Os “nerds” estão invadindo a praia do mercado financeiro

Matemáticos, físicos e engenheiros de computação ganham espaço nas gestoras e assets com o crescimento de fundos quantitativos. Saiba por que essa é uma tendência que veio para ficar

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Quando concluiu a graduação em Matemática, em 2017, na Universidade Federal Fluminense (UFF), Gabriel Oliveira pretendia seguir o exemplo da maioria dos colegas e apostar em uma carreira acadêmica. Os passos seguintes seriam fazer um mestrado, passar para um doutorado e se estabelecer como um pesquisador.

O destino, porém, lhe preparou outro caminho. Após começar o mestrado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Oliveira percebeu que precisava de algo mais. “Estava me sentindo saturado de me dedicar 100% só à academia. Foi quando notei que havia uma demanda no mercado financeiro e que alguns amigos estavam indo para lá”, lembra o profissional, que abandonou o mestrado e, aos 24 anos, já está em seu segundo emprego no mercado financeiro, como analista da Daemon Investimentos.

Embora a avenida Faria Lima esteja acostumada a lidar com números, os matemáticos nunca estiveram entre os mais procurados para preencher as vagas que surgiam em gestoras, bancos e corretoras. Em geral, as mesas de operações eram ocupadas por economistas ou engenheiros de áreas mais tradicionais, como civil e elétrica, que acabavam suprindo a demanda por profissionais bons de conta.

Agora, com o mercado cada vez mais atento à necessidade de desenvolver robôs que auxiliem na tomada de decisões, os “nerds” estão invadindo essa praia e estão se transformando em profissionais desejados no mercado financeiro. A demanda inclui também aqueles que vêm de outras ciências exatas, como a física, e de outras engenharias, como a de computação.

Essa é uma tendência que não é exclusiva do mercado financeiro. Na área de publicidade, cientistas de dados e profissionais de computação começam a ganhar espaço para “domar” os algoritmos que levam mensagens para as pessoas certas no universo digital. Mesmo grandes empresas estão promovendo diretores de tecnologia ao cargo de CEO. Um exemplo é Thiago Maffra, que era CTO da XP, e sucedeu ao fundador Guilherme Benchimol.

Nas gestoras, esses novos profissionais ainda não assumem cargos de peso na hierarquia, mas estão acessando um mercado conhecido pelos altos salários. Um gestor de portfólio, por exemplo, pode ganhar de R$ 23,1 mil a R$ 41,4 mil por mês, segundo pesquisa da consultoria Robert Half. Um analista de ações pode receber entre R$ 13,8 mil e R$ 27,7 mil. O salário de um analista de operações pode ficar entre R$ 7,9 mil e R$ 14,2 mil.

A Daemon começou em 2016 a investir em pesquisas que ajudaram a desenvolver o fundo quantitativo da casa, o Nous Global, que tem R$ 70 milhões sob gestão e é 100% baseado em programação. Em operação desde fevereiro de 2020, o fundo acumula valorização de 33,8% desde o início, contra 4,5% para o CDI.

Hoje, dos 35 profissionais que formam a gestora, 12, ou um terço, são do chamado “time quantitativo”, com pessoas de todas essas áreas “não tradicionais do mercado”, como matemáticos, físicos e cientistas de dados. “São pessoas que, embora não conheçam a dinâmica do mercado, estão aptas a resolver problemas do mercado”, afirma Sérgio Rhein Schirato, fundador da Daemon, ao NeoFeed.

A Daemon, que tem US$ 4 bilhões sob gestão, opera 400 ativos líquidos ao redor do mundo. Em um só dia, são negociados, em média, cerca de 250 ativos. “Se nós não tivéssemos um sistema muito robusto de tratamento computacional e execução, seria impossível fazer isso de outra maneira, ou de forma manual”, afirma o gestor, que contratou Oliveira há três meses e está em negociação para trazer mais um físico.

Sérgio Rhein Schirato, sócio-fundador da Daemon Investimentos

O investimento que o mercado financeiro tem feito para atrair esses profissionais não se dá apenas por meio da contratação, mas também no apoio à formação. A Giant Steps, uma gestora fundada em 2011 e focada em fundos quantitativos, tem, inclusive, patrocinado estudantes que participam de Olimpíadas universitárias de matemática. Uma parte deles acaba sendo recrutada em algum momento.

Os incentivos começaram em 2018 e têm dado resultado. Dos 44 brasileiros que ganharam medalhas na Olimpíada Internacional de Matemática em 2021, 20 eram apoiados pela Giant Steps, que tem a XP como sócia minoritária. Dos sete que levaram o ouro para casa, todos foram ajudados pela gestora. Hoje, a instituição conta com 10 profissionais que participaram de Olimpíadas, de um total de 60.

A Giant Steps conta com dez profissionais que participaram de olímpiadas de matemática

Um deles é o engenheiro de computação Glauber Guarinello, de 28 anos, que tem cinco medalhas na Olimpíada Brasileira de Matemática (uma de ouro, uma de prata e três de bronze) e outras quatro na competição internacional (uma de ouro, uma de prata e duas de bronze).

Guarinello, que é gestor de portfólio na Giant Steps, afirma que praticamente não olha os balanços das empresas. “Basicamente, o meu trabalho é desenvolver algoritmos que interpretem os balanços”, diz. Ele também não se preocupa em ler o noticiário para saber se a próxima instabilidade política em Brasília vai afetar os preços do mercado. “Gasto a maior parte do meu tempo procurando novos dados e lendo a literatura especializada para aperfeiçoar os modelos.”

A gestora, que tem aproximadamente R$ 7 bilhões sob gestão, paga os custos dos estudantes que participam das Olimpíadas universitárias, como a inscrição e as passagens, e ainda ajuda com mentorias para as provas, tem planos de também investir em competições escolares. “O Brasil tem muito talento pouquíssimo explorado. E, quando aparece um, vem o Facebook e leva o cara para o Vale do Silício”, afirma Rodrigo Terni, co-CEO da Giant Steps.

Rodrigo Terni, co-CEO da Giant Steps

A Giant Steps, aliás, tem um método peculiar para estimular os seus funcionários. Se um gestor monta uma tese por meio de algoritmos, outros terão o desafio de desmanchá-la. Isso faz com que 95% das teses caiam e apenas 5% resistam. Quem consegue ver a sua “sobreviver” acaba ganhando uma bonificação.

Um mercado em expansão

Além da Daemon, que tem um fundo quantitativo, e da Giant Steps, que conta com seis, há pelo menos mais 12 casas que trabalham com robôs de investimentos. Entre elas, estão Kadima, Murano, Rio Bravo, Pandhora, Canvas Capital, Constância, Claritas, Garde, Mauá Capital, Kapitalo, Clave, Encore e a Itaú Asset.

Elas estão na vanguarda para quebrar a resistência dos investidores para colocar dinheiro em estratégias guiadas por algoritmos. No Brasil, o mercado ainda é incipiente, mas já movimenta trilhões de dólares no mundo. Por aqui, só 6% fazem uso de algum tipo de robô em suas carteiras, segundo pesquisa da TradeMachine.

Por conta disso, algumas gestoras usam estratégicas mistas que mesclam os algoritmos com os humanos. A Clave, por exemplo, lançou na segunda-feira, dia 26 de setembro, o seu primeiro fundo quantitativo, em anúncio divulgado com exclusividade pelo NeoFeed. No caso, além dos robôs, a gestora vai manter o toque humano na análise.

A Garde adotou também uma estratégia que não se baseia 100% nos algoritmos desenvolvidos por matemáticos e cientistas da computação. No início deste mês anunciou um fundo multimercado que tem 20% de resultados atribuídos à estratégia quantitativa, a partir do trabalho de seis profissionais, que fazem parte de uma equipe de 43 pessoas.

“Estamos o tempo todo gerando ideias, para identificar oportunidades diariamente, para, de forma sistêmica, mais acertar do que errar”, diz Marcelo Giufrida, CEO da Garde. Em 2021, o fundo tem conseguido ter uma performance de 7% acima do CDI. A expectativa é chegar a R$ 500 milhões sob gestão em 12 meses.

Para Ana Guimarães, da consultoria especializada em recrutamento Robert Half, a chegada de profissionais como matemáticos, físicos e engenheiros de computação às mesas de operação acompanha um movimento já consolidado no setor de seguros, em que a ciência atuarial é imprescindível para a criação de modelos.

A consultora não acredita, porém, que a demanda maior por profissionais que atuem com programação vá tirar espaço de quem já estava lá. “São formações complementares. Um analista com uma bagagem superespecializada em ações do setor elétrico, por exemplo, vai complementar a bagagem daquele profissional que tem o perfil de programador”, diz Guimarães.

Até por isso, a consultora acredita que não é mandatório que os profissionais contratados para trabalhar com programação procurem uma formação em finanças. “A não ser que eles tenham interesse em subir dentro da estrutura, para virar um sócio, por exemplo”.

Oliveira, o matemático da Daemon do início dessa reportagem, admite que “sofreu um pouco” quando chegou ao mercado financeiro, por não ter uma formação em finanças. A experiência no dia a dia foi o que fez com que se sentisse mais confortável. Mas não está satisfeito e quer aprender mais. “No futuro, pretendo fazer um MBA em finanças, para agregar.”

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