Que 7 X 1, que nada! Nas praias certificadas, Espanha 713 X Brasil 28

Com um litoral muito mais extenso que o espanhol, o país ainda é tímido em se candidatar ao selo ecológico Bandeira Azul, que tem atraído viajantes e investidores pelo mundo

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Praia do Peró, em Cabo Frio, é uma das certificadas pelo selo Bandeira Azul

O que que significa ter a Bandeira Azul tremulando numa praia? Para o viajante pode ser o critério decisivo para eleger o destino de suas férias. Recentemente, o Balneário de Camboriú expôs divergências entre dois orgãos com relação a balneabilidade em cinco praias com laudos diferentes de monitoramento. O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina disse que eram impróprias para banho e a Empresa Municipal de Água e Saneamento constatou o oposto. Em quem o turista deveria confiar?

O Brasil, que atrai a comunidade internacional por sua extensão litorânea, a 16ª do mundo, conta hoje apenas com 28 praias e marinas no Programa Bandeira Azul, selo ecológico criado na França em 1985, mas que se tornou global nos anos 2000. No total, são 15 em Santa Catarina (três em Balneário Camboriú, por sinal), cinco no Rio de Janeiro, três na Bahia, três em São Paulo, uma em Alagoas e uma no Espírito Santo. Para efeito de comparação, a Espanha, campeã do programa, tem 713 praias certificadas. A Grécia vem na sequência com 567 locais, seguida por Turquia, França e Itália.

O Bandeira Azul, desenvolvido pela FEE (Foundation for Environmental Education), ONG sem fins lucrativos, é uma premiação internacional concedida a praias, marinas e embarcações turísticas que atendam a critérios pré-estabelecidos, relativos à gestão ambiental. A bandeira azul hasteada nas praias tornou-se um símbolo internacional de sustentabilidade de praias e marinas.

“Nós educamos para proteger não apenas nosso meio ambiente, mas também as pessoas que vivem nele, as comunidades que dependem dele, os negócios que lucram com ele e os ecossistemas que apoiam-se nele”, define a diretora internacional do programa, Sophie Bachet Granados.

A avaliação anual de destinos e estabelecimentos leva em consideração não apenas a existência de água limpa de excelente qualidade, mas também uma série de critérios com foco em gestão e educação ambiental, segurança, serviços, turismo sustentável e responsabilidade social.

Todos esses parâmetros devem ser atendidos e comprovados anualmente para que a certificação seja mantida. Mas para isso é preciso que os gestores públicos apresentem a candidatura e se submetam ao escrutínio permanente.

O principal objetivo do programa não é comercial, mas sim conscientizar sociedade, empresários e gestores públicos sobre a necessidade de preservar ambientes marinhos e costeiros, promovendo conhecimento e incentivando a realização de ações focadas em qualidade e proteção ambiental.

O último ano, diz ela, foi desafiador para que praias e marinas cumprissem com todos os rígidos critérios estabelecidos.

“Entre as principais dificuldades enfrentadas pelos municípios no Brasil para receber o prêmio estão a falta de tratamento de esgoto, que prejudica a qualidade das águas balneares; atividades e ocupações irregulares e ilegais na praia; má gestão de resíduos sólidos, resultando em lixo na areia e no mar. E ainda a falta de vontade política em se comprometer com a gestão das praias”, explica Leana Bernardi, coordenadora do Bandeira Azul no Brasil.

O último ano, diz ela, foi desafiador para que praias e marinas cumprissem com todos os rígidos critérios estabelecidos. “Por conta da pandemia, houve dificuldade para alguns em realizar testes de balneabilidade da água. No entanto, com a ajuda de nossos parceiros, todos os itens foram cumpridos, ganhando reconhecimento do júri nacional e internacional”, afirma.

Em comum, os países que ocupam as primeiras posições no Programa Bandeira Azul têm o turismo como uma das principais forças econômicas. Suas pontuações altas em tantas praias e marinas diferentes revelam a prioridade na gestão ambiental de seus destinos turísticos.

A Espanha é o 27º país em extensão litorânea do mundo, com 4.964 km e mais de 3.500 praias entre porção continental e insular. A participação do turismo no PIB foi de 12,3%, na pré-pandemia, segundo dados do banco espanhol Caixa. Já no Brasil, com seus 7.491 km de costa, o turismo respondeu por 8,1% do PIB, no mesmo período, segundo levantamento WTTC e Oxford Economics. O país sequer tem um dado consolidado do total de praias. Os registros variam entre 2 mil e 9 mil praias marítimas, fluviais e lacustres.

As praias certificadas são sinalizadas com a bandeira do Programa

“Nós só atuamos nos municípios que nos procuram”, explica Leana Bernardi. “Já abordamos municípios no passado, mas aprendemos que só dá certo quando o município quer muito. Como o programa por aqui ainda é pouco conhecido, acreditamos que o potencial de crescimento é imenso.”

O programa só chegou no Brasil em 2005, representado pelo IAR (Instituto Ambiente em Rede) – sediado em Florianópolis, justamente o estado brasileiro mais certificado pelo programa.

A organização, diz Leana, ainda não tem como mensurar o quanto o selo interfere na escolha dos viajantes. Mas já identificaram que, em municípios europeus o programa já vem sendo utilizado como diferencial para atrair investidores e influenciar os viajantes em escolhas mais sustentáveis. “A intenção do programa é também auxiliar na tomada de decisão.”

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