O “Moneyball” brasileiro por trás da startup que permite apostar em tudo

Luis Usier trabalhou em uma empresa que dava consultoria estatística às contratações dos times de futebol da Europa. Hoje, é sócio da Kalshi, uma das startups de “apostas” mais promissoras dos EUA, que recebeu US$ 30 milhões de Charles Schwab, Henry Kravis e da Sequoia Capital

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Luis Usier: de estatístias para times de futebol europeus para as apostas online da Kalshi

Ele frequentou uma das maiores universidades americanas. Apaixonou-se por estatística. Entrou no bilionário mercado de apostas esportivas.

E, quando se deu conta, estava mergulhado em números e dados, em gráficos e tabelas de desempenho, transformando-os em base de cálculo para que clubes de futebol fizessem contratações de jogadores ou treinadores, sempre na melhor relação custo-benefício.

Soa familiar? Um roteiro parecido com o do filme “Moneyball”? É quase isso. Apenas troque o beisebol pelo futebol, Oakland por Londres, a Yale do personagem Peter Brand (interpretado por Jonah Hill) pela Harvard de Luis Usier (interpretado por ele mesmo) e teremos, então, a versão brasileira de ” o homem que mudou o jogo” (título em português do filme “Moneyball”).

Agora, Usier está na Kalshi, uma das startups de apostas mais promissoras dos Estados Unidos, que recebeu US$ 30 milhões dos bilionários Charles Schwab, fundador da corretora Charles Schwab, e Henry Kravis, um dos cofundadores do fundo de private equity KKR, e do fundo de venture capital Sequoia Capital. A incubadora Y Combinator já havia, com o perdão do trocadilho, apostado na empresa.

A Kalshi nasceu da ideia de Luana Lara e Tarek Mansour, formados pelo MIT e amigos de Usier, de criar uma empresa de apostas online “generalizadas” nos Estados Unidos, em que você poderia apostar em tudo.

Usier levantou sobrancelhas quando ouviu pela primeira vez as intenções da dupla. Até onde sabia, o mercado era bem restrito para esse tipo de atividade nos Estados Unidos.

“Muita gente vê Vegas e Atlantic City e acha que as apostas estão todas liberadas. Não é bem assim”, diz Usier ao NeoFeed. ”Em 2018, as apostas online começaram a ser flexibilizadas, mas de forma lenta, geralmente relacionadas aos esportes e em poucos estados.”

A Kalshi não mexeria com esportes, avisou Luana. O estatístico ficou ainda mais interessado na história. A proposta era convencer as autoridades de que seria possível levar a mesma lógica da bolsa de commodities de Chicago para o investimento em “eventos, tópicos, assuntos”.

“Apresentamos ao governo a tese de que somos uma opção binária de investimento, como um ativo financeiro qualquer, a ser regulado por entidades financeiras”, explicou Luana.

O lema da fundadora: deixem as pessoas negociarem o que elas quiserem, das previsões para taxa de juros no trimestre ao vencedor do Oscar de melhor ator. Usier adorou a ideia, saiu de campo na Inglaterra e embarcou na startup americana.

“Foram dois anos e meio de conversas em Washington e com a CFTC (órgão que regula a negociação de commodities) para viabilizar o mercado”, conta Usier. “Mandávamos versões beta do site e as autoridades diziam o que podia, o que não podia.”

Deu certo. Foi uma boa estratégia, diga-se. Precursoras da Kalshi que atuaram na surdina ou tentaram bater de frente com as autoridades acabaram tendo as portas (ou telas) fechadas.

Com a questão regulatória decidida, a empresa convidou o mundo a fazer suas apostas – ops, investimentos. É possível dar um lance para “sim” ou “não” (ou escolher opções binárias) em tópicos como haverá mais de 450 mil casos de Covid na última semana de fevereiro? O PIB vai subir acima de 5% em algum trimestre de 2022? Drake lançará um novo álbum?

Os contratos custam de 1 a 99 centavos de dólar. Aqueles com o maior número de aposta tem aumento no seu preço. O investidor recebe 1 dólar para cada contrato ganhador, após o resultado do evento. A Kalshi fica com um percentual sobre as transações.

Para que a estrutura funcionasse, a Kalshi Inc. criou a Kalshi Trading, que se encarrega de usar os recursos levantando no aporte para irrigar as negociações. Usier explica: “a trading faz esse mercado. A gente negocia ‘contra’ vários de nossos usuários para aumentar liquidez, o volume das apostas. Porque é muito difícil começar uma exchange do nada.”

Não é como uma bolsa já estabelecida, ele diz, em que não existe a possibilidade de alguém querer comprar uma ação e não ter ninguém para vender. Muitas vezes é preciso criar atratividade para alguns dos “eventos” ofertados na plataforma.

As estatísticas de Usier entram na hora de precificar os mercados da Kalshi. “Porque o jogo dos eventos muda muito rápido”, diz. De mudança de jogo, ele entende.

Antes da Kalshi

A fama do “moneyball” Luis Usier começou a ser forjada na empresa britânica 21firstclub, especializada em apostas de futebol e consultoria estatística para diversos clubes e ligas na Europa.

“Eu havia me formado em estatística em Harvard e sempre tive o sonho de morar em Londres. Consegui arrumar um emprego no governo inglês e logo depois já estava trabalhando com futebol”, conta Usier.

Manchester City, Milan, Roma, Liverpool, Bayern… ele vai enfileirando os times que, ao menos uma vez, já recorreram aos seus cálculos. Mas a clientela forte mesmo era o segundo escalão europeu, fora do “top ten” das ligas.

Pense em Tottenham, Everton, Ajax, times que têm dinheiro, mas, ao contrário da turma de cima, não possuem departamentos internos de estatística tão desenvolvidos. Era aí que entrava Usier, com seu “moneyball outsource”.

Não foram poucas as vezes em que ele deu o veredicto para contratação de um atleta ou treinador. Ou “precificou” um jogador cruzando estatísticas com atletas de características semelhantes.

Usier era também chamado para indicar bons nomes para uma posição específica. Muitas vezes os clubes sabiam da necessidade da troca, mas não tinham ninguém em mente. As estatísticas tratavam de preencher o elenco.

“Ocorria até mesmo de um dirigente querer aproveitar as janelas de contratação, mas não saber, de fato, do que o seu time precisava”, diverte-se o estatístico. “Lembro-me de um deles me pedir: ‘Diz aí, quais as posições que eu devo trocar?”.

E lá ia ele para os cálculos e predições, escaneando as informações fornecidas pela parceira Opta – dona de um imenso banco de dados com todos os indicadores das maiores ligas do mundo – para voltar com a resposta estatística ao cartola.

“Seu lateral esquerdo até que rende bem, é muito bom em interceptações, mas já passou um pouco da idade. Convém pensar nessa curva de desempenho, tanto atlético quanto financeiro, para os próximos anos”.

Ou: “Alguém com mais precisão nos passes e assistências no meio campo também faria a diferença. Concentre-se nessas duas posições.”

Usier ficou quatro anos na 21FirstClub até se juntar a Luana e Trek, na Kalshi. Chegou a levar o seu “moneyball outsource” para clubes dos Estados Unidos e do Mexico.

Só não conseguiu convencer os cartolas do Flamengo, depois de um ano de conversas, de que o negócio poderia mudar o futebol brasileiro.

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