A disputa por To Kalon, a região com as uvas mais valiosas dos Estados Unidos

Várias vinícolas americanas foram à Justiça para ter o direito de registrar o nome do terroir “To Kalon” em seus rótulos. Mas, até agora, só a Robert Mondavi e o produtor Andy Beckstoffer podem usar o selo dessa região, de onde são produzidas as melhores e mais caras uvas dos EUA, que podem custar quase R$ 500 o quilo

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To Kalon fica em Oakville, distrito de Napa

Em fevereiro deste ano, a juíza federal americana Yvonne Gonzalez Rogers acabou com as pretensões da vinícola The Vineyard House de estampar o nome To Kalon na linha mais ambiciosa de seus vinhos feitos com a uva cabernet sauvignon.

Não é o primeiro caso de disputa judicial sobre os direitos de uso do nome To Kalon, considerado um dos melhores vinhedos de Napa, a principal região vinícola da Califórnia, nos Estados Unidos.

No caso The Vineyard House, o proprietário Jeremy Nickel, cujo legado familiar inclui o controle de renomadas vinícolas como Far Niente e Nickel & Nickel, reivindicava que 6,78 hectares de seus vinhedos estavam dentro da área originalmente cultivada por Hamilton Crabb no século XIX, quando aquele local em Oakville (distrito de Napa) foi batizada como To Kalon.

Mas, para a juíza Rogers, a prova de que a referida área pertencia ao vinhedo original To Kalon não foi suficiente para dar ganho de causa à The Vineyard House e manteve os registros de “To Kalon” e “To Kalon Vineyard” nas mãos da Constellation Brands, hoje proprietária da vinícola Robert Mondavi.

Afinal, por que a The Vineyard House foi até a Justiça para reivindicar o direito de registar o nome de um terroir como marca? Os vinhos que trazem a menção To Kalon no rótulo não são vendidos por preços inferiores a US$ 125. Na realidade, a grande maioria é negociada por mais que o dobro deste valor.

Na recente safra 2018, ao menos dois vinhos receberam os raros 100 pontos da publicação Wine Advocate, criada por Robert Parker, o mais influente crítico de vinhos do mundo. É fácil, então, de entender a ambição dos produtores em declarar o nome do vinhedo em seus rótulos.

“Hoje já está claro que o perfil da fruta de To Kalon é diferente, com precisão e pureza singulares dentro de Napa Valley”, diz Paulo Brammer, sócio e fundador da Enocultura, escola de vinhos sediada em São Paulo, que participou do Programa To Kalon Certificate 2018, promovida pela Robert Mondavi Winery.

E prossegue: “Hoje já se fala em diferentes setores dentro de To Kalon. À leste, produz vinhos mais austeros e longevos, com maior potencial para a cabernet sauvignon. E, à oeste, em contrapartida, os vinhos resultam mais frutados e com excelente expressão da cabernet franc.”

Em tese, diversas vinícolas poderiam reivindicar que seus vinhedos estão dentro de To Kalon, ao menos em algum momento da história. Porém, o visionário Robert Mondavi registrou os nomes “To Kalon” e “To Kalon Vineyard” como marcas de seu uso exclusivo, em 1988 e 1994, respectivamente. Essa manobra fez com que a grande maioria das disputas judiciais não obtivesse sucesso nas cortes americanas.

Vinhedos da Robert Mondavi Winery em To Kalon

O único caso de sucesso na disputa com Mondavi e sua controladora, a Constellation Brands, ocorreu com Andy Beckstoffer, que já era viticultor bem estabelecido na Califórnia, quando, diante da oportunidade, comprou da Beaulieu Vineyards, em 1993, 36 hectares de To Kalon.

Beckstoffer não costumava produzir vinhos. Ele apenas vendia a fruta para outras vinícolas, colocando o seu nome como registro de rastreabilidade de origem e qualidade. Dessa forma, um dos “cult wines” bem-sucedidos, o Schrader, produzia seu principal cabernet sauvignon com o nome “Beckstoffer To Kalon”.

Em 2002, Mondavi foi à Justiça contra a Schrader por violação de marca. Beckstoffer tomou as dores e moveu um processo contra a Mondavi, alegando que ele estava iludindo o consumidor. Seu argumento era simples: as parcelas de terras de Mondavi supostamente não pertenciam à área original cultivada por Crabb, no século XIX.

A batalha judicial terminou com um acordo em que Besckstoffer retiraria a ação, mas poderia seguir vendendo suas uvas e os compradores poderiam colocar “Beckstoffer To Kalon” no rótulo do vinho.

A poderosa Constellation Brands, que tem em seu porfólio marcas de vinhos e cervejas e vale US$ 45,9 bilhões, adquiriu Schrader em 2017 e segue comprando as uvas de Beckstoffer, mas prefere não mencionar “To Kalon” nos rótulos.

Dessa forma, Beckstoffer se tornou o único fornecedor de uvas para terceiros de To Kalon, com o devido direito de assim ser estampado no rótulo. Habilidoso com as uvas e com a contabilidade, o viticultor criou uma fórmula própria para precificar as uvas.

Primeiro, Andy estabelece que para levar seu nome, o vinho não pode ser lançado a preço inferior a US$ 125 a garrafa. Desde 2015, o viticultor calculou que o preço da tonelada da uva seria o equivalente a 175 vezes o preço pedido por uma garrafa daquele vinho que seria produzido, obedecendo ao preço mínimo por garrafa e rendimentos mínimos de quilos por planta.

Isto significa que caso um produtor resolva vender o vinho pelo preço mínimo, pagará US$ 21,87 por quilo de uva. Mas, considerando a “grife”, o potencial de vendas e o reconhecimento do vinho, a grande maioria dos produtores vende uma garrafa acima dos 300 dólares.

Observe o caso do renomado enólogo Paul Hobbs, cujo Cabernet Sauvignon Beckstoffer To Kalon é lançado com preço próximo dos US$ 500 a garrafa no mercado americano. Isto implica no pagamento de US$ 87,50 pelo quilo da uva (R$ 489 ao câmbio atual).

O Paul Hobbs Beckstoffer To Kalon Cabernet Sauvignon 2015 custa R$ 10.598

Na recente safra 2018, cujos vinhos ainda estão chegando ao mercado, dois rótulos com uvas de Beckstoffer To Kalon já receberam a nota perfeita da Wine Advocate. E a grande maioria está acima dos 96 pontos.

No Brasil, é possível encontrar vinhos da famosa região californiana. A Interfood/TodoVino, por exemplo, vende o Robert Mondavi Cabernet Sauvignon Reserve 2010 por R$ 1.225,90. O Opus One 2016 sai por R$ 7.208 na Mistral. E o Paul Hobbs Beckstoffer To Kalon Cabernet Sauvignon 2015 custa R$ 10.598 na Grand Cru.

Paraíso ameaçado

Esse “Eldorado” californiano, no entanto, está ameaçado. E o perigo não vem de disputas judiciais e da especulação imobiliária, mas sim das queimadas que têm castigado a região nos últimos anos

A resposta do governo do condado de Napa é um plano de US$ 42 milhões, que será investido nos próximos cinco anos para prevenção de incêndios.

Nos últimos anos, muitos vinhedos foram atingidos pelo fogo ou pela fumaça. Mesmo que não ocorra prejuízo direto pelo incêndio, seja no vinhedo ou na adega, a densa fumaça que fica no ar comprovadamente afeta as uvas, criando compostos aromáticos excessivamente defumados, resultando em um defeito chamado smoke taint.

As principais medidas do novo programa vão desde a melhor estruturação dos grupos de combate a incêndios até novos protocolos de evacuação para a população local, além da criação de “ilhas” de áreas descampadas, para conter a eventual propagação do fogo.

Segundo Emma Swain, CEO da vinícola St. Supéry, a indústria do vinho californiano impacta a economia americana em US$ 34 bilhões ao ano e está ligada direta e indiretamente a 40 mil empregos.

Uma história centenária

A reputação de To Kalon, no entanto precede a década de 1970, quando os vinhos californianos ficaram mundialmente conhecidos pela sua qualidade no episódio chamao de o “Julgamento de Paris”, degustação às cegas que colocou frente à frente vinhos californianos e franceses em 1976, realizada pelo crítico inglês Steven Spurrier (1941-2021).

O episódio fez com que os vinhos de Napa ficassem em pé de igualdade com os europeus (em alguns casos com vantagem). Algumas décadas depois, Robert Parker distribuiu algumas notas perfeitas (os cobiçados RP 100) para os tintos de Napa, aumentando ainda mais a fama e, consequentemente, os preços dos vinhos da região.

O vinhedo de To Kalon está no coração do vilarejo de Oakville, o setor mais nobre de Napa Valley, e tem história que remete ao século XIX, quando Hamilton Crabb saiu de Ohio e foi para a Califórnia na época da Corrida do Ouro.

Em vez arriscar a sorte no minério, Crabb notou que as uvas seriam uma aposta mais sólida no vale californiano. Vinte anos após sua chegada em Napa, em 1886, Crabb renomeou seu vinhedo de quase 100 hectares para To Kalon (“a mais elevada beleza” em grego).

A posição ideal, próximo da encosta das montanhas Mayacamas, oferece uma exposição solar que protege as videiras do tórrido sol da tarde e o solo bem drenado, com proporções ideais de cascalho, argila e calcário, criam condições ótimas para algumas variedades viníferas.

No início, Crabb usou seu vinhedo como berçário de mudas e testou nada menos que 400 diferentes cepas de videiras. Com diversos altos e baixos por mais de um século, com consolidações e divisões no terreno, o vinhedo To Kalon foi pouco a pouco ganhando fama e hoje só pode ser declarado no rótulo do vinho por dois proprietários: Andy Beckstoffer e Robert Mondavi Winery.

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