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ARTIGO: Competição, mais fácil na China do que no Brasil

Um olhar sobre os fatores por trás do desenvolvimento da China e seus paralelos e diferenças com o mercado brasileiro. Confira a opinião de Sergio Saraiva, presidente do Rappi no Brasil

 

A pandemia teve, definitivamente, um grande impacto sobre o e-commerce. No Brasil, a atividade movimentou R$ 38,8 bilhões no primeiro semestre de 2020, o que significa um aumento de 47% em comparação com o mesmo período de 2019, segundo o Webshoppers, estudo elaborado semestralmente pela Ebit|Nielsen, em parceria com a Elo.

Como parte desse crescimento, estão as plataformas digitais de delivery, que se tornaram imprescindíveis para os consumidores cumprirem a quarentena recebendo no conforto do lar produtos e serviços com bastante segurança e conveniência.

Se os números se confirmarem, podemos considerar que, em todo o ano, o setor tenha movimentado mais de R$ 80 bilhões, o equivalente a US$ 15,5 bilhões. Naturalmente, não só o Brasil, mas o mundo todo ainda está muito distante dos números da China, o maior mercado global para o comércio online, com cerca de 1 bilhão de compradores digitais.

De acordo com uma pesquisa da consultoria eMarketer, o e-commerce chinês deve ter transacionado, em 2020, US$ 2,5 trilhões, quase US$ 1 trilhão a mais do que a soma do restante dos países.

As extraordinárias cifras chinesas mostram que ainda há muito espaço para as empresas brasileiras crescerem no ambiente “online to offline”. Esse é um modelo que rapidamente cria novos mercados no mundo todo. Mas, para isso, é preciso facilitar o desenvolvimento das plataformas digitais.

Os especialistas indicam cinco fatores fundamentais que cada país deve oferecer: uma boa estrutura de internet; smartphones acessíveis; infraestrutura ferroviária ou rodoviária; logística ágil; e uma carga tributária adequada.

Nos cinco anos em que vivi na China, entre 2006 e 2011, pude testemunhar como são feitos os negócios e como os governantes planejam os caminhos do futuro. Fui para lá, depois de duas temporadas de estudos nos Estados Unidos e uma de trabalho no Peru, para cuidar da área de tecnologia da InBev, com o objetivo de integrar seis negócios chineses que o grupo havia adquirido ao longo do tempo.

Posteriormente, em 2008, quando a InBev adquiriu a Anheuser-Busch, fabricante da Budweiser nos Estados Unidos, acumulei também a área de RH e Gestão, com o grande desafio de coordenar a integração de processos e culturas distintos. Ao final desse período, somavam-se 45 mil funcionários apenas na China.

Além da cultura das empresas, com backgrounds brasileiro/europeu e norte-americano, estávamos lidando com a cultura chinesa. De um modo geral, o empregado chinês trabalha com “cabeça de dono”. Quer que a empresa prospere, ao mesmo tempo em que ele próprio cresce profissionalmente.

Há razões para isso. Em um país com 1,3 bilhão de habitantes e desequilíbrio numérico entre as gerações – são quatro avós, dois pais e apenas um filho – o sistema de aposentadoria é fraco.

O empregado chinês trabalha com “cabeça de dono”. Quer que a empresa prospere, ao mesmo tempo em que ele próprio cresce profissionalmente

O chinês tem que trabalhar muito para sustentar a si próprio e a família. Precisa ainda ser melhor que seu vizinho para juntar dinheiro ao longo da vida e se aposentar. Em resumo, tem de mostrar à sociedade que é competente no trabalho e financeiramente sólido.

O chinês trabalha tão duro que, com uma jornada de 48 horas por semana, é comum as fábricas terem dormitório para acomodar trabalhadores de outras regiões.

A maior fábrica na China tem 450 mil empregados e é uma verdadeira cidade, com linhas de ônibus, dormitórios, hotéis para visitantes, instalações de lazer e agências bancárias. E não é só nas indústrias que a jornada é longa. Em todo o país, os bancos abrem sete dias por semana.

Outras características importantes para o crescimento da China são a velocidade e a capacidade de adaptação do seu povo. Só como exemplo, os chineses nunca chegaram a usar cheques.

No tempo em que morei lá, os pagamentos eram feitos em dinheiro e a aceitação de cartão de crédito só estava começando. Não durou muito. Logo o Alibaba lançou o Alipay (2004) e, com o uso da nova tecnologia, a população aderiu ao QR Code.

Também há poucos telefones fixos. Na época em que passaram a ter condições financeiras para adquirir um telefone, já surgiam os celulares. Em 2020, havia quase 1,6 bilhão de celulares em uso, de acordo com a empresa de dados Statista.

O país fez sua lição de casa e, nos últimos anos, investiu muito em infraestrutura, de rodovias e ferrovias ao 5G. Em 2019, 50 cidades chinesas, entre elas Pequim e Xangai, já tinham serviço da quinta geração das redes móveis.

Como o brasileiro, o chinês tem um espírito empreendedor, porém a competitividade na China é de proporções inimagináveis em outro país. No período em que vivi lá, havia mais de 100 fabricantes de carro, caminhão e moto, além de mais de 450 fabricantes de cerveja.

A estimativa, à época, era de uma ascensão de 500 milhões de habitantes para a classe média entre 2010 e 2020, portanto, um incrível potencial de crescimento e poucas empresas com capacidade de atender a essa crescente demanda.

Outro ponto importante é a cultura chinesa de entender um produto. Replicar o produto com melhorias tem origem milenar. Isso pode não ser aceito fora da China, mas por lá é bem visto. Basta olhar para empresas como Didi, a Uber chinesa; Baidu, o Google de lá; ou o Alibaba, a Amazon local.

Por sinal, abrir uma empresa é muito mais simples do que no Brasil. O mais recente ranking de 190 países do estudo Doing Business, do Banco Mundial, coloca a China em 27º lugar no quesito começar um negócio – o Brasil está em 138º.

No aspecto facilidade de fazer negócios, a China ocupa o 31º lugar, enquanto nós estamos no 124º. Isso sem falar do sistema de imposto: o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) de 7%.

E não para por aí: o empresário pode traçar seus passos sabendo que não haverá sustos no percurso, pois o planejamento quinquenal do governo, que se desenvolve de baixo para cima, não muda depois de anunciado. Ele é sugerido pelas cidades e discutido nas províncias até chegar ao plano federal. Pode haver adaptações, mas nada que afete o ambiente de negócios.

Em 2019, 50 cidades chinesas, entre elas Pequim e Xangai, já tinham serviço da quinta geração das redes móveis

Cada esfera de governo tem três metas, que são acompanhadas e avaliadas com extrema disciplina – elas determinam se um governante vai ser promovido dentro do Partido Comunista Chinês.

À medida que ficam mais velhos, os melhores e mais experientes líderes partidários têm a tarefa de treinar por dois anos os futuros gestores públicos, repassando conhecimento e replicando as melhores práticas aos novatos.

Os recém-graduados nas melhores universidades, com melhor performance, são recrutados pelo partido e imediatamente começam uma pós-graduação em gestão pública.

Em seguida, começam no partido como trainees. Em geral, o primeiro emprego é gerir uma rua, depois o bairro, um hospital, companhias públicas (e lá são muitas), até serem promovidos – se, obviamente, baterem suas metas. Esse modelo faz com que o sistema tenha alinhamento, seja consistente, e os planos de cinco anos sejam entregues.

Tudo isso permite que o mercado chinês seja muito maior e mais criativo, com empresas de tecnologia combinando comércio eletrônico e redes sociais para se tornarem empórios de compras online, como escreve o consultor em inovação Evandro Milet.

Diz ele que o futuro do e-commerce está sendo traçado na China, onde as plataformas de compras online combinam pagamentos digitais, negócios agrupados, mídia social, jogos, mensagens instantâneas, vídeos curtos e celebridades ao vivo.

Ao que tudo indica, a China finalmente abriu os olhos para o que parecia ser o último obstáculo ao desenvolvimento pleno desse setor: o problema das práticas abusivas de mercado.

Dentro de sua política de estimular a criação e o crescimento de empresas, os chineses vinham evitando discutir o tema ou adotar medidas para regular o comércio eletrônico. Agora, da mesma forma que Estados Unidos e União Europeia, decidiram esmiuçar os gigantes da tecnologia.

No fim de 2020, anunciaram uma investigação contra o Alibaba Group por, segundo denúncias, obrigar comerciantes a assinar pactos exclusivos de cooperação.

A decisão seguiu-se à abertura de processos, desde outubro, nos EUA e na UE, contra Facebook, Google, Amazon e Apple, todos por conduta anticompetitiva e formação de monopólio. No dia 8 de janeiro, o Reino Unido também anunciou investigação contra o Google por abusos de sua posição dominante no mercado.

No aspecto facilidade de fazer negócios, a China ocupa o 31º lugar, enquanto nós estamos no 124º

No Brasil, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) é a entidade responsável por monitorar questões concorrenciais e estruturar a prática da livre concorrência.

Aqui, mesmo um mercado dinâmico e ágil como o “online to offline”, que engloba os apps de entrega, a regulação é necessária para evitar abusos. Como está hoje, não há espaço para que algumas empresas menores possam ter condições de sobreviver.

Em resumo, é mais fácil competir na China do que no Brasil. Portanto, precisamos discutir regras com todos os stakeholders, regular e fiscalizar seu cumprimento.

Só assim os players poderão atuar com sua estratégia de crescimento e a segurança de estar em um ambiente de livre concorrência – saudável e sustentável. Com nítidos benefícios aos consumidores.

Sergio Saraiva é presidente do Rappi no Brasil.

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