A surreal discussão que viralizou na internet: o Robinhood traiu a "causa"?

Chamado de rato e mentiroso pelo influenciador Dave Portnoy, o CEO do Robinhood, Vlad Tenev, tentou explicar por que a plataforma interrompeu as negociações de alguns papéis durante a chamada “revolta das sardinhas”. Pela primeira vez, Tenev admitiu que a saúde financeira do app esteve em risco

0
203
Leia em 4 min

Dave Portnoy (à esq.), do canal Barstool Sports, e Vlad Tenev, CEO do Robinhood

“Você sabe que todo mundo que está aqui nos assistindo te odeia, certo?” Foi com essa pergunta que Dave Portnoy, criador do portal americano de notícias esportivas Barstool Sports, recebeu Vlad Tenev, CEO do aplicativo de investimentos Robinhood, para uma entrevista em seu canal no Youtube, na quarta-feira.

“É o que eu ouvi, mas, olhe, estou feliz de estar aqui e espero que eu possa responder muitas dessas questões”, devolveu Tenev, com um sorriso desconfortável, que o acompanhou em muitos trechos da entrevista, apesar da calma demonstrada durante toda a conversa.

A escolha do canal de esportes pode parecer inusitada, mas Portnoy se tornou um porta-voz dos investidores de varejo assim que decidiu olhar para o mercado de ações, logo no início da pandemia, quando muitas competições foram canceladas.

Seu perfil no YouTube tem quase 800 mil seguidores e o Barstool Sports, criado por ele, já recebeu um aporte de US$ 163 milhões da operadora americana de cassinos Penn National Gaming para explorar apostas online dentro da plataforma.

Na conversa de 38 minutos, os dois personificaram o dilema vivido pelo Robinhood desde o fim de janeiro, a partir dos desdobramentos da “revolta das sardinhas”, movimento no qual usuários do fórum online Reddit orquestraram uma ação conjunta para valorizar as ações de empresas em dificuldades financeiras, como a varejista de videogames GameStop, causando prejuízos a fundos hedge.

De um lado, o grupo dificilmente teria concretizado seus planos sem o app, que ficou conhecido por seu discurso de democratização dos investimentos ao dar acesso a quem tinha poucos recursos e oportunidades para entrar nesse mundo.

Ao mesmo tempo, na esteira dos acontecimentos da “revolta das sardinhas”, a decisão do Robinhood de bloquear ou limitar o acesso a determinadas ações, entre elas, da GameStop, enfureceu os usuários. De herói, o aplicativo com 13 milhões de usuários tornou-se, rapidamente, um grande vilão para esse público.

Portnoy, que até pouco tempo era um grande defensor do Robinhood, disse que perdeu US$ 700 mil com o bloqueio. Nas redes sociais, escreveu que Tenev e a empresa “roubaram dele e que deveriam estar todos presos”.

Momentos antes da conversa com o CEO do Robinhood, ele chamou Tenev de “rato” e “mentiroso”. E o acusou de trair a missão do aplicativo, de servir os investidores do varejo, para proteger a empresa.

Apesar dos insultos, ele fez as perguntas que martelaram nas cabeças dos investidores: por que o Robinhood bloqueou as negociações? O Robinhood teria problemas de liquidez?

Após muita pressão, Tenev admitiu que a empresa teria enfrentando problemas no dia seguinte à impopular decisão se não tivesse bloqueado as negociações.

“Acreditamos que proteger a empresa foi a melhor decisão”, disse Tenev. “Se o Robinhood simplesmente deixasse de existir, nossos clientes estariam em uma posição ainda pior”, afirmou, rebatendo a crítica de Portnoy de que os usuários não foram a prioridade da plataforma em meio à crise.

O fato é que, depois de Tenev afirmar em entrevistas à TV americana que liquidez não era uma preocupação, entre o fim de janeiro e os primeiros dias de fevereiro, o Robinhood fez uma captação emergencial de US$ 3,4 bilhões – cifra maior do que os US$ 2,2 bilhões que o aplicativo de investimentos havia captado desde a sua fundação, em 2013, com fundos como Sequoia Capital e DST Global.

Responder aos ataques que a empresa tem sofrido nas últimas semanas é algo que vem ocupando cada vez mais o tempo do executivo. O bloqueio imposto irritou não apenas os usuários. As críticas à decisão do aplicativo alcançaram outras fronteiras.

“Isso é inaceitável. Precisamos saber mais sobre a decisão do app Robinhood de barrar investidores de varejo de comprar certas ações, enquanto fundos de hedge são livres para negociar os papéis que bem entenderem”, escreveu no Twitter a democrata Alexandria Ocasio-Cortez. Em apoio à deputada, o senador republicano Ted Cruz foi um dos nomes que compartilharam o tuíte.

Na transmissão, Tenev culpou a “profunda vulnerabilidade sistêmica do mercado financeiro” e acrescentou que o ocorrido “não foi apenas um problema exclusivo do Robinhood”. De fato, outros pares da empresa seguiram o mesmo caminho, entre eles, a Webull Financial e a E*Trade Financial.

Portnoy, visivelmente irritado, aproveitou a oportunidade para fazer outros insultos e criticou até o corte de cabelo de Tenev, dizendo que ele parecia “ridículo” quando testemunhou no Congresso, neste mês, sobre o caso.

“Eu estou usando um boné justamente porque você fez piada com meu cabelo”, respondeu Tenev, rindo. Portnoy retrucou. “Hoje ele está normal, mas parecia que você tinha escalpelado alguém e colocado uma peruca”, disse.

Brincadeiras e alfinetadas à parte, ao que tudo indica, mudar a imagem arranhada da empresa não será uma tarefa fácil para o executivo.

A conversa entre os dois pode ser assistida no canal do Barstool Sports.

Leia também

Brand Stories