Após aporte do BTG, Gran Cursos compra universidade e entra em ensino superior

Depois de conquistar 462 mil alunos em cursos preparatórios para concursos, o Gran Cursos Online compra a UniBagozzi, de Curitiba, para disputar o concorrido mercado de ensino superior com Cogna, Yduqs, Ser Educacional, Ânima e Uniasselvi/UniCesumar

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A UniBagozzi foi fundada em Curitiba, em 2001

Pouco mais de um ano depois do fundo de impacto do BTG Pactual investir no Gran Cursos Online, considerada a “Netflix dos concursos públicos”, a edtech está fazendo sua primeira aquisição e entrando em ensino superior, um mercado povoado de peixes graúdos como Cogna, Yduqs, Ser Educacional, Ânima e Uniasselvi/UniCesumar.

A companhia, fundada por Gabriel Granjeiro e Rodrigo Calado em 2012, está comprando a UniBagozzi, de Curitiba, em um negócio de valor não revelado. O plano é investir R$ 150 milhões nos próximos três anos, usando a geração de caixa própria e parte dos recursos do investimento do BTG  (que não foi divulgado) para capacitar a empresa para oferecer sob a marca Gran Cursos diversos cursos online.

“Vamos competir com os gigantes do mercado”, diz Granjeiro, com exclusividade ao NeoFeed. “Essas empresas estão fazendo uma transformação de foco do presencial para o digital. Nós já nascemos digitais e temos uma plataforma pronta que foca na experiência do aluno.”

A UniBagozzi é uma instituição tradicional de Curitiba, fundada em 2001, que fazia parte da rede de ensino OSJ, que tem mais de 70 anos no setor. Atualmente, conta com pouco mais de mil alunos presenciais e online em disciplinas como gestão, engenharia, tecnologia de informação e educação, sociedade e ambiente.

No ano passado, a UniBagozzi se transformou em um centro universitário, o que lhe deu autonomia para criar e desenvolver cursos sem precisar esperar autorização do Ministério da Educação, algo que é considerado fundamental para a estratégia do Gran Cursos Online. É isso que explica o interesse da edtech em uma operação com baixo número de alunos.

O plano é, a partir de 2023, começar a criar diversos cursos e escalar a graduação em áreas como tecnologia, gestão, psicologia, administração, engenharia e direito (assim que for autorizado a modalidade online pelo Ministério da Educação). Outros cursos devem ser formatados pelo Gran Cursos ao longo deste ano. O foco será sempre o ensino online.

A ideia é oferecer cursos com apelo para o mercado de trabalho, mesclando disciplinas teóricas com bastante prática. “No curso de gestão e administração, vamos trazer empreendedores de sucesso que tem uma história para contar e validar as disciplinas”, afirma Calado, que é também vice-presidente e CTO do Gran Cursos Online.

Outro exemplo dessa visão deve ser aplicada no curso de ciência da computação, uma das áreas que mais emprega profissionais no Brasil e que enfrenta escassez de mão de obra. No último ano do curso, o objetivo é especializar o aluno em áreas como DevOPs, desenvolvedor, arquiteto, gestão, engenheiro de dados, design, segurança, entre outras funções que interessam ao mercado de trabalho.

Os fundadores do Gran Curso Online: Gabriel Granjeiro (à esq.) e Rodrigo Calado

No ensino superior, o Gran Cursos Online seguirá um modelo similar ao usado em seus cursos preparatórios para concursos públicos e provas profissionais, como exames da ordem dos advogados e de residência em saúde, áreas nas quais conta atualmente com 462 mil alunos – nos últimos 10 anos, 1,4 milhão de estudantes passaram pelo Gran Cursos Online.

A infraestrutura para criar esses cursos em ensino superior já está pronta. A edtech conta com 18 estúdios de tevê em Brasília (DF), onde fica a sede da empresa. Além disso, ela tem 50 home studios, para que professores gravem suas aulas de casa. O acervo de conteúdo dos mais de 26 mil cursos preparatórios para concursos e provas profissionais contabiliza 142 mil videoaulas e mais de 33 mil livros digitais.

O Gran Cursos Online passou a oferecer pós-graduação em áreas como direito público, saúde pública, gestão e governança de tecnologia, em parceria com a Unimais, no ano passado. Em pouco tempo, conquistou 20 mil alunos. Com a compra da UniBagozzi passará a ter certificação própria.

Ao entrar em ensino superior, a empresa se colocou uma meta bastante ousada: conquistar 1 milhão de alunos até 2026. Em dois anos, o plano é que essa área seja o segundo maior negócio da edtech – hoje, os cursos preparatórios, a origem da empresa, são a mais importante fonte de receita da companhia, seguido de pós-graduação. O faturamento, no entanto, não é divulgado.

Não será exatamente uma missão fácil para o Gran Cursos Online conseguir um lugar ao sol em ensino superior, apesar de ser uma das áreas que mais crescem no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), dos mais de 3,7 milhões de ingressantes no ensino superior de 2020 (dado mais atual), mais de 2 milhões (53,4%) optaram por cursos a distância.

Mais de 2 milhões de estudantes optaram por cursos a distância no Brasil em 2020 (dado mais atual), segundo o Inep

Os principais competidores são instituições com capital aberto na B3. É o caso da Cogna, que tinha 656 mil alunos online em seu braço de ensino superior Kroton no primeiro trimestre de 2022. A Yduqs, dona da Estácio e Ibmec, somava 961 mil alunos virtuais (sendo que 438 mil deles eram da QConcursos, uma rival do Gran Cursos Online na área de concursos). A Uniasselvi/UniCesumar, que uniram as operações no ano passado, tinham 755 mil alunos online. A Ser Educacional, por sua vez, contava com 194,1 mil estudantes em EAD. E a Ânima, 80 mil.

“A pandemia acelerou o ensino online, mas essa é uma área que não para de crescer há 10 anos”, diz William Klein, CEO da consultoria Hoper Educação. “Há ainda espaço para avançar e os ativos mais disputados para M&As são os de centros universitários pela facilidade de criar novos cursos.”

Para atingir a meta de 1 milhão de alunos, o Gran Cursos acredita que parte de sua base de alunos que já cursam à plataforma pode migrar para o ensino superior. A companhia vai usar ainda a força de suas redes sociais, que somavam mais de 5 milhões de inscritos, para atrair mais estudantes. Só no YouTube são 1,9 milhão seguidores. No Instagram, 2,1 milhões. O site teve 17,1 milhões de acessos em março, segundo estimativas do SimilarWeb

Outra ponto será o preço da mensalidade. A estimativa é que ela fique na casa dos R$ 150. A média do mercado foi de R$ 250 em 2021, segundo um estudo da Hoper Educação. “Por conta da escala, o valor vai ser superacessível”, justifica Granjeiro. Hoje, nos seus cursos preparatórios para concursos públicos e provas profissionais, o valor médio do tíquete é de R$ 100, o que dá direito ao aluno consumir quantos cursos desejar.

O desafio do Gran Cursos Online, assim como de seus competidores, é oferecer cursos com qualidade. “Houve um crescimento exponencial de matrículas nos cursos EAD, mas isso não significa ganho de qualidade”, afirma Carlos Monteiro, sócio da consultoria de educação CM. “Muitos oferecem o mesmo curso presencial.”

Neste ponto, o argumento do Gran Cursos Online é que UniBagozzi tem nota 5, a máxima do Ministério da Educação, e que 60,5% de seu corpo docente é composto de mestres e 7,5% de doutores. Além disso, o plano é usar os recursos do BTG Pactual para investir também em tecnologia associada à educação.

Se a edtech fizer bem a lição de casa, poderá transpor tudo isso para o ensino superior. Brigar de igual para igual com os peixes graúdos do setor, só o tempo dirá se será possível.

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