Os unicórnios não são mais raros. É a hora de chamar as startups de dragões?

Em 2013, as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão passaram a ser chamadas de unicórnios. Na época, eram 39. Hoje, são 805. E há quem defenda a criação de um novo clube para distingui-las: o dos dragões

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Dragões são muito maiores, mais fortes e mais inspiradores que os unicórnios, defende Dan Primack

“Algo extremamente raro e mágico.” Foram essas as palavras usadas por Ailen Lee, fundadora do Cowboy Ventures, fundo de investimento em early stage do Vale do Silício, para cunhar, pela primeira vez, o termo unicórnio para designar as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

No artigo, publicado em 2 de novembro de 2013, no site americano Tech Crunch, intitulado “Welcome to the unicorn club: learning from billion-dollar startups”, Lee se concentrava no Vale do Silício. E o universo era, de fato, bem restrito. Apenas 39 startups integravam o tal clube citado pela investidora.

O termo ganhou fôlego e ultrapassou fronteiras. Mesmo em países sem a mesma abundância de recursos que os Estados Unidos, ingressar nesse panteão era a chancela definitiva que distinguia uma startup de seus pares.

Oito anos depois, no entanto, uma questão se faz cada vez mais presente: usar o termo unicórnio para diferenciar as startups que alcançaram um patamar reservado a poucos ainda faz sentido ou essa expressão “mágica” não condiz mais com a realidade do mercado?

Alguns números ajudam a sustentar essa discussão. Do clube seleto de 2013, a lista atual de unicórnios evoluiu para nada mais nada menos que 805 startups em todo o mundo, segundo a consultoria americana CB Insights. Somadas, elas valem US$ 2,61 trilhões.

No topo dessa relação, está a chinesa ByteDance, dona do TikTok, avaliada em US$ 140 bilhões. As startups americanas dominam o ranking, com 440 representantes, seguidas pelas 255 da China. O Brasil também marca presença, com 13 nomes. Entre eles, Nubank e QuintoAndar.

Não se tira o mérito de quem alcançou tal status. Mas o fato é que, hoje, integrar essa lista é algo muito mais factível e palpável do que era há oito anos. E o mercado brasileiro é um bom exemplo das mudanças observadas nesse intervalo.

Se, naquela época, o ecossistema local ainda sofria com a carência de fundos, de investidores e de recursos a serem aportados nos diversos estágios de maturação de uma startup, atualmente, a realidade é bem diferente, como mostram alguns dados do hub de inovação Distrito.

De janeiro a agosto deste ano, as startups brasileiras captaram US$ 6,6 bilhões. A cifra é 85% superior a todo o montante levantado no decorrer de 2020. Para este ano, o Distrito prevê que os aportes somem entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões.

Sob esse contexto, há quem defenda que o termo ficou ultrapassado. É o caso do jornalista americano Dan Primack, que abordou o assunto em um artigo publicado no portal Axios. No texto, ele ressalta que ser um unicórnio, nos dias de hoje, certamente não é algo raro ou “mítico”. E propõe um novo patamar e uma nova palavra para separar o joio do trigo: “dragões”.

“Os dragões são muito maiores, mais fortes e mais inspiradores que os unicórnios. Eles destroem tudo que está em seu caminho e sua própria destruição é vista como catastrófica”, escreve Primack. Ele crava que para se enquadrar nessa lista, uma empresa deve ser avaliada em US$ 12 bilhões ou mais.

Ao subir essa régua, a nova relação traz de volta o caráter de exclusividade, antes relacionado aos chamados unicórnios. Levando-se em conta os dados da CB Insights, 27 startups se encaixariam na classificação sugerida por Primack, um número ainda menor do que aquele compilado por Lee, em 2013.

Além da ByteDance, o clube dos dragões incluiria empresas americanas como a fintech Stripe, a SpaceX, de Elon Musk, e a Instacart, especializada em entregas de supermercado. Avaliado em US$ 30 bilhões, o Nubank seria a única startup brasileira a fazer parte dessa lista.

Primack não é o único a questionar a validade do emprego da palavra unicórnio no vocabulário atual das startups e fundos de venture capital. Professor e investidor, o também americano Alex Larazow é mais uma voz a sustentar que outro animal retrata o que deve ser valorizado nesse ecossistema na atualidade.

Larazow chamou a atenção ao divulgar sua tese em um artigo que trazia como título “Esqueçam os unicórnios. As startups, agora, precisam ser camelos”, e que foi traduzido e publicado pelo NeoFeed, com a sua autorização, em maio de 2020.

“Ao contrário dos unicórnios, os camelos não são criaturas imaginárias que vivem em terras fictícias. Eles são reais, resilientes e podem sobreviver nos lugares mais difíceis da Terra”, destaca Lazarow, em um trecho do texto.

Ao criticar o que chama de culto aos unicórnios, o professor observa que, durante um bom tempo, essa abordagem produziu bons resultados no Vale do Silício. Mas que, logo na sequência, ela perdeu seu brilho, especialmente na esteira de uma série de IPOs malsucedidos de startups desse porte.

Ao mesmo tempo, Larazow ressalta que essa mentalidade disseminou a ideia do crescimento a qualquer custo, algo que já não era sustentável no mercado americano. E que se mostrava ainda menos viável em países menos maduros.

“Esse modelo de crescimento não se traduz em realidade. Para essas startups, os camelos são a mascote apropriada”, ressalta ele, no artigo. “Os camelos se adaptam a vários climas, sobrevivem sem comida ou água por meses e, quando chega a hora certa, podem correr rapidamente por períodos prolongados.”

O fato é que muitos empreendedores não se prendem a tais rótulos. Ser um unicórnio, por exemplo, não é um fim em si mesmo para boa parte deles. De qualquer forma, só o tempo dirá se esse termo irá sobreviver ou se está destinado à extinção na mitologia das startups.

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