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A democracia americana virou brincadeira de gente grande

Juristas, congressistas, historiadores e outros renomados profissionais americanos se reuniram em um jogo de RPG para avaliar quais os possíveis cenários caso Trump se recuse a deixar a Casa Branca. Spoiler: nenhum dos desfechos hipotéticos seria pacífico ou desejável

 

Jogo aconteceu por videoconferência, e demorou quase cinco horas

Nem todo jogo é uma brincadeira. Alguns, inclusive, são usados para finalidades bastante sérias, como traçar estratégias de defesa nacional – e não apenas por militares. O grupo civil apartidário Transition Integrity Project que o diga.

A equipe, composta por juristas, cientistas políticos, jornalistas, congressistas, economistas e outros renomados profissionais americanos, democratas e republicanos, se reuniu para vivenciar um jogo de RPG chamado Matrix, em que os participantes simulam diferentes cenários.

A ideia é imaginar tudo o que pode acontecer, caso o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeite o resultado das eleições presidenciais, em novembro. Ao explorar todos os cenários, é mais fácil se preparar para um deles.

Alerta de spoiler: nenhum dos desfechos hipotéticos levantados pelo projeto seria pacífico ou desejável, terminando inevitavelmente em violência ou impasse político. 

A reunião desse time de “peso”, que inclui gente do calibre de Michael Steele, ex-chairman do Comitê Republicano Nacional; John Podesta, que liderou a campanha de Hillary Clinton em 2016; e Jennifer Granholm, ex-governadora de Michigan, nasceu a partir de uma inquietação da advogada e professora de direito da Universidade de Georgetown, Rosa Brooks.

“Eu estava jantando em Washington DC com um amigo juiz federal e outro que é um consultor de uma grande empresa. Então, hipoteticamente, perguntei – ‘e se o Trump perder, mas se recusar a sair?’ O juiz imediatamente disse que aquilo seria impossível, porque o exército interferiria, enquanto o outro afirmou que o Serviço Secreto também seria acionado”, disse Brooks, em entrevista à rádio estatal americana WBUR

Foi a rápida presunção dos colegas que desengatilhou as questões fundamentais: “O que você quer dizer com ‘o exército interferiria’? De qual exército estamos falando e como seria sua resposta?”, indagou Brooks.

A professora logo percebeu que suas dúvidas eram válidas – mas não exclusivas. Outros colegas passaram a discutir esses desdobramentos no cenário político, econômico e social, caso Trump levasse a sério sua brincadeira de continuar no poder.

Meses atrás, o candidato à reeleição disse a jornalistas que não deixaria a Casa Branca, mesmo se perdesse a contagem das urnas americanas. Em junho de 2020, em entrevista à Fox News, Trump reafirmou se tratar de uma piada, dizendo que deixaria o escritório e “seguiria com sua vida”, caso não fosse reeleito.

Em todas as pesquisas conduzidas por agências americanas, o democrata Joe Biden aparece como favorito, sendo a maior diferença, a de 15 pontos, registrada pelo The Washington Post. Segundo o jornal, Biden tem 55% das intenções de voto, enquanto Trump conta com apenas 40%. Já a Fox News mostra uma corrida mais apertada, com Biden com 49% das intenções de voto e Trump com 41%.

Pesquisas à parte, o republicano tem usado coletivas de imprensa e seu perfil no Twitter para colocar em xeque o processo eleitoral americano, dizendo não confiar no voto feito pelos Correios, como sugerem democratas e especialistas. O voto “por carta” seria uma maneira de honrar o cronograma eleitoral sem colocar a população em risco de contágio, por conta da pandemia do novo coronavírus.

Trump voltou às redes sociais na última quinta-feira, 30 de julho, para defender seu ponto de vista. “Com o voto pelos Correios, a eleição de 2020 vai ser a mais imprecisa e fraudulenta da história. Vai ser vexaminoso para os EUA. Adiem a eleição até que as pessoas possam votar propriamente, com segurança.”

Como presidente, Trump não tem autoridade para mudar a data da eleição. A constituição americana dá aos Estados o direito de estabelecer “horário, local e regras” para o processo democrático, e apenas o Congresso tem autonomia para alterar essas decisões. 

Curiosamente, o próprio candidato, que é um ferrenho crítico ao voto pelos Correios, já usou esse recurso duas vezes. De qualquer forma, a ideia de tê-lo na Casa Branca por mais tempo do que o esperado – e o permitido por lei –, foi suficiente para promover o debate entre republicanos e democratas, organizado pela professora Brooks na segunda semana de junho. 

Por e-mail, sua equipe explicou ao NeoFeed que esse jogo de RPG tem como ponto de partida a consideração de um cenário – no caso, o desejo de Trump de permanecer no poder. “Então dividimos o grupo em times: um ‘interpretou’ a equipe de campanha de Trump, outro a de Biden. Uma equipe fez o papel da imprensa, outro da população e assim por diante. 

Como em um jogo “convencional”, cada time tem direito a fazer uma jogada. Por exemplo, os membros da campanha de Trump anunciam que fariam determinada ação para obter um resultado e explicam sua estratégia usando seus argumentos.

“Essa jogada poderia ser pedir a recontagem dos votos, ou abrir um processo para suspender a contagem das urnas de Michigan ou qualquer que seja a estratégia para conseguir o seu objetivo – continuar no poder”, explica. 

A partir disso, os outros times fazem suas jogadas e reagem à movimentação dos demais times, utilizando conhecimentos e experiências reais.

Mas há também o elemento da aleatoriedade – levado em conta nessa partida também. Dependendo da jogada e dos comentários a partir de uma determinada estratégia, os árbitros poderiam decidir se a chance de sucesso era de 20%, 50% ou 80%.

“Dependendo dessa avaliação, o juiz poderia jogar os dados para decidir. Usamos um dado com dez facetas para determinar coisas das quais não temos muito controle, como a decisão de um tribunal ou se a recontagem das urnas funcionou.”

O jogo tem diferentes etapas e fases, porque a movimentação de uma única equipe impacta em todas as outras. Ao longo de quatro ou cinco horas, esse exercício, que envolveu um número não divulgados de profissionais, permitiu simular o que aconteceria no mundo real no decorrer de semanas ou meses após a eleição. 

Além de co-organizar o Transition Integrity Project, o historiador Nil Gilman participou ativamente do jogo e, ao NeoFeed, indicou os maiores aprendizados a partir da experiência. “Eu diria que percebemos quatro coisas – primeiro, a menos que Biden vença com muita folga, haverá uma crise constitucional e provável violência política”, diz ele.

“Segundo, está bastante claro que Trump tem maneiras perfeitamente legais de contestar a eleição se ele e o Partido Republicano optarem por trilhar esse caminho. Depois, Biden e sua equipe precisam entender que as eleições só acabam mesmo no dia da posse. E, por fim, nem a Suprema Corte e nem os militares desejam esse cenário.”

Desde que as notícias do Matrix e do Transition Integrity Project, que reúne profissionais renomados em um jogo de RPG, ganharam a atenção da mídia, muitas pessoas criticaram a iniciativa, dizendo se tratar de uma espécie de brincadeira “apocalíptica” e reafirmaram que os EUA têm mecanismos para protegem a democracia. 

A essas pessoas, Gilman explica que “Trump não precisa ganhar as eleições, apenas criar uma narrativa plausível em que ele não seja o perdedor”. Tanto Gilman quanto Brooks cogitam organizar novas rodadas do jogo, mas não deixam claro se vão abrir a experiência ao público. De qualquer forma, os interessados podem buscar na internet formas de repetir a “brincadeira” com amigos, aplicando-o para outras situações.

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