Por que a bilionária Mackenzie Scott está preocupada com a educação política no Brasil

Escritora e filantropa, a bilionária americana fez um aporte na Politize!, ONG brasileira que, por meio de cursos e conteúdos, quer se consolidar como o “Google da política”

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Gabriel Marmentini, cofundador e presidente da Politize!, e Mackenzie Scott

Em julho de 2021, Gabriel Marmentini, cofundador e presidente da Politize!, recebeu um e-mail – com cara de spam – da Bridgespan, uma consultoria internacional, que dizia estar representando um filantropo interessado em conhecer e, quem sabe, injetar recursos na plataforma de educação política.

Uma videochamada foi marcada dias depois. A conversa envolveu uma extensa sabatina em inglês e a solicitação de uma série de documentos. Dias depois, um novo e-mail informou que a decisão estava agora nas mãos do investidor misterioso. E que a resposta poderia vir “amanhã, depois ou nunca”.

Marmentini não esquece a data em que a segunda opção se concretizou. Em 17 de setembro, ele recebeu a confirmação de que a ONG receberia uma doação de R$ 2,5 milhões. Foi então que ele descobriu o nome por trás do cheque em questão: a bilionária americana Mackenzie Scott.

Escritora e ex-mulher de Jeff Bezos, com quem fundou a Amazon, Scott vem se destacando também como filantropa. Em 2022, ela já destinou US$ 3,8 bilhões a 465 projetos, sendo 15 brasileiros. Entre os contemplados estão entidades como Gerando Falcões, Elas+ e Instituto Sou da Paz. Parte dessa leva, o aporte na Politize! foi concretizado recentemente e seu valor foi revelado com exclusividade ao NeoFeed.

“Espero que esse exemplo inspire mais empresários, especialmente no Brasil”, diz Marmentini, ao NeoFeed. “Essa doação mostra que nossa causa é igualmente importante às outras e eu imagino que possa ser uma carta na manga para abordarmos outras pessoas para que ao menos nos ouçam.”

A assinatura e o nome de Scott podem, de fato, chamar a atenção de outros empresários para o projeto da ONG. Em contrapartida, ao mesmo tempo em que ela vem fazendo “barulho” nesse espaço, todas as suas doações seguem um rito sigiloso, assim como no caso da Politize!.

“Até hoje, eu não sei se a Bridgespan teve o trabalho de busca e apresentou o nosso projeto ou se ela nos descobriu sozinha”, conta Marmentini. “E nós não tivemos contato. Eu nunca falei com ela.”

À parte dessa discrição, a faceta de filantropa começou a ganhar corpo após a sua separação, em 2019. No acordo, de US$ 38 bilhões, ela recebeu o equivalente a 4% de participação na Amazon e se desfez de suas fatias no jornal The Washington Post e na companhia de exploração espacial Blue Origin.

Desde então, Scott já destinou US$ 12,5 bilhões a mais de 1,2 mil organizações no mundo, segundo a revista Forbes. Com foco em causas como desigualdade racial, social e de gênero, educação e saúde, sua maior doação, de US$ 436 milhões, foi direcionada à ONG americana Habitat for Humanity, neste ano.

Mackenzie Scott já destinou US$ 12,5 bilhões a mais de 1,2 mil organizações no mundo

Em 2022, de acordo com a Forbes, ela liderou o ranking de bilionários filantropos com um total de US$ 5,8 bilhões, à frente, por exemplo, do megainvestidor Warren Buffett, que doou US$ 4,1 bilhões no período.

Mesmo com esse volume, sua conta bancária ainda é composta por muitos dígitos. Com um patrimônio estimado em US$ 35,2 bilhões, ela ocupa a 35ª posição no Billionaires Index, da Bloomberg, e é a 5ª mulher mais rica do mundo, segundo o ranking. A tendência, porém, é de que Scott siga uma trajetória descendente nessa relação.

A bilionária é também uma das signatárias da Giving Pledge, fundação criada por Bill e Melinda Gates, e Buffett, em 2010. Na iniciativa, magnatas de todo o mundo se comprometem a doar metade de suas fortunas para filantropia. O Brasil tem dois representantes na lista: Elie Horn (Cyrela) e David Vélez (Nubank).

“Google da política”

No caso da Politize!, Scott reforça uma relação de financiadores que inclui entidades como Fundação Tide Setubal, Instituto Galo da Manhã e Fundação Roberto Marinho, além de empresas como Meta e Twitter, e de usuários da plataforma. Desde a sua fundação, em 2015, a ONG arrecadou R$ 10 milhões.

“Essa foi a primeira vez que alguém conhecido, na pessoa física, fez uma doação”, diz Marmentini. “Com esses recursos, temos, pela primeira vez, fôlego para organizar a casa e crescer com sustentação. E não em meio à loucura de não saber se teremos dinheiro em caixa no próximo mês.”

Criada a partir de um financiamento coletivo, no qual captou R$ 65 mil, e sob a inspiração das manifestações que tomaram as ruas do País em 2013, a Politize! sempre teve certeza, no entanto, sobre os princípios que guiariam sua jornada.

“O maior ganho das manifestações foi colocar a política no dia a dia dos brasileiros. Na minha geração, por exemplo, não se falava disso em casa, na escola e muito menos com os amigos. Essa lacuna é uma questão estrutural no País.”, opina Marmentini.

De acordo com ele, a proposta da Politize! é falar do tema de uma forma educativa, didática, descontraída e, principalmente, sem qualquer vinculação partidária e ideológica. “E entendemos que a política está em tudo, por isso, falamos de saneamento, agricultura, feminismo, enfim, sob o conceito de exercer sua cidadania.”

Com esse viés em mente, a Politize! nasceu com o sonho de se tornar uma espécie de “Google da política”, ou seja, uma referência para quem quiser pesquisar, conhecer e entender mais sobre qualquer tema relacionado a essa esfera.

Esse modelo evoluiu e se ramificou em três vertentes. O primeiro braço, que deu origem à operação, é o de conteúdos, com mais de 3 mil produções em formatos como podcasts, vídeos, artigos e infográficos. O acervo contabiliza mais de 144 milhões de acessos desde a sua criação.

Um dos projetos que irá ganhar mais foco a partir da doação é chamado de Universidade Online de Política. Em estruturação, ela terá o lançamento dos seus três primeiros cursos já na esteira das eleições desse ano e, a partir de 2023, também incluirá testes com aulas em tempo real.

As eleições também estão no centro de um chatbot que está sendo desenvolvido para o perfil da Politize! no Twitter. Além de trazer conteúdos relacionados, ele trará uma ferramenta de identificação de fake news, em uma parceria com o projeto Fato ou Boato, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O plano nessa frente inclui ainda reforçar a produção de podcasts e o modelo de licenciamento dos conteúdos, como parte da estratégia de encontrar novas fontes de receita e reduzir a dependência de doações.

A segunda área é a de formação de lideranças, a partir de cursos com aulas presenciais e online, que abordam desde conhecimentos básicos sobre o tema até os caminhos para fazer e estruturar políticas públicas. Além de tópicos como diálogo plural, empatia cidadã e protagonismo voluntário.

A Politize! tem uma rede de mais de 200 voluntários em 21 estados

Os cursos em questão são ministrados por mais de 200 voluntários – capacitados pela Politize! – em 21 estados e já formaram mais de 1,8 mil pessoas. “É um conceito de liderança mais amplo, que passa muito mais por valores e da atuação política no dia a dia do que ser um candidato”, diz Marmentini.

Aqui, os principais planos com o aporte passam por uma descentralização, a partir do estabelecimento de coordenações estaduais. Hoje, São Paulo e Minas Gerais já estão testando esse modelo. Aqui também, a ideia é criar opções de geração de recursos, com a oferta de palestras, cursos e eventos.

O último braço é o de educação básica, no qual a Politize! desenvolve, gratuitamente, cursos relacionados à cidadania para a formação de professores e estudantes da rede pública. Esses conteúdos são ofertados como opção no contraturno das aulas, dentro da implantação do Novo Ensino Médio.

Hoje, a Politize! tem parcerias nessa direção com secretarias de educação de sete estados no País, além do Distrito Federal. Com o cheque de Mackenzie Scott, a ONG planeja, entre outras questões, estender essas parcerias às secretarias municipais, ao ensino fundamental e, no médio prazo, à educação infantil.

“Tem também o elemento de ir para a rede privada, como uma forma de financiar essa oferta para a rede pública”, diz Marmentini. “E, mais no longo prazo, levar nossa plataforma para fora, iniciando pela América Latina. E o aporte também pode abrir essas portas.”

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