários, de querer listar a ação para vender a empresa num valuation muito caro. Acho essa visão muito errada.

Por quê?
O mercado aprendeu a duras penas que não adianta comprar uma empresa boa no preço errado. Gostaria que os empresários e banqueiros de investimentos vissem o mercado como um aliado. O mercado está aqui para prover capital, ajudar as empresas crescerem, mas precisa ser remunerado por isso. Não adianta dar capital para não ter retorno. Quando eu vejo as empresas dizerem que só querem esperar uma janela melhor, isso me diz o quê? ‘O cara quer vender a empresa dele num preço caro, pôr o dinheiro no bolso e se preocupar com o seu iate.

“A gente quer ser sócio das companhias para o longo prazo. Não queremos ser um bolso de mulher de malandro”

Qual deveria ser a postura?
Ele deveria falar ‘vou listar a minha empresa, trazer capital, esse capital vai ter um uso muito produtivo e rentável dentro da minha companhia e, ao gerar esse valor, o preço da minha ação vai subir e eu, como dono da empresa, ficarei feliz e o acionista ficará feliz’. Essa seria a postura correta, de ver o mercado de capitais como um aliado. A gente quer ser sócio das companhias para o longo prazo. Não queremos ser um bolso de mulher de malandro. Aquela coisa de ‘ah, fui malandro, listei minha empresa cara e depois não tenho nenhum compromisso com o preço da minha ação e com o que vai acontecer com as minhas relações com o mercado’. Em muitos casos, é o que eu vejo. O empresário deveria entender que o preço do IPO dele deveria ser o preço mais baixo da ação dele na história. Alguns caras acham que estão vendendo o ativo barato. Não! Eles estão colocando capital para dentro para ajudar as empresas a crescerem. Essa deveria ser a postura correta, que acontece no mercado americano.

Você tem um exemplo concreto do que está falando?
Pega o maior IPO desse ano no mercado americano, a empresa de tecnologia Snowflake. Foi listada a US$ 120 e, no primeiro dia, fechou US$ 253,93. Hoje, a ação está em US$ 251, a empresa mais que dobrou. Foram perguntar para o CEO e disseram que ele tinha deixado dinheiro na mesa. Ele respondeu que não era isso, que ele tinha conseguido atrair os acionistas que ele queria, o Warren Buffett, os melhores fundos de venture capital do mundo. O que aconteceu? Ele tem a base de acionistas que ele queria, conseguiu o capital que precisava para manter a trajetória de crescimento e todo mundo ficou feliz. Aqui no Brasil, 80% das recentes operações de IPO estão abaixo do preço que foram listadas.

“Aqui no Brasil, 80% das recentes operações de IPO estão abaixo do preço que foram listadas”

Você acha que existe um erro de precificação?
É isso o que eu acho. Não tem a ver com o mercado estar eufórico ou não. Há um erro sobre a visão que as pessoas estão tendo, essa visão oportunística, tratando o mercado acionário como se fosse um mercado de imóveis. ‘Nossa, tem alguém pagando um preço absurdo pela minha casa, deixa eu vender logo para esse otário e ir embora’.

Qual é a sua opinião sobre uma onda de empresas brasileiras buscando abrir capital no mercado americano?
Tem um lado bom e um ruim. O bom é que, para atrair acionistas de referência, de fato, listar lá traz um benefício. A Stone atraiu a Berkshire Hathaway na listagem, a XP também atraiu acionistas de referência. Isso eu vejo com bons olhos. O que eu acho ruim são aquelas empresas que dizem ‘vou pegar uma subsidiária minha aqui e vou listar lá fora, porque lá fora os caras pagam mais’. Isso é uma visão muito simplista das coisas.

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente

Leia também

UM CONTEÚDO:

NEOFEED REPORT

Baixe o relatório “O mapa de ataque das grandes empresas”

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO