Transformação Digital

O plano da Bayer para digitalizar o pequeno agricultor

Depois de lançar um programa para capacitar consultores e agricultores brasileiros no uso de sua plataforma Climate Field View, que permite a coleta de dados no campo para fornecer padrões e insights aos produtores, a empresa vai levar a solução para a Argentina. Entenda o impacto disso para o agronegócio

 

O Brasil é o segundo mercado global no uso da plataforma criada pela Bayer

Atualmente, já existem ferramentas digitais com recursos avançados, capazes de transformar substancialmente a produção agrícola. Mas será que esse campo fértil está sendo aproveitado em todo seu potencial?

Foi pensando nessa questão que a Bayer criou a Universidade FieldView, iniciativa de capacitação técnica da Climate FieldView, sua plataforma de agricultura digital, que é levada agora no início do ano à Argentina, após a estreia no Brasil, no fim de 2020.

Além de fazer da empresa uma referência em treinamento e conteúdo educativo na América Latina, a capacitação é uma nova etapa na estratégia da Bayer para fomentar a digitalização no campo – e consolidar sua posição em um mercado cada vez mais acirrado.

Outras potências do agro também investiram em braços de agricultura digital. A Basf tem a xarvio. A Corteva tem a Granular, agtech americana que desembarcou no Brasil em 2019. E a Syngenta, após comprar startups como a brasileira Stryder, criou uma estrutura unificada, Syngenta Digital, em 2020. Além desses nomes, empresas como a Solinftec oferecem plataformas digitais para o produtor.

“O uso combinado de ferramentas digitais, conectividade, automação e análise de dados nos ajuda a identificar novas maneiras de gerar inovação”, afirma Malu Nachreiner, presidente da divisão agrícola da Bayer no Brasil, ao NeoFeed. “E inovação é essencial para enfrentarmos um dos principais desafios impostos ao sistema global de alimentos: produzir mais por hectare com uso cada vez mais otimizado de recursos.”

O programa foi criado para ajudar consultores e produtores a compreender todas as possibilidades que a plataforma FieldView oferece. Por meio da integração com o maquinário de cada fazenda, a plataforma coleta dados de plantio, colheita, uso de insumos, desempenho de cultivares de acordo com variações climáticas e outras informações.

Depois de capturar as informações, a ferramenta cruza todos esses dados e fornece padrões e insights ao produtor. Lançado em 2017, o FieldView está presente em 23 países. No ano passsado, mais de 50 milhões de hectares foram monitorados por meio da ferramenta em todo o mundo. E o Brasil é o segundo mercado global no uso da plataforma, atrás apenas dos Estados Unidos.

O potencial do uso dessas tecnologias é imenso. “Os produtores capazes de coletar e analisar grande volume de dados podem fazer previsões personalizadas”, afirma Mateus Mondin, professor do departamento de genética da Esalq-US que estuda a inovação no campo e já fez parte do conselho da incubadora Esalqtec. “Poucos estão nesse estágio”, diz ele.

Mas, mesmo a adoção de melhorias pontuais, já causa um impacto direto nos custos do produtor. E é uma tendência sem volta. “Investir em tecnologia é decisivo”, afirma Mondin. “Quem não se atualiza fica com processos de produção mais caros, mais imprecisos e acaba à margem”.

No caso do FieldView, a adoção vem sendo promovida dentro do programa de relacionamento Impulso Bayer, que garante acesso ao braço de agricultura digital a todos os produtores que compram insumos da empresa. Já os planos do Climate Fieldview são cobrados de produtores que não são clientes da Bayer, mas podem ser resgatados como recompensa por aqueles que integram o programa de fidelidade.

É uma estratégia que incentiva o agricultor a comprar insumos e serviços da empresa para que ele junte pontos e troque recompensas dentro dessa iniciativa. O impacto da plataforma da Bayer é diferente em cada propriedade e em cada cultura.

No caso da soja, por exemplo, a aplicação da tecnologia no plantio corrige falhas e apresenta um ganho de 3 sacas por hectare, uma mudança que chega a quase R$ 12 mil em um talhão de 71 hectares, levando em conta o preço da saca a R$ 55. A aplicação mais precisa de insumos também garante uma redução de até 40% nos custos.

“Percebemos que o produtor tinha uma ferramenta fantástica na mão, mas não sabia como usá-la”, diz Rodrigo Alff, Gerente de Projetos Corporativos Latam na Climate FieldView. Para dar conta de todo o conteúdo, o curso foi estruturado em dois pilares. Cada um tem duração de seis semanas. O primeiro, técnico, apresenta aspectos da ferramenta, detalhando seu funcionamento e como extrair melhor os dados coletados.

O segundo módulo, voltado para negócios, ajuda o consultor parceiro da Bayer a entender o perfil de cada produtor e mostrar as vantagens que a plataforma digital pode oferecer. “É preciso mostrar que não é na primeira safra que ele vai ter um retorno com a tecnologia”, afirma Alff. “Para ter um nível de predição é necessário coletar uma quantidade enorme de dados”, diz.

Malu Nachreiner, presidente da divisão agrícola da Bayer no Brasil

Esse trabalho de apresentar as vantagens de acordo com o perfil de cada agricultor fica a cargo dos consultores, profissionais da ponta da cadeia de distribuição do agro que mantêm um relacionamento constante com os produtores, especialmente os pequenos.

E eles representam um enorme mercado potencial. De acordo com o mais recente Censo Agroécuário, divulgado pelo IBGE em 2017, o Brasil tem 5 milhões de pequenas propriedades, que representam 77% dos estabelecimentos de produção agrícola.

Esses consultores também mostrarão como essas ferramentas foram criadas já pensando nas dificuldades, como a falta de conectividade em algumas regiões. A plataforma tem recursos para driblar os desafios de infraestrutura. Mesmo maquinários mais antigos podem captar dados com uso do FieldView Drive, um dispositivo que pode ser acoplado em quase duas centenas de modelos de máquinas.

As informações pelo hardware são enviadas para um tablet, via bluetooth, recurso que ajuda a driblar a falta de conectividade. Quando estiver na sede, onde há internet, o produtor sincroniza todos os dados e obtém uma visão mais completa. Mas nem todos têm esse acesso a conexão. O Censo Agropecuário de 2017 mostrou que 71,8% das 5,07 milhões de propriedades rurais do país não têm acesso à internet. Desde então, iniciativas privadas têm levado conexão a regiões produtoras, mas a situação está bem distante do ideal.

A Universidade FieldView está disponível inicialmente para esses parceiros da Bayer em cooperativas e distribuidoras. Mas o objetivo para 2021 é oferecer o serviço de forma abrangente e aberta para produtores e qualquer outro profissional do setor interessado em atualizar seus conhecimentos.

A demanda por esse tipo de conhecimento existe. Afinal, o produtor brasileiro é bastante propenso à digitalização. É o que mostra a pesquisa “A Mente do Agricultor Brasileiro na Era Digital”, realizada pela consultoria McKinsey e divulgada em maio de 2020.

O estudo apontou que 85% dos mais de 750 entrevistados usam o WhatsApp diariamente para resolver assuntos ligados à agricultura, mesmo aqueles nos grupos de menor alfabetização. E 71% usam canais digitais para questões relacionadas à fazenda.

Um estudo da McKinsey mostra que 71% dos produtores brasileiros usam canais digitais para questões ligadas às fazendas

Cerca de 36% disseram fazer compras online para a fazenda. Para efeito de comparação, apenas 24% dos produtores americanos usam marketplaces digitais. E esses dados são anteriores à pandemia, que acelerou os processos de digitalização.

A oferta de conteúdos disponíveis na Universidade FieldView também vai aumentar ao longo de 2021. Um dos temas que será incorporado é o mercado de créditos de carbono. “Agricultura digital é sobre produzir de forma sustentável”, diz Rodrigo Alff. “Queremos mostrar o verdadeiro sentido de ser sustentável, que vai além dos cuidados com o meio ambiente”.

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