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O resgate de Mary Anning, a “caçadora de fósseis” que quase foi apagada da história

“Ammonite”, cinebiografia de Mary Anning, mostra como a pioneira em paleontologia do século 19 enfrentou o preconceito de uma elite científica machista que não lhe dava o crédito por suas descobertas

 

Mary Anning (1799-1847) é interpretada por Kate Winslet (à esq.) – Foto: Divulgação/TIFF

Logo na abertura de “Ammonite”, cinebiografia de Mary Anning (1799-1847), o esqueleto de um ictiossauro encontrado pela paleontóloga inglesa chega ao British Museum. Ainda que ela tivesse descoberto o primeiro fóssil desse réptil marinho extinto, parecido com um “peixe-lagarto”, Mary não levou o crédito pela sua contribuição científica.

Embora fosse uma das pioneiras na paleontologia e na coleta de fósseis, ela teve seu nome substituído, na etiqueta de identificação da peça, pelo de Henry Hoste Henley. Este lorde havia comprado o esqueleto de Mary por 23 libras e, em seguida, vendido o mesmo a um colecionador que decidiu exibi-lo em museu.

Durante toda a sua vida, Mary nunca teve o reconhecimento que merecia, como fica claro no filme dirigido por Francis Lee. Embora suas descobertas chamassem a atenção da elite científica do Reino Unido no século 19, essa comunidade, dominada por homens, ridicularizava Mary por sua origem humilde e por sua pouca instrução.

Só por ser mulher, a Sociedade Geológica de Londres nunca permitiu a adesão daquela que ficou conhecida como “caçadora de fósseis”. A entidade só passou a aceitar representantes do sexo feminino a partir de 1904 – 57 anos depois de sua morte (aos 47 anos, de câncer de mama).

Ainda sem data para estrear no Brasil, “Ammonite” traz a atriz Kate Winslet (de “Titanic”) na pele de Mary. Como o registro histórico sobre a paleontóloga é mais limitado, na comparação com os de seus colegas homens, a falta de informação até complicou a vida da atriz durante a sua preparação para as filmagens.

“Tive mais liberdade na composição por ter encontrado pouca documentação sobre Mary, que foi uma heroína desconhecida no mundo dos fósseis. Ela nunca teve o sucesso que os homens do mesmo período alcançaram. Eles chegavam a se apropriar do trabalho dela”, disse Kate Winslet, por videochamada. A atriz participou de evento online do filme realizado pela American Cinematheque, que teve cobertura do NeoFeed.

Diferentemente das cinebiografias mais tradicionais, que percorrem toda a vida do personagem (ou pelo menos grande parte dela), aqui Mary é apresentada ao espectador quando já está na última etapa de sua vida.

O recorte é eficaz no sentido de assegurar que a paleontóloga nunca colheu os louros pelo trabalho que desenvolveu. Na casa dos 40 anos, como a vemos no filme, ela continua sofrendo com o preconceito da comunidade científica e também com as dificuldades financeiras, por vir de uma família de poucos recursos.

“Aqui Mary já viveu o seu ápice, o que é incomum no retrato de figuras históricas no cinema, onde geralmente acompanhamos o seu ponto alto”, afirmou Kate. A versão mais “velha e cansada” da paleontóloga deixou o trabalho mais interessante para a atriz. “O corpo dela já doía diante da realidade dura do trabalho que ela realizava diariamente nas escavações. E sem ganhar dinheiro com isso”, completou a atriz.

200 milhões de anos

Nascida em Lyme Regis, cidade do condado de Dorset, no oeste da Inglaterra, Mary passou a vida escavando a Costa Jurássica da região. Considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, o local é formado por penhascos onde viveram répteis gigantes, há quase 200 milhões de anos.

O gosto pelo ofício ela herdou do pai, um colecionador de fósseis amador que morreu quando Mary tinha 10 anos. A paleontóloga deu continuidade ao negócio, sustentando a casa, onde vivia com a mãe, com a venda de amonites para turistas. O título do filme se refere justamente a esses fósseis de uma espécie de molusco pré-histórico em formato de concha.

Mary aprendeu geologia por conta própria, o que não a impediu de fazer história no segmento. Em 1823, ela foi a primeira paleontóloga a descobrir o esqueleto completo de um plesiossauro, um réptil de cinco metros semelhante a um lagarto.

Em 1828, ela escavou os restos de um pterossauro, o réptil voador – o primeiro encontrado fora da Alemanha. E, em 1829, Mary ainda descobriu um esqueleto de um squaloraja, uma espécie de peixe extinta.

Por mais que a paleontóloga não ganhasse o crédito de suas contribuições, suas descobertas também foram importantes por aquecerem o debate científico da época, sobre a extinção de criaturas. Mais tarde, seu trabalho ainda forneceu evidências que influenciaram a teoria da evolução de Charles Darwin, em “A Origem das Espécies” (1859).

“Eu me pergunto como uma mulher que nasceu pobre e teve pouco acesso à educação conseguiu ser uma paleontóloga de destaque da sua geração. E tudo isso em uma sociedade patriarcal, marcada pela divisão de classes”, disse o diretor do filme, Francis Lee.

O que “Ammonite” apresenta de mais duvidoso é uma faceta homossexual de Mary, ainda que não exista evidências disso. Por pura especulação, a história inclui um romance entre a paleontóloga e a jovem aristocrática Charlotte Murchison (Saoirse Ronan).

“Apesar de não termos encontrado registro histórico sobre a vida íntima de Mary, me pareceu certo Francis ter escolhido dar à personagem uma parceira mulher por tudo o que ela enfrentou naquela sociedade tão patriarcal”, comentou Kate.

A verdade é que Mary nunca se casou. E, de acordo com a documentação encontrada, Charlotte Murchison, que era esposa do geólogo Roderick Impey Murchison, foi apenas uma amiga de Mary. Tudo o que se sabe é que jovem acompanhava a paleontóloga em suas escavações para encontrar fósseis.

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