O jogo sujo da British Airways com Richard Branson e sua Virgin Atlantic vai para as telas

Em pré-produção,“Hot Air” relembra a guerra que a Virgin Atlantic, do bilionário Richard Branson, travou com a British Airways, nos anos 90, quando a companhia aérea tradicional inglesa usou métodos antiéticos para impedir a ascensão da concorrente

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Como a Virgin contrastava com a rigidez da BA, um público passou a dar preferência à nova abordagem de voar

Um escândalo empresarial dos anos 90, aos moldes de uma batalha típica de Davi contra Golias, será revivido na minissérie “Hot Air”. O foco cairá nos bastidores da guerra travada entre a Virgin Atlantic, do bilionário Richard Branson, que crescia no mercado de aviação na Inglaterra na época, e a tradicional British Airways, com o reinado ameaçado diante proposta mais moderna e divertida da concorrente.

Atualmente em pré-produção e ainda sem previsão de estreia, o projeto da Universal International Studios é baseado no livro “Dirty Tricks: British Airways’ Secret War Against Virgin Atlantic”. Na tradução literal: “Truques Sujos: a Guerra Secreta da British Airways contra a Virgin Atlantic”.

Como o título já adianta, a obra escrita pelo jornalista investigativo Martyn Gregory, em 1996, mergulha nos bastidores desse duelo que incluiu táticas de marketing desleais, gerando o escândalo. Ao final da disputa, que foi parar nos tribunais ingleses, a BA foi obrigada a pagar indenização por sua “conduta lamentável”.

Andrew Garfield, de “O Espetacular Homem Aranha” (2012), foi o ator escolhido para interpretar Branson. Hoje com 72 anos, o britânico é um dos líderes no turismo espacial com a Virgin Galactic, outra das empresas do grupo Virgin. São dezenas de companhias, abrangendo diversas áreas da economia, como música, telecomunicações, alimentação, vestuário, transporte ferroviário e outras.

Com seis episódios, roteiro de Jon Croker (de “Paddington 2’’, de 2017) e direção de David Leitch (de “Deadpool 2”, de 2018), a minissérie vai se concentrar na vida de Branson na faixa dos 40 anos. Mais especificamente, no período de rivalidade entre a Virgin e a BA, algo que foi acentuado a partir de 1991, quando a Virgin começou a operar no aeroporto Heathrow de Londres, concorrendo diretamente com a BA. Até então, a BA monopolizava o mercado como a companhia aérea de bandeira do Reino Unido.

Branson entrou no ramo da aviação, em 1984, após ver uma brecha no setor em um momento de frustração. Ao ter um voo cancelado durante as suas férias, ele decidiu não ficar preso no aeroporto de Porto Rico e fretou um avião para o seu destino, nas Ilhas Virgens Britânicas, convidando os demais passageiros do seu voo anterior a dividirem o custo.

Daí nasceu a ideia de uma empresa aérea que não deixasse o cliente frustrado, “indo muito além”, o que Branson criou em parceria com Randolph Fields. E Branson ainda aproveitou para agregar um pouco da sua personalidade de rockstar no projeto, deixando a experiência de voar mais descolada e divertida.

Richard Branson, fundador do grupo Virgin

E a proposta funcionou, à medida que a Virgin apostava não só em deixar o cliente confortável como paparicá-lo, oferecendo massagistas e manicures a bordo, sorvete gratuito e outros mimos. Como a Virgin contrastava com a rigidez da BA, um público passou a dar preferência à nova abordagem de voar, formado principalmente por artistas, profissionais da mídia, músicos, publicitários, pequenos empresários e jovens no geral.

Foi esse sucesso que instigou a campanha antiética da BA nos bastidores, conforme Martyn Gregory descreve no livro que é a inspiração para a minissérie. “O que todos chamavam de truques sujos, a BA preferiu batizar de práticas comerciais de má reputação”, contou o escritor londrino, em trecho de “Dirty Tricks”.

Usando informações privilegiadas, ao hackear computadores da rival, a BA tentou roubar passageiros da Virgin de várias formas. Quando um voo da concorrente estava atrasado, profissionais da BA abordavam os passageiros da Virgin para convencê-los a mudar para a BA. Houve ainda telefonemas partindo de funcionários da BA que fingiam ser da Virgin. Assim, eles podiam mentir, dizendo que determinado voo estava cancelado, para que o cliente trocasse a passagem para a BA.

Quando um voo da concorrente estava atrasado, profissionais da BA abordavam os passageiros da Virgin para convencê-los a mudar para a BA

“A BA admitiu no Supremo Tribunal que os métodos incluíam a caça ilegal de passageiros, a destruição de documentos e o acesso digital a informações sobre a Virgin Atlantic. Além disso, a BA admitiu ter tentado plantar histórias hostis e desacreditáveis sobre Virgin e Richard Branson na imprensa”, escreveu Gregory no livro.

Ao final do processo judicial, a BA foi obrigada não só a divulgar um pedido de desculpas público pela campanha de “truques sujos”, mas também a pagar uma indenização. Foram 610 mil libras em danos causados à Virgin e a Branson, mais as despesas legais da Virgin, no valor de 4,5 milhões de libras.

Por determinação de Branson, a quantia foi dividida igualmente entre todos os funcionários da Virgin. A pedido dele, o valor foi identificado no holerite como “bônus de Natal da BA”, em uma espirituosa alfinetada em sua rival.

“‘Dirty Tricks’ é a história de como uma orgulhosa instituição estatal se tornou tão arrogante a ponto de pensar que poderia se safar de um assassinato corporativo e destruir a Virgin Atlantic”, escreveu Branson, no prefácio do livro, na edição lançada em 2000.

“Mais do que isso, é a história do que acontece quando as pessoas perdem o contato com a realidade. Essa combinação infestou toda a cultura da BA no início da década de 1990 e levou a muitas das atividades bizarras relatadas aqui”, completou Branson, com uma fortuna estimada pela “Forbes” em mais de US$ 4 bilhões.

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