Paris - Invenit et fecit. No século XVIII, a inscrição em latim no mostrador de um relógio distinguia um tipo raro de relojoeiro: o mestre capaz de conceber um mecanismo e executá-lo do desenho à peça final. “Inventado e feito”, uma marca de autoria e prestígio, que separava os meros montadores dos verdadeiros criadores.
Mais de 200 anos depois, o ideal setecentista de excelência técnica, estética e artesanal encontra um de seus maiores expoentes em François-Paul Journe. Aos 69 anos, o francês grava em suas peças Invenit et fecit como uma espécie de declaração de princípios — uma homenagem ao espírito iluminista, mas também um compromisso com o presente e uma aposta no futuro.
Com essa filosofia, a F.P. Journe se tornou um dos nomes mais prestigiados da alta relojoaria. Um feito raro para uma casa independente com menos de 30 anos, em um universo historicamente reservado às manufaturas centenárias.
Primeiro veio o reconhecimento dos especialistas: a marca é a única da história a vencer três vezes o Aiguille d'Or, a distinção máxima do Grand Prix d'Horlogerie de Genève, o "Oscar" da relojoaria. Depois, veio a consagração do mercado.
Na última década, sobretudo depois da pandemia, a F.P. Journe deixou de ser objeto de desejo apenas dos mais puristas para entrar no radar dos colecionadores ultrarricos. No mercado secundário e nos leilões, a F.P. Journe é hoje um fenômeno multimilionário.
Em junho, em um evento da Phillips, em Nova York, o Chronomètre à Résonance “Souscription Nº 007” foi arrematado por US$ 13,92 milhões. Nenhum relógio comercializado em venda pública no século XXI alcançou valor tão alto.
Assim, em apenas nove minutos de disputa, o modelo da F.P. Journe chegou ao quinto mais caro do mundo em um ranking dominado por três exemplares Patek Philippe e um Rolex.
As 17 peças da marca responderam por quase 40% dos US$ 75,8 milhões arrecadados no leilão nova-iorquino, embora, em quantidade, representassem menos de 11% dos lotes.
"Como Pelé"
Em uma indústria dominada pelos conglomerados de luxo e pela produção em escala, o relojoeiro francês preserva a independência com o controle absoluto do negócio. Cerca de 95% dos componentes de seus relógios são criados e fabricados nos três ateliês da maison no cantão de Genève, na Suíça.
“François-Paul Journe é um gênio da relojoaria, equiparável a Pelé no futebol ou Mozart na música erudita”, diz ao NeoFeed Geoffroy Ader, fundador da consultoria parisiense Ader Watches, especializada em relógios de coleção.
“Desde o começo, ele apresentou uma visão diferente dos outros e conseguiu imprimir seu estilo. E, sobretudo alcançou uma qualidade de execução perfeita”, completa ele, que chefiou a divisão europeia de relojoaria da Sotheby’s.
Um dos melhores exemplos da inventividade de François-Paul é justamente o Chronomètre à Résonance, lançado em 2000.
Inspirado nos experimentos de Antide Janvier e Abraham-Louis Breguet, no século XVIII, ele resolveu um dos entraves mais antigos da relojoaria: adaptar o princípio da ressonância aos relógios de pulso e, assim, levar o grau de precisão a níveis excepcionais — um feito que durante quase dois séculos desafiou gerações de relojoeiros (veja os detalhes na sequência de imagens abaixo).
Outra criação que ilustra a habilidade do francês em transformar ideias improváveis em realidade: o FFC Prototype.
Desafiado pelo cineasta Francis Ford Coppola a desenvolver um relógio em que os dedos de uma mão marcassem as horas, o relojoeiro levou quase uma década para chegar à peça. A inspiração veio das próteses criadas pelo médico francês Ambroise Paré no século XVI.
Lançada em 2021, ela foi leiloada por US$ 10,75 milhões em 2025, tornando-se, na época, a mais valiosa da história da F.P. Journe.
"Pérolas aos porcos"
Nascido em Marseille, François-Paulo era o típico enfant terrible. Indisciplinado, foi expulso de várias escolas e não tinha nenhum interesse pelos estudos. Aos 14 anos, foi enviado para uma escola técnica de relojoaria em Paris. Entre turbilhões e complicações mecânicas, encontrou sua vocação.
Depois, trabalhando com o tio Michel Journe na restauração de relógios antigos, apaixonou-se pela cronometria clássica e conheceu a elite dos colecionadores parisienses.
Nas décadas de 1980 e 1990, desenvolveu mecanismos para grandes marcas, mas, frustrado ao ver projetos engavetados por razões comerciais, decidiu abrir o próprio ateliê. Dizia-se "farto de dar pérolas aos porcos".
Mas ele precisava de dinheiro para começar. Como François-Paul se recusava a abrir mão da liberdade criativa em troca de investidores, voltou a olhar para o passado e fez como Breguet depois da Revolução Francesa.
Reuniu um pequeno grupo de colecionadores, que antecipou 50% do valor do Tourbillon Souverain, seu primeiro modelo comercial. Com esses recursos, produziu 20 exemplares numerados e fundou oficialmente a F.P. Journe, em 1999.
No ano seguinte, ao trabalhar em seu segundo modelo, o Chronomètre à Résonance, o relojoeiro criou uma série exclusiva, a Souscription, reservada aos mesmos 20 clientes. Era um reconhecimento à importância deles para o nascimento da marca.
Com o gesto, François-Paul transformou uma estratégia de financiamento em um pacto de confiança e, consequentemente, de fidelidade.
"Ciência fossilizada"
A preocupação quase obsessiva de François-Paul com a independência da F.P. Journe levou o empresário a uma decisão aparentemente paradoxal.
Em 2018, ele vendeu 20% da relojoaria à Chanel. "Caso algo me acontecesse, sei que alguns oportunistas teriam vindo rondar meus filhos. Com a Chanel, fico tranquilo", disse ao portal francês The Good Life.
Além de oferecer segurança financeira, a grife é entusiasta da preservação do savoir-faire da artesania de luxo e dos ofícios raros — valores centrais para a F.P. Journe.
Nas oficinas do relojoeiro, um único artesão é responsável por produzir cada relógio; do início ao fim.
"É isso que faz a diferença: François-Paul Journe é um artesão a serviço da relojoaria", diz Ader. "As outras marcas independentes são indústrias a serviço da relojoaria."
Enquanto a F.P. Journe produz pouco mais de mil relógios por ano; a Audemars Piguet, por exemplo, fabrica cerca de 51 mil.
A lista de espera por um modelo novo pode chegar a cinco anos. E conseguir um lugar nela depende também de convencer as equipes do relojoeiro de que o interesse pela marca não é apenas ostentatório ou especulativo.
Quando decidiu se lançar como relojoeiro independente, François-Paul ouviu de Jean-Claude Biver, tido como um dos gênios da gestão da alta relojoaria contemporânea:
"No luxo, um mais um tem de ser igual a três. Se um mais um for igual a dois, é um produto comum. Se for igual a três, passa a ser arte e gera desejo".
Ao combinar independência, excelência técnica, primor estético e raridade, os relógios da F.P.Journe valem muito mais do que a soma de seus materiais e de sua mecânica.
"A relojoaria, mesmo a que eu faço, é uma ciência fossilizada, porque não precisamos mais dela", costuma dizer François-Paul. “Brincamos com conceitos completamente inúteis dos séculos XVIII e XIX, mas que fazem as pessoas sonharem." Invenit et fecit.