Voltz acelera para se tornar a Tesla das duas rodas

A Voltz, que tem entre seus investidores a Creditas e o grupo Ultra, desenvolve um pacote com sensores, câmeras, inteligência artificial e machine learning para equipar suas motos elétricas e aposta alto no mercado B2B. O fundador Renato Villar detalha a estratégia ao NeoFeed

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A Voltz projeta vender 52 mil motos em 2022

Desde 2017, quando fundou a Voltz, Renato Villar se acostumou a ouvir a startup pernambucana ser chamada de a “Tesla brasileira”. Guardadas as devidas proporções, há conexões entre a empresa e a montadora americana comandada pelo bilionário Elon Musk.

Essas intersecções não estão restritas ao fato de que ambas apostam na eletrificação – no caso da Voltz, de scooters e motos. Elas se estendem ao modelo de vendas 100% online, cujo principal motor é o chamado boca a boca entre os consumidores.

Agora, a Voltz está traçando um caminho que aproxima ainda mais as duas operações. Trata-se de um projeto para embarcar um arsenal de tecnologias em suas motos, com recursos que também estão guiando a Full-Self Driving (FSD), tecnologia de direção autônoma criada pela Tesla.

“A Tesla busca ter um carro autônomo. Nosso foco é tornar a moto um veículo mais seguro”, diz Villar com exclusividade ao NeoFeed. “Na contramão dos carros, onde as aplicações embarcadas avançaram bastante, nas motos, elas ainda são as mesmas de 40 anos atrás.”

Ele cita uma estatística, em particular, para justificar a escolha por essa direção: 60% dos acidentes envolvendo motos são causados quando elas estão em um ponto cego, fora do alcance da visão dos motoristas de outros veículos.

Com esses e outros dados como ponto de partida e um aporte inicial de US$ 500 mil, a startup começou a desenvolver há três meses um pacote de sistemas dentro do conceito conhecido no mercado automotivo pela sigla ADAS (Advanced Driver Assistance Systems).

A plataforma reúne câmeras, sensores, algoritmos de inteligência artificial e machine learning para “reconhecer” trajetos e fazer uma série de alertas por meio dos painéis das motocicletas.

Entre eles, avisos sobre a velocidade máxima permitida e os buracos existentes em uma determinada rua, ou mesmo os obstáculos e sinais fechados à frente. Outra aplicação envolve justamente o envio de um aviso quando a moto estiver no ponto cego de outro veículo.

“Eles estão indo ao encontro do que todas as empresas mais atualizadas do setor estão buscando”, afima Milad Kalume, analista da consultoria Jato Dynamics. “E tudo o que reforça a segurança em mobilidade é extremamente positivo.”

À medida que for sendo alimentada com os dados de cada “corrida”, a plataforma também irá aprender e aprimorar as recomendações sobre esses percursos. Assim como conseguirá traçar um perfil detalhado do estilo de pilotagem de quem estiver sobre as duas rodas.

Para Villar, não há limites para novas aplicações. Isso se estende à possibilidade de ofertar, no médio prazo, seguros baseados nos dados coletados pela plataforma, que também inclui recursos de rastreabilidade e monitoramento remoto. “Hoje, apenas 5% das motos no Brasil têm seguro”, afirma.

A expectativa é apresentar essas tecnologias nas novas linhas que serão lançadas no início de 2023: uma scooter; uma moto street e outra no segmento adventure. O portfólio atual inclui duas scooters e duas versões da moto EVS, com preços que variam de R$ 9,9 mil a R$ 25,9 mil.

Para esse ano, a empresa tem a meta de alcançar um volume de 52 mil motos vendidas, contra 7,1 mil em 2021. Na mesma base de comparação, a Voltz prevê sair de um faturamento de R$ 145 milhões para R$ 750 milhões.

Na pista

Por trás dessas estimativas estão vários projetos que vêm sendo maturados a partir do aporte de R$ 100 milhões captado em maio de 2021, junto à Creditas e ao UVC, fundo de venture capital do grupo Ultra.

“Em 11 meses, parece que trabalhamos cinco anos”, diz Villar. Boa parte dessas iniciativas começou a ganhar as ruas em março e irão acelerar o roteiro da startup para ampliar sua escala.

Uma das novidades é o lançamento de um triciclo elétrico para entregas na última milha. O modelo está sendo testado por companhias de e-commerce e um primeiro contrato de 500 unidades acaba de ser assinado.

Na trilha da agenda ESG, empresas como Unidas e Ambev já fecharam contratos para a aquisição ou testes com outros modelos. A partir dessa demanda, a startup está ampliando sua aposta no B2B, que representa cerca de 14% da sua receita. Até o fim do ano, a projeção é chegar a 20%.

Na pista desde o início deste mês, outra estratégia para ganhar mais tração é uma parceria com o iFood para a oferta de um modelo mais barato aos entregadores do aplicativo. A expectativa é chegar a 10 mil motos em 12 meses.

Renato Villar, fundador e CEO da Voltz

“Essa alternativa ainda não foi liberada para a maior parte da base do iFood, mas já vendemos 150 unidades”, diz Villar. “Esse projeto abre um leque de consumidores de menor renda. Hoje, nosso público está concentrado majoritariamente nas classes A e B.”

Ainda sob a ótica de tornar seu portfólio mais acessível, a parceria também está sendo usada para validar um novo formato: a venda de motos sem baterias, o que o explica o modelo destinado aos entregadores do iFood estar sendo ofertado a R$ 9,9 mil.

A bateria representa 40% do preço de cada modelo. Hoje, para os demais consumidores, a Voltz oferece opções com uma ou duas baterias. No novo formato, o cliente pode pagar um plano de assinatura mensal para instalar as baterias e trocar por outras recarregadas sempre que necessário. O modelo inclui três opções de assinatura, de R$ 129, R$ 219 e R$ 319.

A instalação e as trocas da bateria, que estão sendo validadas junto à base do iFood, são feitas em uma rede de estações de trocas, que está sendo estruturada, inicialmente, em São Paulo. Até meados de maio, a Voltz prevê abrir 100 unidades na capital paulista.  “A expectativa é finalizar esses testes e abrir a venda sem baterias a todos os consumidores até setembro”, diz Villar.

O movimento será acompanhado pela expansão da rede de estações de troca de baterias a praças como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Campinas. E assim como já foi feito em São Paulo, a prioridade será instalar as estações nos postos Ipiranga, operação do grupo Ultra, investidor da Voltz.

Também já há sinergias sendo capturadas com a Creditas. Desde o aporte liderado pela empresa, o índice de motos financiadas da Voltz saiu de 10% para 26% do total. Villar vê ainda oportunidades para escalar a oferta de seguros a partir do ecossistema da sua investidora.

A expansão também ganhou velocidade na rede de showrooms, composta por 10 unidades. Até o fim do ano, a Voltz vai inaugurar outros três em Fortaleza, Goiânia e Manaus, além de dobrar o número atual de 60 lojas pop up, que incluem unidades próprias e franquias.

Para fechar esse pacote, a startup irá dar início à operação da sua fábrica em Manaus na próxima semana. Com um aporte de R$ 12 milhões, ela tem capacidade de produzir até 200 mil motos por ano. Até então, a montagem era feita em uma unidade de menor porte em Cabo de Santo Agostinho (PE).

Além de atender o aumento previsto nos volumes, o projeto busca reduzir a dependência da China, dado que as interrupções na cadeia de suprimentos do país impactaram muitas das entregas em 2021.

Esse cenário segue como um risco para as metas de faturamento e vendas, devido às novas restrições e lockdowns na China. A startup já mantém negociações para nacionalizar uma parcela mais ampla de componentes, especialmente as baterias.

As rupturas nessa cadeia não são o único ponto de atenção. Eles também passam pelo aumento da concorrência em um mercado cuja previsão é movimentar US$ 7,2 bilhões globalmente em 2026.

Em Manaus, a Voltz terá a companhia da chinesa Horwin, que chegou ao País em 2021 e que confirmou, nesse mês, um investimento de R$ 100 milhões para instalar sua fábrica na capital do Amazonas.

Outras marcas estrangeiras desembarcaram recentemente no Brasil, como a australiana Super Soco e as chinesas Shineray, Aima e Niu Technologies. Essa última, por meio da Lev, startup brasileira de bikes elétricas.

A categoria também já movimenta aquisições no País. É o caso da Watts, que foi comprada pela Multilaser em março desse ano, por R$ 10,5 milhões.

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