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Candido Bracher quer uma reforma tributária. Mas não a apresentada pelo governo

À frente do maior banco do País, o CEO do Itaú Unibanco diz que o aumento da carga proposto na reforma apresentada pela equipe econômica vai prejudicar a recuperação econômica no pós-crise. E critica o projeto de recriação da CPFM, ao afirmar que o imposto vai encarecer o custo do produto final

 

Candido Bracher, CEO do Itaú Unibanco

Uma reforma tributária é um pedido de dez entre entre empresários e executivos brasileiros para não só resolver o emaranhado de impostos do Brasil, como também dar mais eficiência ao sistema de arrecadação.

Mas, ao que tudo indica, não é qualquer reforma tributária. O CEO do Itaú Unibanco, Candido Bracher, aproveitou, nesta terça-feira, 4 de agosto, a teleconferência de resultados do banco, em que teve de explicar a queda de 40,2% do lucro recorrente, para R$ 4,2 bilhões, no segundo trimestre de 2020, para falar sobre o assunto.

“Uma reforma tributária deve buscar a racionalização dos impostos, dada a complexidade que nós temos”, afirmou Bracher, depois de frisar a importância do equilíbrio fiscal após a ampliação necessária dos gastos do Estado em função da crise. “E esse equilíbrio não deve ser buscado com o aumento da carga. Nesse sentido, não parece que a reforma proposta seja a ideal.”

Em meados de junho, a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) já havia tecido críticas a alguns pontos apresentados na reforma em questão. Segundo a entidade, a carga tributária sobre o setor financeiro seria ainda mais elevada com a aprovação do projeto proposto.

O principal motivo de discordância é a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) dessas instituições, cuja alíquota sairia dos atuais 4,65% para 5,8%, um crescimento de 24,4%. Em nota, a Febraban destacou ainda que a alíquota de 45% sobre a renda dos bancos é a maior do mundo.

Nesse cenário, Bracher também fez críticas ao projeto de recriação da CPMF, encampado pela equipe econômica, com a aprovação do presidente Jair Bolsonaro. “Além de não ser o imposto mais eficiente, ele prejudica muito as cadeias econômicas que têm muitos agentes e geram muitas transações”, afirmou. “Ele incide em cada elo da cadeia, o que acaba encarecendo o produto final.”

O executivo enfatizou ainda outros possíveis efeitos no médio prazo. “O governo precisa retomar as rédeas da área fiscal”, disse. “Se isso não for feito, a recuperação da economia poderá ter vida curta, em função do risco de elevação das taxas de juros.”

Entre abril e junho, o lucro recorrente do Itaú Unibanco caiu 40,2%, para R$ 4,2 bilhões, em comparação com igual período de 2019

Em entrevista ao NeoFeed, no início de junho, Bracher já havia chamado a atenção para alguns desses pontos.

“A pré-condição para a viabilidade pós-pandemia é a taxa de juros básica permanecer baixa. É isso o que permite que você recupere gradativamente a saúde econômica”, afirmou. “Vai ser muito importante, no fim desse ano, quando a dívida pública estiver possivelmente entre 90% e 100% do PIB, que possa haver confiança de que ela não crescerá fora de controle. Isso é a pré-condição para que a taxa de juros permaneça baixa.”

Na operação

Maior banco do País, o Itaú Unibanco banco destinou R$ 7,77 bilhões para o custo de crédito, frente que inclui provisões para cobrir eventuais perdas com operações no segundo trimestre de 2020.

A cifra representou uma queda de 23% em relação ao primeiro trimestre desse ano. A inadimplência, por sua vez, ficou em 2,7%, contra 2,9%, um ano antes. Bracher disse esperar que a inadimplência seja mais elevada em 2021. Mas ressaltou que os índices não estarão fora de controle.

No contexto de suas operações, o Itaú Unibanco destacou outros números diretamente relacionados à pandemia. Entre 16 de março e 17 de julho, o banco concedeu R$ 96,8 bilhões em novos créditos. O grosso desse montante, R$ 52,4 bilhões, foi destinado a grandes empresas.

Um total de R$ 17,1 bilhões ficou com as micro e pequenas empresas, enquanto as pessoas físicas responderam por R$ 14,1 bilhões e as companhias de médio porte por R$ 13,2 bilhões. O banco também destacou a liberação de R$ 3,6 bilhões de recursos dentro do Pronampe. Segundo a instituição, cerca de 36 mil micro e pequenas empresas foram beneficiadas.

No período, o banco adotou algumas políticas de flexibilização nas condições de pagamentos e empréstimos. Para as pessoas físicas, houve carência de até 120 dias e alongamento do prazo em até 6 anos. Já para micro e pequenas empresas, a carência foi de até 180 dias e o alongamento de até 5 anos.

A redução no custo de crédito em comparação ao primeiro trimestre também foi ressaltada. “Nossos modelos anteciparam bastante as provisões no trimestre passado”, disse Milton Maluhy, vice-presidente executivo do Itaú Unibanco.

“Tivemos novamente uma antecipação nesse trimestre, mas vemos uma tendência positiva de recuperação”, afirmou Maluhy. “Ainda estamos olhando com uma certa cautela, mas a expectativa é de um menor custo de crédito nos trimestres que vêm pela frente.”

Entre 16 de março e 17 de julho, o Itaú Unibanco concedeu R$ 96,8 bilhões em novos créditos

A flexibilização no modelo de trabalho foi outro tema. Hoje, mais de 55 mil funcionários do banco seguem em home office. Nas agências, está sendo adotado o sistema de rodízios. O Itaú Unibanco havia afirmado que a volta dos profissionais não aconteceria antes de 1º de setembro. Agora, esse prazo deve ser prorrogado.

“Não temos nenhuma pressa de promover esse retorno. Enquanto houver risco de contaminação, não há razão para expor as pessoas”, disse Bracher. “Mas esse formato trouxe aprendizados que vão ser incorporados ao nosso dia a dia e, certamente, não voltaremos a situação que tínhamos antes.”

A recente troca de farpas entre o Itaú Unibanco e a XP Inc., empresa na qual o banco detém 49% de participação, também foi abordada. O estopim do imbróglio foi uma campanha publicitária lançada pela instituição no fim de junho.

Na ação, o Itaú Unibanco criticava o modelo de corretoras que investem em comissões para agentes autônomos venderem determinados produtos financeiros. A XP é a maior referência desse formato no País.

“Todos os elementos que nos fizeram investir na XP seguem válidos. Até aqui, o negócio se mostrou muito lucrativo”, disse Bracher, ao observar que a compra de participação foi motivada pela possibilidade de o banco crescer no mercado de assessores, algo que tinha dificuldade em fazer diretamente.

“E, enquanto competidores, a XP nos fez melhorar. Nós abrimos nossa plataforma para outros produtos de mercado, ampliamos o número de especialistas e melhoramos nosso serviço”, afirmou. “Nós seguiremos competindo duramente e quem sairá ganhando é o cliente.”

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