As reflexões de um investidor sobre o Brazil at Silicon Valley e o mercado de venture capital

O que virá pela frente no mercado de venture capital e quais startups – e empreendedores – vão sobreviver à nova era que está chegando ao setor

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Mountain View (Califórnia) – Parece que a maré de liquidez no mundo da tecnologia está secando, né?

Deve ter gente assustada, mas confesso que estou aliviado.

Quem é do mar sabe que esse movimento das marés é inevitável e diria até saudável.

Acabo de participar da conferência Brazil at Silicon Valley, na Califórnia, e percebi um vento de mudança no mercado de venture capital e inovação.

E, para surpresa de muitos, os investidores que estão há mais tempo na estrada, como eu, estão aliviados.

O mercado passa por ajuste natural dos múltiplos pós-pandemia, que era de certa forma esperado. Nada sobe para sempre!

Em 2021, o investimento de venture capital global subiu 111%, alcançando o recorde histórico de US$ 621 bilhões, segundo relatório da CBInsights. Só no último trimestre foram criados 959 novos unicórnios no mundo, alta de 69% na comparação com igual período do ano anterior, mostrando o avanço dos valuations.

Agora, as empresas de tecnologia estão voltando à média histórica de valuations e múltiplos. E isso não é ruim.

Grandes negócios, como Facebook, Google e startups como Salesforce, Slack, e centenas de outras que cresceram antes da pandemia, conseguiram enfrentar períodos de dinheiro menos farto. Essas companhias focaram em criar valor, em resolver dores do mercado, e sempre viram o valuation como consequência disso.

Vai haver uma seleção natural dos empreendedores e um pouco de volta às origens do ecossistema de startups

Acho que vai haver uma seleção natural dos empreendedores e um pouco de volta às origens do ecossistema de startups. O impulso historicamente era de mudar o mundo, buscar a disrupção.

O excesso de liquidez no mercado atraiu muitos investidores e empreendedores só pelo lado financeiro, sem o objetivo de criar algo inovador.

Houve uma inversão no mindset de alguns empreendedores. Eles passaram a olhar para o valuation como a meta do jogo.

Esse movimento pode parecer com o da virada do milênio. No estouro da Bolha Pontocom, entre 11 de março de 2000 a setembro de 2002, o Índice Nasdaq caiu quase 70%, passando de 5.000 pontos para 1.600.

Amazon e Apple, por exemplo, sofreram e sobreviveram. Hoje ambas têm valor de mercado superior a US$ 1 trilhão.

Elas, assim como Airbnb e Slack, nasceram para gerar valor ao cliente e sempre focaram em atender a uma necessidade real de mercado, o que executaram de forma brilhante.

Houve uma inversão no mindset de alguns empreendedores. Eles passaram a olhar para o valuation como a meta do jogo

Mas teve gente que parece ter lido só o fim da jornada, esquecendo qual o objetivo de montar uma startup.

Quando e somente quando a dor de mercado é resolvida, o empreendedor até pode, eventualmente, se tornar “rico e famoso”.

Não podemos generalizar, claro!

Existem empreendedores muito centrados no cliente que, por consequência, conseguiram criar negócios valiosos, no Brasil e no exterior.

O Nubank é um grande exemplo.

Todo mundo fala do valuation do Nubank, mas, por oito ou nove anos, o foco da startup foi o público desbancarizado. O projeto de David Vélez e Cristina Junqueira não era se tornarem os latinoamericanos mais ricos da área de tecnologia.

Antes disso, eles incluíram, só no Brasil, mais de 3,8 milhões de pessoas que não tinham conta nos bancos tradicionais. Vários outros unicórnios percorreram a mesma trilha. Muito suor para criar valor, gerar soluções e transformar mercados.

Durante a conferência, conversei com representantes de vários fundos brasileiros e americanos que investem no Brasil. Minha impressão é de certo alívio porque os valuations e novos múltiplos ajustados vão separar o joio do trigo.

Os investidores querem saber quem está realmente focado em construir negócios que tenham impacto. Esses vão continuar no jogo, já que a intenção e propósito deles é criar valor para os clientes e apoiar empreendedores que querem mudar o mundo.

Em um dos painéis aqui, Kevin Efrusy, experiente investidor americano de tecnologia e sócio da gestora Accel, comparou alguns empreendedores a crianças famosas, como as estrelas mirins que crescem com crise de identidade.

Kevin Efrusy, experiente investidor americano de tecnologia e sócio da gestora Accel, comparou alguns empreendedores a crianças famosas, como as estrelas mirins que crescem com crise de identidade

Para ele, vai ser assustador para muitas startups ter de descobrir quem são. Enquanto havia capital abundante, muitas foram displicentes com seus diferenciais para disputar a corrida de quem queima caixa mais rápido.

E o que tudo isso significa? Que o dinheiro acabou? Não. Só vamos voltar a como Venture Capital foi desde sua origem: apostando em founders obstinados em transformar o mundo. Um cliente por vez.

*Pierre Schurmann é ceo da nuvini e founder da Bossanova investimentos

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