Recuperação da BRF ainda não convence os investidores

Apesar do bom desempenho no quarto trimestre de 2020, o alto preço dos insumos, os reajustes de preços ao consumidor e um panorama de incertezas no mercado internacional são desafios para que a companhia retome a confiança do mercado

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Desde 2018, as ações da BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, parecem estacionadas no mesmo lugar, com pequenas variações para cima e para baixa na casa dos R$ 22, a despeito dos avanços realizados pela dupla Pedro Parente e Lorival Luz nos últimos anos.

Nesta sexta-feira, 26 de fevereiro, os papéis caem 4,8% liderando as perdas do Ibovespa, apesar da divulgação de um forte quarto trimestre, quando registrou um lucro líquido de R$ 902 milhões, acima das expectativas do mercado.

Por trás desse desempenho frustrante do papel está a visão dos investidores de que a recuperação da empresa ainda não é para valer. Uma das principais preocupações é o reajuste do preço dos produtos, o que pode impactar o desempenho da empresa ao longo de 2021.

Repasses do aumento dos custos com insumos, principalmente o milho, já foram feitos aos consumidores em 2020. E novos reajustes são esperados para este ano. “É natural que a companhia tenha que fazer essa adequação”, afirmou Lorival Luz, CEO global da BRF, em teleconferência com analistas nesta sexta-feira, 26 de fevereiro.

O vice-presidente de mercado Brasil da BRF, Sidney Manzaro, complementou Luz. “É um impacto não apenas para a BRF mas para o mercado. Vejo todos se movimentando na mesma intensidade em função de uma pressão estrutural de custo.”

Para tentar driblar a pressão de custos de grãos, a BRF começou o ano com o maior estoque de grãos de sua história, atingindo um saldo de R$ 2 bilhões, um aumento de 154,7% em relação ao ano anterior. A companhia já tem contratos fechados para a entrega de insumos nos próximos meses.

Embora não divulgue volumes de estoque, a BRF diz que a quantidade é suficiente para garantir o abastecimento. “Estamos seguros e fortes para o primeiro semestre”, afirmou Leonardo Campo Dallorto, vice-presidente de planejamento integrado e logística da BRF.

Há ainda uma preocupação com o cenário internacional. A crise política na Turquia e a desvalorização da lira turca afetaram o ritmo de produção no país. Mesmo assim, a BRF encerrou o ano com um participação de mercado de 22,6% no país.

A suspensão da unidade industrial de Kizad, em Abu Dhabi, para exportações à Arábia Saudita, impactou também de forma negativa a performance em todo o Oriente Médio.

As incertezas sobre medidas sanitárias relacionadas à Covid-19 prejudicam ainda mercados como o Japão e outras praças do Oriente Médio, já que o turismo, especialmente o religioso, ainda está em níveis reduzidos.

“Esperamos hoje ter muito mais flexibilidade no food service, que está abrindo para os consumidores irem a restaurantes”, afirma Patricio Rohner, vice-presidente de mercado internacional, com otimismo. “O pior que tinha para acontecer ficou no ano passado.”

Em dezembro de 2020, a BRF divulgou uma estratégia de investimentos de R$ 55 bilhões para fortalecer o crescimento da companhia até 2030, que inclui a ampliação nos segmentos de pratos prontos e produtos de alto valor agregado.

Em pouco menos de três meses desde o anúncio, os analistas já querem saber quando os resultados serão percebidos. “Desde o primeiro dia de janeiro estamos trabalhando nessas iniciativas em um mix de prioridades”, afirmou Luz. “Não quero nem posso me antecipar, mas esperamos ter resultados do que implantamos já no primeiro semestre.”

Balanço

A BRF encerrou o quarto trimestre com uma receita líquida de R$ 11,47 bilhões, alta de 23,5% para 2019. No balanço consolidado de 2020, a receita líquida foi de R$ 39,47 bilhões, um crescimento de 18%.

No Brasil, o EBITDA ajustado de R$ 1,1 bilhão ficou acima do consenso do mercado. Em relatório da XP, os analistas Leonardo Alencar e Larissa Pérez destacam que a categoria de alimentos processados foi fundamental para o resultado positivo, com os volumes crescendo 7% ano a ano.

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