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A economia está “uberizada”? É para lá que vai a fintech Consiga+

Fundada por profissionais que trabalharam em grandes bancos, a fintech Consiga+ investe em uma área ainda inexplorada no País: a oferta de empréstimos consignados para motoristas de Uber, entregadores de aplicativos, profissionais de TI e outros prestadores de serviço

 

Victor Loyola, sócio e cofundador da Consiga+

A oferta de crédito é um território cada vez mais explorado pelas fintechs na trilha para desafiar os grandes bancos. Nessa trincheira, as taxas mais atrativas e os modelos menos burocráticos são algumas das armas para atrair correntistas ou mesmo aqueles que hoje estão à margem do sistema financeiro.

Fundada em 2018, a Consiga+ escolheu como campo de batalha o segmento de crédito consignado privado, com parcelas deduzidas diretamente da folha de pagamento. E agora está levando esse modelo para uma fronteira ainda inexplorada.

“Vamos abordar o motorista da Uber, a consultora da Avon, o profissional de tecnologia, os caminhoneiros”, diz Victor Loyola, sócio e cofundador da Consiga+. “Estamos focando as pessoas que têm renda e vínculo com uma empresa, mas que não são CLTs.”

Impulsionado, especialmente, pelo empreendedorismo por necessidade, o mercado potencial à frente é amplo. Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o País encerrou janeiro com 11,7 milhões de trabalhadores sem carteira assinada.

Para buscar o crédito na oferta desenhada pela Consiga+ não é necessário que o profissional tenha uma empresa constituída. Apenas uma renda recorrente e um vínculo de trabalho. A startup está costurando um formato no qual a empresa ligada a esse prestador de serviço estará ciente desse processo.

O produto entrou em teste neste mês. O foco inicial são os profissionais de tecnologia da informação (TI), um setor onde esse modelo de contratação é bastante difundido e a renda é alta, bem como a taxa de empregabilidade.

Para alcançar esse perfil, a Consiga+ fechou uma parceria com uma companhia, de nome não revelado, que responde pelas folhas de pagamento de 400 empresas de TI. Depois de um período de dois meses de testes, o plano é expandir a oferta. Nessa lista, o próximo filão são os motoristas, entregadores e demais profissionais ligados a aplicativos.

Modelo

Nessa fase inicial, a startup está definindo as funcionalidades que serão incluídas no produto. Em seu modelo tradicional, a companhia fecha contratos com empresas que passam a oferecer a opção de crédito atrelada ao desconto da parcela no salário do funcionário.

Atualmente, a Consiga+ contabiliza R$ 86 milhões em crédito concedido para 410 mil funcionários de 60 empresas. Entre elas, companhias como a Prosegur, de segurança, e a NeoBPO, de terceirização de serviços e call center.

Atualmente, a Consiga+ contabiliza R$ 86 milhões em crédito concedido para 410 mil funcionários de 60 empresas

Para financiar sua oferta, a Consiga+ tem dois fundos constituídos. O primeiro deles, de R$ 110 milhões, com a Osher, que também detém 50% na fintech. Os 50% restantes estão divididos entre Loyola e os demais sócio-fundadores, ex-executivos com passagens por empresas como Citibank e HSBC. Já o segundo fundo, de R$ 25 milhões, tem como parceira a gestora de investimentos Valora.

O processo para solicitar um empréstimo é realizado via aplicativo. A análise de risco passa por variáveis como o índice de rotatividade da companhia, o tempo de casa do funcionário e informações pessoais desse profissional.

A fintech oferece opções com parcelas de 3 a 60 meses. Os juros seguem a taxa média do setor, de 2,5% ao mês. “Mas, na contramão dos bancos, nós operamos com todos os setores, mesmo os mais nervosos e com alta rotatividade, como os call centers”, diz Loyola. “E oferecemos empréstimo a todos os funcionários, inclusive para quem estiver negativado.” Nesse caso, a taxa média de juros mensal é de 3,8%.

O fato de estar vinculado ao desconto da parcela no salário permite a oferta de taxas mais atrativas na comparação com outras opções de crédito pessoal. Na modalidade do crédito não consignado, por exemplo, a taxa mensal praticada no mercado é, em média, de 6,1%, segundo o Banco Central.

Apesar das taxas reduzidas, o segmento ainda é pouco explorado no Brasil. Segundo as estatísticas mais recentes do BC, do estoque total de R$ 388,6 bilhões de crédito consignado no País, em janeiro, apenas R$ 23,2 bilhões eram de crédito consignado privado.

“Assim como qualquer produto financeiro, essa modalidade é dominada pelos grandes bancos”, diz Sergio Tavares, fundador da consultoria financeira STavares. “E para eles não é interessante que essa oferta se sobreponha a outras modalidades de crédito mais rentáveis em suas carteiras.”

Assim como a Consiga+, outras empresas vêm investindo nessa vertente. Além dos grandes bancos, o Banco Votorantim (BV) é o principal nome nesse mercado. A Creditas é mais uma fintech de olho no segmento. Depois de estrear na área com a aquisição da Creditoo, em 2019, a companhia fechou uma parceria recentemente com a Totvs para impulsionar essa oferta.

Leque ampliado

Para marcar terreno e escalar o crédito consignado privado, a Consiga+ tem investido no desenvolvimento de ofertas atreladas ao seu negócio principal. Além do novo produto para quem trabalha por conta própria, a empresa já tem no portfólio outras alternativas.

As empresas que contratam os serviços da startup têm a possibilidade de oferecer aos seus funcionários uma plataforma de benefícios e descontos, por meio de uma parceria com a NewValue. A Consiga+ também conta com um curso de educação financeira, disponível em 16 módulos e que pode ser customizado por essas companhias.

“O crédito é o que move a nossa roda”, diz Loyola. “Mas estamos incorporando novas funcionalidades para sermos cada vez mais atrativos para o RH das empresas.” Ele não descarta aquisições de empresas que possam encorpar sua oferta.

Sob essa estratégia, a Consiga+ começa a testar, a partir de abril, o financiamento de produtos por meio do crédito consignado privado. O foco inicial será o parcelamento para a compra de celulares. Na sequência, a empresa vai incorporar categorias como produtos de linha branca e viagens.

Além desse pacote adicional, a Consiga+ aposta na bagagem do time de fundadores da startup nesse segmento. Com mais de 20 anos de experiência no mercado e passagens por empresas como HSBC, Barclays e Serasa Experian, Loyola construiu boa parte de sua carreira, no Brasil e no exterior, no Citibank.

Em 2013, quando o Citibank desativou sua área de crédito consignado, ele seguiu no mercado, como diretor do HSBC. Mas, ao lado de Leandro Molina e Alexandre Olivera, ex-colegas do banco, desenvolveu, paralelamente, o embrião do que seria a Consiga+, ao prestar serviços na modalidade para a Porto Crédito, uma financeira de pequeno porte.

Quando a parceria alcançou uma carteira de R$ 80 milhões, o trio decidiu que era hora de dar um passo à frente. “Sempre tivemos o desejo de tocar o negócio por conta própria”, diz Loyola. “Naquele momento, gerávamos caixa. Mas nenhum valor. Se a Porto fosse vendida, não teríamos nenhuma participação.”

A oportunidade veio no fim de 2017, quando a Osher mostrou interesse na parceria. Depois de seis meses de namoro, o acordo foi fechado em abril de 2018. No início de novembro daquele ano, a Consiga+ fez seu primeiro empréstimo.

Na época, eram apenas três empresas na carteira. E Loyola ainda dedicava boa parte de seu tempo ao cargo de diretor, agora na Serasa Experian. Em janeiro de 2019, ele decidiu, no entanto, que a startup exigia sua máxima atenção.

As projeções para esse ano dão a medida de como o negócio evoluiu. Sem levar em conta os novos produtos em desenvolvimento, a Consiga+ projeta fechar 2020 com uma base de 100 empresas, 700 mil CPFs e uma carteira de R$ 240 milhões em empréstimos. “É um volume que não nos coloca no radar dos bancos, mas que para a nossa operação é muito relevante”, diz Loyola.

Se o montante ainda não representa uma ameaça aos grandes bancos, outras cifras chamam a atenção. A empresa chegou ao equilíbrio financeiro já em seu terceiro mês de operação. Em 2019, a empresa apurou uma receita líquida de R$ 23 milhões, com um lucro líquido de R$ 3,5 milhões.

Para esse ano, a projeção é chegar a uma receita de R$ 90 milhões e reportar R$ 30 milhões na última linha do balanço. “Somos uma fintech com asterisco”, afirma Loyola. “Entramos na competição, mas não cometemos insanidades. E não estamos dispostos a sacrificar nossa sustentabilidade por volume.

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