Barcelona - O principal conflito global do momento, a guerra dos Estados Unidos e Irã, não parece ainda estar presente entre os principais corredores e nem nas palestras mais procuradas do Congresso Mundial de Telefonia Móvel (MWC, em inglês), que começou nesta segunda-feira, 2 de março, e chega em seu segundo dia.
Mas a questão da soberania nacional foi tratada. E isso passa pelo avanço da conectividade no mundo. Essa discussão surgiu no painel que contou com a presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, que deu um indicativo do plano ambicioso de crescimento da empresa de Elon Musk, antes da realização de uma oferta pública inicial de ações (IPO).
Enquanto seu ex-parceiro Donald Trump foca atenção em avançar casas na geopolítica e ganhar terrenos com conflitos armados, no estilo “War”, Musk não esconde que quer ganhar a corrida para “colonizar” Marte e a Lua.
E isso deve acontecer a partir de sua rede Starlink. Segundo a presidente, a empresa já opera hoje com quase 10 mil satélites em órbita terrestre e acabou de ultrapassar a marca de 10 milhões de assinantes.
Do espaço para o celular
O foco, agora, da companhia é ampliar o modelo de serviços de satélites para oferecer serviços de internet diretamente para o celular. A segunda geração do Starlink Mobile vai começar a operar em 2027.
Na prática, isso vai fazer com que a telefonia móvel deixe de depender apenas das antenas terrestres. O plano é que ele comece híbrido, funcionando como uma segunda opção para manter a conectividade do aparelho.
Carona na cauda do foguete
E, para isso, vai colocar pressão em seus foguetes. Com o modelo Starship, a empresa quer lançar mais de 50 satélites por voo. “Nosso objetivo é implementar uma constelação capaz de fornecer cobertura global contínua em seis meses. Isso representa 1,2 mil satélites”, disse a presidente.
Mas, para tudo isso dar certo, Musk vai depender de acordos com operadores locais de telefonia. E aí passa por diplomacia e conversa, temas um pouco distantes das últimas ações do bilionário.
Quem vai cuidar do poste?
Integrante da comitiva brasileira de parlamentares na MCW, o senador Espiridião Amin (PP-SC) ouviu com atenção a cobrança do CEO da Vivo, Christian Gebara, sobre a falta de uma ordenação sobre os postes de energia elétrica e que geram um custo anual de R$ 3 bilhões às operadoras de telefonia móvel.
Relator do projeto em tramitação que busca uma solução para este problema, Amin garantiu estar fazendo sua parte. Ao NeoFeed, o parlamentar afirmou que a proposta deve ser votada pela Comissão de Comissão e Justiça na semana que vem. E ainda indicou qual o ponto mais relevante de seu texto.
“A solução é descentralizar. Um município com mais de 100 mil habitantes precisa ter autoridade para cuidar do poste e fiscalizar sua organização. Essa regulamentação precisa de lei. Construí o projeto neste sentido”, afirmou o senador.
“Há 50 anos, o poste tinha três atores: o município, a empresa de energia elétrica e a de telefonia, que era estatal. Agora, há milhares de agentes que usam o poste, de forma legal e ilegal. E fica desordenado.”
Mas o parlamentar ironizou o governo e disse que é preciso tomar cuidado para que o Brasil não ganhe em breve uma estatal chamada “Postebras”, com briga pela indicação política.
Por qué no te callas?
Teve visita real no MWC. O rei Felipe VI esteve no estande de 1 mil metros quadrados (m²) da espanhola Telefônica, em uma visita de cortesia à companhia, uma das maiores do país. No espaço exclusivo, ele conheceu soluções tecnológicas apresentadas pela empresa, como o modelo de rede avançada para atuar em missões críticas, nas áreas de emergência, segurança e defesa.
Felipe é filho de Juan Carlos I, antigo monarca espanhol que esteve à frente do trono até 2014, quando renunciou, e que, em 2007, soltou a célebre frase “Por qué no te callas?” para o então presidente da Venezuela, Hugo Chavez, durante uma cúpula iberoamericana, em Santiago, no Chile.
No caso do congresso de telefonia móvel, foi o próprio rei que ficou calado. Acenou, cumprimentou executivos da companhia, ouviu com atenção, mas não disse uma única palavra. E saiu poucos minutos depois.
Lula cá
Por falar em visita de chefe de Estado, a voz corrente entre executivos brasileiros de operadoras de telefonia nos corredores do MWC é a visita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará a Barcelona, em abril, para participar de uma cúpula com a Espanha, seguida de um encontro com demais países da América Latina.
Segundo os interlocutores a par dos preparativos para a vinda da comitiva brasileira, Lula queria que o encontro fosse em Madri, mas Felipe VI insistiu para que fosse na cidade que sedia o maior encontro global de telefonia móvel.
E a razão é política: o espanhol tem mais força entre as lideranças na região da Catalunha, enquanto assiste a adversários políticos no poder na capital espanhola. Quer receber o brasileiro em um ambiente mais amistoso.
O jornalista viajou a convite da Vivo.