Se a Bahia é mesmo uma nação, que abriga a primeira capital do Brasil, talvez não seja de todo exagero considerar o antiquário de Itamar Musse uma missão diplomática desse “Estado emérito”. Tendo nele a figura de seu embaixador ou, ao menos, adido cultural. Especialmente a cada 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, quando ele reúne em seu terraço, em Salvador, cerca de 150 convidados — nomes das artes, da política e dos negócios; tanto da sociedade local, quanto do eixo Rio-São Paulo.

Na celebração de 2025, estavam por lá ACM Neto; Regina Casé; os galeristas Paulo Darzé e Vilma Eid; Marcelo Araújo, diretor do Instituto Moreira Salles; Emilio Kalil, diretor-superintendente da Fundação Iberê Camargo, entre outros. Também habitués das festas estão Gilberto e Flora Gil, Vik Muniz, Nizan Guanaes, Maitê Proença e Jorge Benjor para citar apenas alguns.

A comida e a bebida são fartas, antes mesmo do almoço servido à francesa no andar inferior, entre mobiliários, tapeçarias, prataria, louças e um impressionante conjunto de arte sacra. Taças de espumante a um terço de seu volume são discretamente reabastecidas a todo momento. “A ordem aqui é não deixar copo vazio”, comenta Itamar, de 58 anos, ao NeoFeed.

Se a ascendência libanesa lhe deu a régua para os negócios, por meio de seu avô David Musse, certamente, foi a Bahia que lhe ensinou o compasso para uma vida bem cadenciada entre a celebração e o ofício, que o coloca como um importante agente cultural na cena artística brasileira. E, em breve, na lisboeta também.

Até o final de junho, Itamar inaugura uma filial do antiquário na concorrida e sofisticada avenida Liberdade, um dos endereços mais exclusivos da Europa.

A trajetória do antiquarista está ligada à história da imigração libanesa para o Brasil.

Sua família já trabalhava com antiguidades em Beirute, quando, em meados dos anos 1910, David decidiu vir para cá. Seu destino era o Rio de Janeiro, mas, depois de passar mal no navio, acabou desembarcando em Salvador, onde tinha parentes.

No início, trabalhou com um tio no comércio de tecidos e aviamentos. Depois, ele passou a comprar ouro para o Banco do Brasil e, enquanto isso, montava sua coleção de mobiliários antigos, até abrir seu próprio antiquário. Logo, David se tornou referência entre as famílias abastadas não só de Salvador, mas de toda a Bahia.

Fez amizade com alguns dos nomes mais emblemáticos da cultura baiana, como o escritor Jorge Amado (1912-2001) e o artista plástico Carybé (1911-1997). Tornou-se próximo também de colecionadores de arte, como Odorico Tavares (1912-1980).

"By appointment only"

Itamar não conheceu o avô (nasceu três anos depois da morte de David, em 1964), mas herdou do patriarca o modo de trabalhar. Adolescente, já se dedicava ao antiquário. Formado em museologia na Universidade Federal da Bahia, aos 22 anos, assumiu os negócios da família.

No início dos anos 1990, levou seu acervo para o Rio Vermelho, bairro onde se celebra o 2 de fevereiro. Hoje a loja ocupa dois prédios, em uma área de cerca de 3 mil metros quadrados. É grande, mas Itamar, que atende by appointment only, planeja uma ampliação.

Entre o fim dos anos 1990 e o início dos 2000, cresceu a demanda pelas peças da coleção de Itamar em São Paulo, que se tornou seu principal mercado. Foi em 1999 que Emilio Kalil, então curador da mostra que, no ano seguinte, comemoraria os 500 anos do Brasil, conheceu o baiano.

“Itamar é, de fato, um dos que fazem circular a maior quantidade de obras, tanto na coleção particular dele quanto no antiquário em Salvador”, diz Kalil, ao NeoFeed. “Ele é um caso fora da curva, um galerista que nos ajuda a manter a integridade da memória brasileira — uma memória de alto nível.”

Com 3 mil metros quadrados, o antiquário de Musse ocupa dois prédios no bairro do Rio Vermelho (Foto: Arquivo Pessoal)

Da editora Cosac, o primeiro livro da caixa "Florindas" a caixa "Preciosa Florinda" e Joias na Bahia nos séculos XVIII e XIX" foi lançado em 2024 (Foto: Divulgação)

O cantor e compositor Jorge Benjor e o artista plástico Vik Muniz celebram Iemanjá na festa oferecida por Itamar (Foto: Arquivo Pessoal)

A empresária Flora Gil, a filantropa Lucinha Araújo e Márcio Tavares, secretário-executivo do Ministério da Cultura, posam com Itamar (de chapéu) em uma das celebrações a Iemanjá (Foto: Arquivo Pessoal)

Nizan Guanaes, Vik Muniz, Maitê Proença, Emilio Kalil e Donata Meirelles estavam entre os convidados do 2 de fevereiro, de Itamar (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2023, por exemplo, ele intermediou a compra, pelo Instituto Cultural Vale, de obras do pintor baiano José Joaquim da Rocha (1737-1807), um dos grandes mestres do barroco brasileiro. Incorporado ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes, o conjunto de cinco pinturas foi exibido no Salão Nobre do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Mais recentemente, Itamar emprestou peças de seu acervo pessoal para a exposição Dona Fulô e outras joias negras, que esteve em cartaz até março,  no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Salvador. As peças de joalheria foram produzidas no Brasil, entre os séculos 18 e 19, principalmente na Bahia, e eram usadas por mulheres negras escravizadas, alforriadas ou livres.

Uma delas era dona Fulô — a baiana Florinda Anna do Nascimento, nascida em 1828. E sua identificação só foi possível graças a um extenso trabalho de pesquisa empreendido por Itamar.

Anos atrás, o antiquarista recebeu um cartão postal do artista plástico e curador Emanoel Araújo (1940-2022). A bater os olhos na imagem daquela senhora enfeitada com colares, pulseiras e anéis, logo identificou peças de seu acervo de "joias crioulas", adquirido em 2017.

Deu-se início então ao trabalho de resgate da memória que culminou com a mostra no MAC e o lançamento da caixa Florindas, com os livros Preciosa Florinda e Joias na Bahia nos séculos XVIII e XIX, da editora Cosac.

“Itamar é essencialmente um marchand, mas essa não é a primeira publicação dele, que se preocupa muito com pesquisa e foi muito generoso em relação aos meus pedidos por acadêmicos também no Rio e em Minas Gerais”, lembra ao NeoFeed o editor Charles Cosac.

"Sem cafonices ou equívocos"

Marchand, pesquisador, museólogo, antiquarista e… anfitrião de uma das festas de Iemanjá mais disputadas (e exclusivas) de Salvador.

As comemorações nasceram nos anos 1990. Vik Muniz lembra que foi apresentado a Itamar pela promoter baiana Licia Fabio. Ambos interessados por história, logo se tornaram amigos.

“Itamar também é um desses personagens que contribuíram para que Malu e eu ficássemos tão apaixonados por Salvador a ponto de comprar uma casa e passar boa parte de nosso tempo na cidade”, conta Muniz, ao NeoFeed. “Ele é como uma entidade local, um ponto de convergência. É quase impossível conhecer alguém interessante em Salvador que não o mencione como um amigo em comum.”

O colecionador Frank Geyer Abubakir, acionista majoritário da Unipar, gigante do setor químico, conhece Itamar há quase três décadas, quando começou a colecionar móveis.

“Acessar Itamar era acessar um sonho. Porque as melhores peças de mobiliário e de prata luso-brasileiras estavam com ele”, elogia o empresário, ao NeoFeed. “E ele sabe fazer um charme, sabe contar a história das peças, com as quais ele tem um cuidado especial no restauro, sem cafonices ou equívocos que tiram a idade da peça.”